Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Ser ou não ser?

05 de outubro de 2014 - 09:00

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Escrever sobre homossexualidade não é fácil, mas se faz mister falar disso pois é um assunto muito pouco conhecido, mas intensamente vivenciado nos dias de hoje. Creio que o conhecimento é o primeiro passo para que preconceitos e angústias sejam derrubados, assunto que não precisa de acusadores nem defensores, pois faz parte dessa imensa diversidade que é o tempero do mundo e das relações.

O que eu pretendo na verdade é refletir o quanto a humanidade é contraditória em um assunto que caminha com ela, mas sempre à margem.

De uma maneira geral, a expressão da sexualidade fica reduzida a um coito, a uma relação sexual, não levando em conta outros aspectos, às vezes até nem ligados aos órgãos genitais que são tão ou mais importantes que isso.
Na teoria, a liberdade é um sentimento que todos nós perseguimos, mas na prática só conseguimos quando temos coragem de viver em harmonia com o que sentimos.

Charlote Wolff bem definiu em seu livro – Amor entre mulheres – “…não é o homossexualismo, mas o homoemocionalismo, ou homoerotismo nomenclatura que eu prefiro, que constitui o centro e a própria essência do amor homossexual ,e assim também deveria ser nos encontros heterossexuais, o que ainda infelizmente não ocorre…”

Desde o momento em que um casal decide ter um filho se programando ou até a notícia de uma gravidez faz com que todo o ambiente familiar passe por um processo de mudança baseado nas expectativas dos pais na sua maioria com um script pronto escrito pela sociedade dependendo do sexo do bebê.

A partir daí, a história dessa criança passa a ser construída nesses moldes.

Na puberdade, as transformações anatômicas e fisiológicas são grandes e rápidas. As relações familiares também passam a ser questionadas e desafiadas promovendo uma reavaliação da psicodinâmica familiar e um afastamento desses jovens dos paradigmas familiares, até um dia em que o pai ou a mãe são surpreendidos com a percepção de que a filho não está correspondendo ao sonho da princesinha casadora ou do machinho que luta boxe .

Depois dessa introdução geral, uma conversinha olho no olho para as mãe e famílias…

A homossexualidade tem algumas características particulares, ela também pode e deve ser afetiva além de sexual.
Embora o relacionamento sexual exista, são relacionamentos homoafetivos na sua essência.

Não serei hipócrita em dizer que os pais ou a família de um jovem que assume sua homossexualidade devem aceitar sem angústias, pois, desde a primeira boneca, já estamos pensando na nossa princesinha realizando os nossos sonhos, casando, tendo filhos e sendo a rainha do lar.

Nada contra isso, mas também sabemos que os filhos raramente satisfazem esse enredo, pois a vida deles não é nossa e os sonhos deles são particulares. E, na medida em que crescem, assumem seus desejos, independente de nossa romântica visão.

Proponho uma conversa franca, podendo até falar da decepção, mas nunca culpando ou forçando a mudança.
Como mãe e com o dever de preparar os filhos para a vida, orientar apenas para que tenham dignidade, que se respeitem e se firmem na vida pessoal, familiar e profissional como pessoas de fibra, dignas da admiração e do orgulho da sociedade.

Resolvi escrever sobre esse assunto hoje pois nessa época de campanha eleitoral vi e vejo muita gente pegando carona nesse tema e enganando muitos desavisados numa posição dicotômica de a favor ou contra.

Infelizmente, percebo muita gente ingênua que cai nesse discurso.

A diversidade é o tempero da vida e não deve ser atacada nem defendida como se fosse um caso à parte, mas sim estar em todos os discursos como fato,como escolha e como a representação da liberdade.