Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Pagu e o FESTA

Ícone cultural, Pagu, cria o primeiro festival de teatro amador do País, o FESTA

01 de setembro de 2015 - 06:00

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O ano era 1958. Jovens atores, dramaturgos e militantes culturais santistas iam chegando aos poucos e acomodavam-se como era possível na pequena sala de estar, onde já estava a espera-los ninguém menos do que o teatrólogo Paschoal Carlos Magno, personalidade nacionalmente celebrada pelo trabalho que desenvolvia junto ao público estudantil (ele havia acabado de criar o Festival Nacional de Teatro de Estudantes, cuja primeira edição acontecera naquele mesmo ano em Recife, Pernambuco). O clima era de puro entusiasmo. Afinal, não haveria melhor orientador do que Magno, para explicar aos jovens Plínio Marcos, Wilson Geraldo, Jansen Cavalcanti, Fernando Alves, Antônio Carvalhal, Evêncio da Quinta e Maurice Legeard, o mais velho da turma, com 33 anos de idade, como criar um evento de grande monta.

Os santistas já desejavam há algum tempo fomentar também seu próprio festival e, para isso, contavam com a força e o empenho de outro ícone nacional, uma mulher que, para todos os presentes, era mais do que um símbolo de resistência, cultural, social e política, era uma figura de absoluta fibra, coragem, talento e visão de futuro. Dona de uma história repleta de superlativos, Patrícia Rehder Galvão, mais conhecida pelo carinhoso apelido, “Pagu”, definitivamente estava preparada, e disposta, a ser a protagonista de um dos mais importantes episódios do cenário teatral brasileiro, como líder de um movimento que culminaria na criação do Festival de Teatro Amador de Santos, o FESTA, pioneiro no país. A sigla, aliás, não poderia cair melhor para uma trupe que exalava alegria a cada etapa durante a construção daquele sonho.

O FESTA nasceu, sim, por conta do anseio da classe teatral santista, e contou com forte apoio da imprensa, onde Pagu era “figurinha carimbada”. Jornalista de A Tribuna havia quatro anos (ingressou em 1954), ela não poupou esforços na cobrança de uma posição pública do município de Santos e do Governo do Estado de São Paulo para fomentar e contribuir na formação do festival santista. Pagu fez sua parte e promoveu o evento a partir do Departamento de Cultura que havia incentivado a criar no próprio jornal, “importando” o modelo que já era adotado em alguns órgão de imprensa da capital. A coordenação em A Tribuna coube ao professor Luís Carranca. O festival também contou com a participação da Comissão Estadual de Teatro e da Comissão Municipal de Cultura, ambas estimuladas por Pagu (que era membro da comissão santista). A jornalista não economizou linhas em seus artigos para exercer sua pressão pelo investimento no segmento teatral. Disse ela no artigo publicado em 26 de março de 1959.

“Caberá aos poderes públicos sem olhar a considerações de ordem política, sem pensar em aproveitar do estímulo cultural para se prestigiarem perante o eleitorado possível, dar todo o apoio a esse trabalho, que precisa do esforço e da cooperação de todos para poder ser efetivamente levado a efeito”.

Pagu, com todo seu empenho, ultrapassou todas as dificuldades e fez o FESTA nascer forte, firme e brilhante. O festival santista, ao longo dos anos, tornou-se uma referencia nacional e internacional e ostenta, com muito orgulho, o título de o mais antigo festival de teatro amador do Brasil e, quiçá, das Américas!

Pagu, uma idealista
Patrícia Galvão, nascida em São João da Boa Vista em 9 de junho de 1910, teve uma vida intensamente agitada. Desde jovem foi considerada “extravagante”, demonstrando um comportamento considerado fora do padrão conservador da época. Frequentou a casa de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, com quem chegou a se casar em 1930. Ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) no ano seguinte, e chegou a ser presa em Santos durante um comício grevista dos estivadores do porto.

Foi encarcerada na atual Cadeia Velha por algumas semanas. Publicou romances de forma clandestina (o conteúdo era considerado comunista). Morou na França, onde de filiou ao Partido Comunista, adotou o pseudônimo de Leónie e foi presa três vezes. Voltou ao Brasil e voltou a ser presa após o levante comunista em 1935, cumprindo quatro anos e meio de cadeia. Foi candidata a deputada estadual pelo PSB em 1950. Chega a Santos em 1954, onde vive até a morte, em 1962.

*Texto reproduzido do site Memória Santista