Dr. Bruno Pompeu

O velho e a Esfinge de Gizé

23 de fevereiro de 2012 - 18:18

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Ufa! Consegui! Já sei o enigma da Esfinge de Gizé. Ora bolas, tão fácil, por que só agora? Por quê? Porque tenho tempo para pensar na vida, refletir no passado e no presente, pois o futuro já sei o que me reserva. Minha mulher, numa cama, demenciada com Alzheimer, solitária num quarto, não mais pensa e só vegeta. Diariamente quando acordo para despertá-la vem à mente coisas dos extremos da vida.

Quando criança, usar fralda era engraçado e agora torna-se humilhante. Engatinhava e caía causando risos de alegria. Agora, depois da bengala e do andador, quando tentamos, nos espatifamos no chão com fraturas e escoriações. Escovar os dentinhos ainda de leite era uma briguinha gostosa, agora, escovar as dentaduras passa a ser nauseante. Balbuciávamos palavras, sílabas e todos ao redor gargalhavam de admiração. Hoje, somo ignorados por mais que saibamos falar e pior ainda se falarmos com dificuldades.

Cortar unhas na tenra idade causava-nos uma rebeldia deliciosa. Agora, afiados alicates rangem a grossa casca já deformada e de aspecto repulsível. Papinhas e sopinhas faziam-nos arregalar os olhos numa sujeira alegre, mas hoje, papas farináceas oferecidas por cuidadores são motivos de tristeza.

Nosso intestino, na tenra idade era um reloginho e o peniquinho era um trono mágico. Hoje, nossa massa fecal mal se movimenta e suas cólicas são humilhantes. Aprendizado com palavras cruzadas era motivo de batalhas entre nossos pares e agora servem para espantar o terrível alemão demenciante.

Pois é Esfinge de Gizé, agora ficou claro e já desvendei seu misterioso enigma: “Que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia, três à tarde e é mais fraco quando tem mais pernas?”. Fui criança, adulto e hoje, velho, sozinho, isolado no mundo e das pessoas não paro de pensar e me ver como resposta para o tal enigma. A verdade é que tanto eu quanto minha mulher já morremos simbolicamente e ninguém se deu conta. Filhos, netos, amigos, eles existem.