Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Nossa Senhora do Monte Serrat – 400 anos de devoção

No artigo de hoje, vamos celebrar os 400 anos de devoção à Nossa Senhora do Monte Serrat, iniciado a partir do milagre a ela reputado em fevereiro de 1615, ocasião da invasão holandesa em Santos, comandada por Joris Van Spilbergen. Ele está dividido em duas partes. Na primeira, de hoje, permitimo-nos utilizar uma linguagem romanceada, narrando de forma ficcional o fato que se tornou uma das mais belas lendas da história santista.

04 de setembro de 2015 - 13:01

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nossa senhora do monte serrat“As pernas pesavam e o cansaço era realmente angustiante, tanto quanto o terror que dominava a mente dos que escolheram se refugiar no alto do Morro de São Jerônimo, ou da Vigia (atual Monte Serrat), onde fora erguida, havia poucos anos, uma modesta capela dedicada àquela santa catalã, espanhola, Montserrat, tão desprezada pelos colonos portugueses que habitavam a Vila de Santos*. Apesar de ter sua imagem roubada e atirada ao mar por piratas ingleses em 1591, Santa Catarina de Alexandria ainda era tida como a verdadeira protetora dos santistas e, assim, era a ela para quem deveriam ser dirigidas as orações que pudessem afastar, mais uma vez, o sofrimento causado pelos cruéis corsários que insistiam em atacar a povoação. Era fevereiro de 1615, e Santos, mais uma vez, se via diante de uma agressão estrangeira, desta vez protagonizada pelo exército holandês sob o comando do navegador Joris Van Spilbergen (ele realizaria naquela viagem a segunda circum-navegação da história da humanidade).

Os invasores já haviam chegado até os limites da vila de Santos por terra. A decisão holandesa se dera pela presença das fortificações que guardavam a entrada do canal, em especial a Fortaleza da Barra Grande (construída entre 1581 e 1584, justamente para rechaçar a pirataria que assolava o Atlântico Sul). A ideia era conquistar, tomar a vila, o que deixaria as guarnições portuguesas e espanholas em má situação. O êxito na campanha faria com que o exército local ficasse cercado e desprovido de seu principal fornecedor de alimentos e água. Era um movimento arriscado, principalmente por conta do terreno a ser vencido, bastante alagadiço. Por outro lado, o prêmio era, de fato, compensador.

O que os holandeses lamentavam era o fato de os colonos terem sido precocemente alertados das suas manobras, monitorada de longe pelo vigia do monte. Mas, com um número expressivo de soldados (a maioria, mercenários), decidiram avançar na direção da vila. Os santistas, prevendo o inevitável, tomaram a dura decisão pela evacuação do povoado. Assim, enquanto uns faziam uso de pequenos barcos a fim de se esconderem nos mangues e ilhas próximas, a grande parte da vila decidiu refugiar-se no alto do Morro da Vigia, acreditando que, lá, os invasores não teriam interesse de ir. Ledo engano! Os holandeses perceberam o movimento de fuga e decidiram, por via das dúvidas, capturar os fujões, como presa útil de guerra. O drama, assim, tomava grandes proporções.

Aterrorizados por testemunharem o avanço dos piratas até o sopé do morro e, de lá, na direção do cume, onde estavam, os colonos se voltaram para a capela da Virgem estrangeira e ajoelharam-se, suplicando por sua intervenção divina. Era uma autêntica discrepância, pois o socorro teria de vir justamente de um santa que fora desprezada desde sua chegada à Santos havia poucos anos pelas mãos dos monges beneditinos. Contudo, aquela não era a hora de fazer-se de rogado. Com muita fé, dezenas de homens, mulheres e crianças oraram, choraram e pediram auxílio à Virgem Santa de Monteserrat. Foi, então, que algo fantástico aconteceu.

Como respostas às sinceras preces santistas, o tempo fechou-se de modo avassalador, e a chuva, torrencial, precipitou sobre a pobre vila

Os piratas galgavam ferozes as matas do morro e já davam como certeza o bote inevitável. Porém, de repente, a terra tremeu. Em fração de segundos, toneladas de rochas, mescladas com densa vegetação, rolaram desfiladeiro abaixo, arrastando os torpes homens do mar para a morte, sepultando-os definitivamente, para regozijo, e alívio, dos atônitos santistas.

Milagre! Milagre! De Nossa Senhora do Monte Serrat, a nova protetora dos santistas!

* Durante um período de sessenta anos (1580-1640), as coroas de Portugal e Espanha se uniram numa só, sob a Dinastia Filipina. Nesse tempo, o Brasil passou a ser governado pelos espanhóis. Foi neste período que se construiu a Fortaleza da Barra Grande e aconteceu a chegada de Nossa Senhora do Monte Serrat ao Brasil, trazida pelos monges beneditinos. Em Santos havia bastante resistência à dominação espanhola, mas sem conflitos. No entanto, o que provinha dos castelhanos era execrado pelos portugueses da vila, como foi o caso da santa catalã.

 

*Texto reproduzido do site Memória Santista