Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Seduzido pelo poder

Lula sucumbiu às tentações da corrupção, repetindo práticas como tantos outros políticos e servidores públicos que perpetuam a “propinocracia”

18 de setembro de 2016 - 10:33

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A denúncia encaminhada pelo Ministério Público à Justiça, acusando o ex-presidente Lula de ter sido o“comandante” de um esquema criminoso investigado pela Operação Lava Jato, representou mais um duro golpe contra um ideário político que, durante mais de quatro décadas, foi sustentado pelo populismo e pela falsa defesa contumaz de princípios éticos e de honestidade. Descontados os exageros retóricos proferidos pelos promotores durante a apresentação midiática da denúncia, e por mais que se assegure o mais amplo e irrestrito direito à defesa ao ex-presidente, a farta documentação acusatória anexada ao processo de denúncia – somada a tantas outras evidências e fatos conclusivos que têm se revelado ao longo da investigação colocada em curso pela Polícia Federal -, restaram poucas dúvidas que ainda possam, de alguma forma, eximir Lula dos crimes a ele imputados.

Já não há mais ninguém, em sã consciência, capaz de acreditar na pureza de seus atos, especialmente quando se sabe do convívio próximo e compartilhado com réus já condenados pela prática de crimes semelhantes, sendo eles tesoureiros de seu partido, ex-ministros de seu Governo e integrantes de sua própria família. Está mais do que claro que Lula sucumbiu às tentações da corrupção, repetindo práticas como tantos outros políticos e servidores públicos que perpetuam a “propinocracia”, um pejorativo e vergonhoso traço cultural que ao longo da história permeia a política brasileira.

Mais do que isso, com seus pares, tentou instituir no País um modelo de poder baseado na troca de favores e com o firme propósito de se perpetuar utilizando recursos públicos em prol da causa. Lula contradisse com suas atitudes o que condenou ao longo de sua trajetória política. Sabe-se agora que ele e seus companheiros de luta são iguais ou piores a outros políticos que fazem do discurso fácil uma prática profissional de iludir a população, sobretudo os mais humildes e de baixa instrução, submissos às retóricas paternalistas e carentes de razões para alimentar algum tipo de esperança.

É de se lamentar que esse seja o desfecho da história do ex-operário que virou presidente da República por ter conduzido o estandarte das reivindicações sociais e da moralização política, mas que sucumbiu à sedução de utilizar meios espúrios para conquistar o padrão de vida burguesa que sempre condenou. Por certo, todos os casos de corrupção que agora puderam ser conhecidos em detalhes, haverão de ajudar no aprimoramento das medidas a serem adotadas para evitar que voltem a ocorrer. Neste sentido, o Brasil pode e deve contrariar a tendência pessimista imposta pela decepção e descrença com sua classe política, demonstrando competência para escolher, por meio do voto livre e democrático, representantes comprometidos com princípios éticos e dispostos a reduzir as imensas diferenças sociais que ainda geram miséria e violência. A falta de transparência, omissão e o desinteresse do eleitor sempre serão terrenos férteis para a recorrência de crimes de corrupção.