O governo Lula, em outubro passado, escancarou a farsa da política brasileira.
Dois ministros, André Fufuca (Esporte, do PP) e Celso Sabino (Turismo, do União Brasil), permaneceram nos cargos mesmo após seus partidos declararem oposição ao Planalto, numa ginástica de lealdades que desafia a lógica.
Acordos espúrios mantêm essa “geleia geral”, onde base e oposição se misturam como água suja, sem distinção.
A separação de poderes, pilar de qualquer democracia, é uma piada cruel.
Executivo e Legislativo barganham ministérios e emendas como se o Brasil fosse um mercado de pulgas, enquanto o Judiciário, ativista e intocável, legisla disfarçado de árbitro.
O interesse nacional? Relegado ao último lugar, soterrado por privilégios de uma elite que trata o Estado como herança particular.
Somos o “país dos coitadinhos”, onde direitos – ou melhor, favores – de poucos prevalecem sobre o bem comum.
Charles-Louis de Montesquieu, que teorizou a separação de poderes, deve se contorcer no túmulo.
Em O Espírito das Leis (1748), ele alertou: “Quando o poder legislativo e o executivo se reúnem, não há liberdade.”
No Brasil, essa fusão é rotina. O Centrão, com sua voracidade, troca apoio por cargos e verbas, enquanto o Planalto cede para evitar CPIs.
O resultado é um patrimonialismo descarado, onde o público vira butim privado.
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder (1957), descreveu isso como “a fusão do Estado com a sociedade pela dominação burocrática”.
Décadas depois, sua análise segue cruelmente atual: ministérios viram feudos, e a nação, refém.
Essa promiscuidade não é acidente; é método. A governabilidade, tão alardeada, é apenas cleptocracia maquiada.
O povo paga a conta com inflação que corrói salários, saúde em colapso e escolas sucateadas.
Lula, que já posou de ético, agora dança com oportunistas, enquanto Fufuca e Sabino, meros peões, simbolizam a falência moral de um sistema.
A crise não é só políticta; é civilizacional.
O Brasil precisa de reformas urgentes: fim das emendas secretas, candidaturas independentes de partidos e um Judiciário que julgue, não legisle.
Sem isso, continuaremos a ser um país onde a república é um mito, e a democracia, um teatro de sombras.
Montesquieu via a separação de poderes como a base da liberdade política. Aqui, ela é um cadáver pisoteado por interesses mesquinhos.
É hora de o Brasil acordar, romper essa geleia tóxica e colocar o interesse coletivo acima dos conluios.
Do contrário, o túmulo do barão de La Brède será também o nosso.

Marcos Cintra é doutor em Economia por Harvard e professor titular da Fundação Getúlio Vargas. Foi Vereador, Deputado Federal, Secretário Especial da Receita Federal do Brasil do Ministério da Economia, Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Secretário do Planejamento do Município de São Paulo, Secretário de Finanças do Município de São Bernardo do Campo, Secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Município de São Paulo e Subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo.
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