Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

Liberdade

24 de junho de 2015 - 10:00

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Definir liberdade não é uma tarefa fácil. Ela possui múltiplas personalidades. Às vezes, se mostra ambígua. Em outras parece indecifrável. Em muitas ocasiões se apresenta de forma cristalina, mas em certas situações sua complexidade é marcante.

O que significa ser livre? É ter liberdade de expressão? E praticar livremente o exercício do voto em um regime democrático? É poder escolher sua profissão? É ter condições financeiras para atender suas necessidades? É ser livre para sempre falar a verdade doa a quem doer? É conseguir se comportar de maneira não alinhada com seus valores, preconceitos, hábitos e desejos? É ter liberdade para tecer críticas construtivas ou negativas a quem quiser e a qualquer hora?

O ser humano tem seu jeito de ser moldado pela hereditariedade e influências do meio ambiente. O uso que faz da liberdade depende de como sua personalidade foi constituída.

As pessoas têm autonomia para restringir e expandir sua liberdade sobre determinados fatores como a escolha dos valores numa situação específica, a modificação ou não dos hábitos arraigados em sua forma de ser, a expressão de seus pensamentos e outros. No entanto, elas sofrem influências políticas, econômicas e sociais que podem castrar sua liberdade.

A liberdade das pessoas se modifica de acordo com a evolução dos tempos. Antigamente os indivíduos podiam nascer escravos, e viviam cercados por limitações: na escolha da profissão, no lugar onde morar, nos costumes, na religião e na forma de acessar o conhecimento. Hoje, os humanos têm outras restrições no uso da liberdade, pois a maioria não é livre o suficiente – e não se dá conta disso – para descartar os artefatos da tecnologia digital de informação.

O que aconteceria se um indivíduo de sucesso e conectado com o mundo moderno quisesse diminuir o uso do smartphone, das redes sociais, da internet, do lap top ou do tablet?

A interação constante entre o ser humano e seus semelhantes com as inerentes influências positivas e negativas que podem exercer e receber limita sua liberdade de pensar e agir. A liberdade não pode prescindir do respeito e da responsabilidade. O mundo seria muito melhor se as pessoas não se esquecessem que a liberdade de um termina onde começa a do outro. Os exemplos a seguir confirmam essa verdade.

Os indivíduos e especialmente os jornalistas devem tomar cuidado ao veicular notícias não confirmadas que possam causar prejuízos irreversíveis à honra de alguém. Muitas vezes isso não acontece, pois a ambição fala mais alto sem se preocupar com a desgraça alheia. O livre pensar é a forma mais perfeita do planeta e privilégio exclusivo do ser humano.

Os pais não podem escorregar na arrogância da experiência, querendo cercear a liberdade de opinião de suas crianças, mas também não serem tolerantes em excesso permitindo que elas façam o que quiserem. A interação do professor com seus alunos precisa se pautar pela liberdade concedida a eles em discordar da opinião de quem ensina. Ele deve ter a humildade de se posicionar como um aprendiz antigo e não como o dono absoluto da verdade.

O verdadeiro líder deve permitir que sua equipe tenha a liberdade de propor novos processos, sistemas e metodologias, de fazer críticas construtivas, de ter iniciativas e de reclamar quando sentir que suas expectativas não estão sendo atendidas. É fundamental que o ser humano tenha liberdade para escolher sua sexualidade, seus hábitos de fumar e beber, o próprio peso, a maneira de se vestir, o uso do corpo em utilizar tatuagens e adornos entre outros.

A autocrítica, o senso de responsabilidade e o respeito ao próximo, restringem a liberdade individual, impedindo na maioria das vezes que ela seja exercida em sua plenitude.

Vale a reflexão sobre o conceito da liberdade absoluta. Será a liberdade duradoura uma realidade ou ela consiste no conjunto de momentos de liberdade vivenciados ao longo da existência?