Ideias
Adelto Gonçalves

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Maria João Cantinho e a poesia da condição humana

Novo artigo do professor universitário, jornalista e escritor Adelto Gonçalves

03 de abril de 2020 - 10:34

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Maria João Cantinho - Do Ínfimo
Maria João Cantinho

Maria João Cantinho: professora, poeta e ensaísta. Foto: Revista Caliban/Reprodução

I

Do Ínfimo (Guaratinguetá-SP, Penalux, 2018), de Maria João Cantinho (1963), publicado em 2016 pela Coisas de Ler, de Lisboa, vencedor do Prêmio Literário Glória de San´Anna de 2017 e finalista do Prêmio PEN (Poets, Essayists and Novelists) de Portugal em sua modalidade em 2017, é o primeiro livro de poesia da autora lançado no Brasil, mas, desde já, constitui um motivo extremamente forte para que a sua atual editora e outras venham a publicar toda a sua obra, que inclui mais três livros de poesia, quatro de ficção e um de ensaios.

Obra ligeira de 71 páginas, Do Ínfimo traz, na primeira parte, 24 poemas, reservando na segunda parte, intitulada “Caligrafia da Solidão”, uma prosa poética de 17 páginas, que, publicada em 2005 pela Escrituras Editora, de São Paulo, foi finalista do Prêmio Telecom de 2006. O texto traz dedicatória ao poeta paraense Vicente Franz Cecim (1946), o “mago de Andara”, conhecido tanto no Brasil como em Portugal pela força poética de uma escritura que escapa à classificação em gêneros literários e, não raro, é uma homenagem ao grande e estranho mundo da Amazônia. Basta isso para dizer que a prosa poética de Maria João é igualmente de difícil leitura e apreensão, o que, porém, não constitui obstáculo para que seja usufruída pelo leitor de bom gosto. E que pode ser lida como uma “carta de amor ao poeta”, como já observou a jovem crítica literária Danielle Magalhães (1990), poeta e doutoranda em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em recensão que fez do livro.

O texto, como já percebeu o escritor, pesquisador e crítico literário Krishnamurti Góes dos Anjos (1960) em resenha que escreveu para este livro, é um eco ampliado do pensamento do filósofo, ensaísta, tradutor e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940), que, aliás, foi tema de tese de mestrado da autora, intitulada “O Anjo Melancólico: Ensaio sobre o Conceito de Alegoria na obra de Walter Benjamin”, que recebeu o Prêmio de Apoio à Edição de Ensaio de 2002 da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, do Ministério da Cultura português.

Trata-se de um texto-metáfora com ressonâncias afetivas, um stream of consciousness (fluxo de consciência), técnica literária usada primeiramente pelo poeta francês Édouard Dujardin (1861-1949). Procura captar o ambiente da Amazônia, especialmente de Belém do Pará, região brasileira que a autora conheceu de perto, além do Rio de Janeiro, como já disse em entrevista. Não é, porém, um texto ditado apenas pela emoção ou por lembranças, que se destaca por sua qualidade lírica, pois se distingue também pelo rigor estilístico e pelo apuro técnico. Sem contar que, inspirado pela visão de mundo de Benjamin, um marxista, nada traz da pomposidade católica ou da esperança evangélica. Nele são raras as apologias religiosas, que são substituídas por referências a filósofos, ainda que seus nomes não sejam explicitamente lembrados, mostrando que a poeta pende mais para a incredulidade e para a descrença. Como exemplo disso, leia-se a parte final de sua prosa poética:

(…) Depois, veio a chuva e a Terra inundou-se de uma água que era o Tempo, possuída de vozes do passado que percorriam a floresta. E aquele que, dormindo, via tudo em sonhos, chorou por dentro do sono, onde nada o alcançava. Porque luminescera a Letra, fundira o espírito e a carne na Leveza de si mesmo. Reescrevera o homem na mais perfeita Caligrafia da Solidão. E da sua urgência saía agora o pássaro leve, capaz de levar a boa nova aos homens, cujos olhos apenas viam a devastação. O pássaro alimentava-se da sua carne, do seu sangue, libertando-o de si, do sonho. (p. 71).

