Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

Felicidade: procura-se

26 de setembro de 2013 - 17:17

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O segredo para ser feliz é aproveitar ao máximo aqueles momentos da vida em que se sente bem, em que tem prazer de viver. Não é ficar esperando um acontecimento especial que provavelmente nunca chegará: casar com a mulher que só existe em sonhos ou ganhar uma fortuna na loteria. 
Mesmo quando o grande sonho finalmente acontece, em pouco tempo surge o vazio do “depois”, quando a pessoa entra no “agora, qual é o próximo passo para ser feliz novamente?”. As pessoas precisam aprender a ser felizes, saber valorizar as ocasiões  agradáveis do cotidiano que fazem a vida valer à pena. Reconhecer com satisfação quando a previsão do ruim não se concretiza: o provável congestionamento na volta da praia, o possível trauma da queda do filho pequeno, o cachorrinho da família que parece ter se perdido…
A chave do tesouro é pegar a máquina de calcular e somar os instantes felizes e simples do dia-a-dia: o carinho do cônjuge, o magnífico por do sol, o olhar de agradecimento, o abraço sincero do amigo, o elogio do gerente…
A espera pela grande oportunidade da vida transborda de ansiedade e tristeza pelas incertezas do que realmente irá acontecer. A felicidade possui numerosos inimigos, mas sem dúvida, os famosos “se” e “quando” destacam-se pelo mal que causam às pessoas que não lutam para serem felizes, pois acham que somente acreditar é suficiente. Se eu conseguir me formar em engenharia… Quando eu ficar rico… Quando eu ganhar o torneio de pôquer… Se eu tiver a sorte de… Quando eu for promovido a supervisor… Se eu me apaixonar… Quando meu primeiro filho chegar… Se eu for eleito…
Os indivíduos viciados em alimentar a alma com os “se” e “quando” são incapazes de perceber e desfrutar os momentos de felicidade e passam a existência se lamentando pela falta de sorte. As pessoas precisam conhecer muito bem quais as suas necessidades que quando satisfeitas as tornam felizes. E crucial aceitar o improvável e parar de desejar o impossível. É evidente que a competência e a persistência podem conduzir o indivíduo a chegar mais longe, mas a ingenuidade do “querer é poder” deve ficar restrita aos livros de auto-ajuda. 
A felicidade é extremamente relativa. O que torna alguém feliz pode deixar o outro indiferente. Os seres humanos são impulsionados a atender seus valores e satisfazer suas expectativas para se sentirem bem. Uns almejam muitos filhos. Outros preferem não tê-los. Uns idealizam viagens maravilhosas para conhecer o mundo. Outros se realizam em caminhar pelas ruas de sua cidadezinha. Uns desejam a presidência de uma grande multinacional. Outros querem ser donos do próprio nariz, dirigindo seu pequeno negócio.
É necessário seguir algumas regras-chave pode potencializar os instantes de felicidade. Levar a vida com bom humor; aprender a rir de si mesmo, de suas “gafes”; marcar hora para esquecer o problema sem solução; jamais perder a espontaneidade e irreverência da criança que mora dentro de si. 
Ajudar o amigo em suas dificuldades sem querer sofrer por ele ou mais do que ele, pois isso tornará os dois infelizes. Não ser muito exigente consigo mesmo e nem com os outros. A perfeição só acontece nos finais “felizes para sempre” das estórias infantis.
Aprender a ser verdadeiro e não querer agradar a todos, pois provavelmente só conseguirá deixá-los infelizes. Dividir a meta em metas parciais, pois os instantes de felicidade serão multiplicados a cada etapa vencida. Perseguir os próprios sonhos sem perder a dimensão da realidade. Mudar de sonho se isso for preciso, trocando o inviável pelo possível. 
Manter o equilíbrio entre a irresponsabilidade do otimista e a teimosia do pessimista. Ser flexível nas atitudes, mas firme nos princípios e valores. Ter a consciência de que a felicidade está dentro de cada um, mas deve sempre que possível ser compartilhada com os semelhantes. Perceber a simplicidade dos momentos felizes, senão eles irão embora antes de serem desfrutados.  A verdadeira felicidade pode ser exemplificada pela seguinte estória.
“A netinha pergunta à sua avó. Quando eu ficar velhinha, vou ser feliz? ‘Não, minha querida, quando você ficar criança é que você será feliz’, responde a anciã. ‘Mas eu já sou criança’, exclama, surpresa, a menina! Então, nunca se esqueça de ser criança quando você ficar adulta!”  
A felicidade é a soma dos pequenos instantes de felicidade. Muitos passam a vida inteira em busca da felicidade, esquecendo-se de valorizar a que já tem, pois estão muito ocupados em invejar a dos outros. Alguns chegam tristes ao fim da vida porque nunca puderam encarar a felicidade de frente, sem perceber que ela esteve presente em inúmeros momentos de suas vidas. Outros descobrem tarde demais qual o verdadeiro significado da felicidade ao serem invadidos pelo sentimento do “eu era feliz e não sabia”. 
Texto extraído do livro “A Arte de Conviver”.