II

Dos 24 poemas que compõem a primeira parte, há pelo menos dois que são explicitamente inspirados na meninice da autora, pois fazem referência à terra de seu pai, Angola, onde ela viveu a infância, tendo retornado a Portugal em 1975, com a guerra civil que, depois da independência do país em novembro daquele ano, continuou até 2002, envolvendo a luta pelo poder entre dois antigos movimentos políticos, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita). Um desses poemas é “Há um país antigo que se abriga em mim”, que evoca a época em que Angola ainda era uma colônia portuguesa. Leia-se o poema:

Há um país antigo que se abriga em mim/ um país de que não me lembro/ senão de mim menina, uma língua/ de sol e água que se cola à minha pele,/ obstinadamente quer ser tempo em mim,/ quer ser boca, procura a abertura,/ escorre entre as fendas da

memória,/ como um pássaro de asas partidas./ Há um país antigo que se abriga em mim/ e eu procuro a voz do vento que o cante,/ nessa harpa fria que é memória minha. (p. 27).

Essa evocação continua em “Um rio, um nome” em que a poeta volta a evocar o vento, as árvores e as águas limpas de um rio daquele pedaço de África, a terra de seu pai, ao tempo em que ela, menina, ainda “não nadara no múltiplo leito de Heráclito” (500a.C-450a.C), o filósofo socrático, considerado o pai da dialética”, cujo pensamento só conheceria a fundo a partir de seus estudos para a tese de doutoramento em Filosofia Contemporânea que defenderia na Universidade Nova de Lisboa. Eis o poema:

(…) Na terra do meu pai havia laranjas/ e chão, havia sol e murmúrios/ e nós ouvíamos a respiração da noite/ por dentro das raízes das árvores/ e o rio falava com as pedras/ e com a luz/ e nós corríamos/ ou éramos levados pelo vento/ que acendia a folhagem./ Na terra de meu pai não havia medo/ só um rio e as águas limpas/ onde as mulheres lavavam a roupa/ e cantavam ao som da terra./ Na terra do meu pai corria um rio/ e os homens tinham lugar/ era um rio por coração/ era um nome/ para um homem. (pp. 28-29).

O que se pode acrescentar ainda de seus versos livres é que são dedicados “às pequenas coisas”, mas, ao mesmo tempo, mostram a pequenez da condição humana e evocam a natureza com imagens poderosas. É o que se pode constatar no poema que dá título ao livro:

Não sei senão do ínfimo/ e do murmúrio das pequenas coisas,/ as que não chegam à palavra/ como a sombra ou o vento desenhando-se sob os álamos,/ em quieta reverberação./ E nada sei, senão desse canto/ invisível, mais sonho que metáfora,/ do tempo que é no fruto/ ou do que sabe ser sol, sem alarde/ do breve e da passagem./ E nada sei dessa grandiloquência/ dos homens, das suas promessas/ e dos gestos que traem o coração,/ dessa palavra ou excesso que mata/ a perfeição circular do instante./ Se é vida, sangue ou oiro,/ nada sei, nada de nada/ escondido que ele é/ no ínfimo e na sombra. Oculto. (p.17).

Como já observou com percuciência o escritor português António Cabrita (1959), residente em Maputo, nos poemas de Maria João Cantinho, “a ênfase não está no brilho (as imagens fulgurantes) mas antes na justeza das palavras”. Para Cabrita, são versos que testemunham um desencontro com as idealidades, disfóricos, versos de onde se parte ou

nos quais se vinca que algo se perdeu e que quando encenam um retorno recortam um céu plúmbeo em fundo. “Contudo, a tristeza que neles se plasma foge de consolidar-se como a abstração de um saber, ou da congelação melancólica. Daí que surjam laivos de revolta e vários poemas reclamem um certo cariz social”. Melhor definição não seria possível.

III

Nascida em Lisboa, Maria João Cantinho é professora, poeta, crítica literária e ensaísta. É investigadora do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e colaboradora do Collège d’Études Juives da Universidade da Sorbonne IV, de Paris. Foi professora do ensino secundário e atuou no Creative University of Lisbon (Iade) entre 2011 e 2016. É colaboradora da Revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e de diversas revistas literárias e acadêmicas, além de membro do Conselho Editorial do Caderno do Grupo de Estudos Walter Benjamin. É também editora da Revista Caliban.

Foi professora-visitante no Brasil em 2013 (Brasília, Goiânia e Rio de Janeiro), tendo feito conferências também na França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Índia. Tem igualmente organizado vários congressos, consagrados ao pensamento de María Zambrano (1904-1991), em 2006, Walter Benjamin, em 2008, Emmanuel Levinas (1906-1955), em 2009, e Paul Celan (1920-1970), em 2012.

Está representada em várias antologias publicadas no Brasil, Espanha, França e México. É ainda curadora da Coleção Trás-os-Mares, que edita autores portugueses no Brasil, pela Editora Circuito, com o escritor e editor Renato Rezende. É igualmente curadora da Coleção MU-Continente Perdido, da Editora Exclamação, do Porto.

 

Maria João Cantinho - Do Ínfimo

Foto: Revista Caliban/Reprodução