Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Será que acabou?

13 de setembro de 2014 - 09:18

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Em qualquer encontro entre duas ou mais mulheres maduras o assunto sempre vai para as questões ligadas às perdas naturais dessa idade. O mais comum é um discurso totalmente alucinatório sobre hormônios, terapias alternativas, tratamentos milagrosos e o que é pior, histórias de mulheres que sucumbiram a esse momento de transição, histórias das mais fatais possíveis.

Será que é isso tudo assim tão dramático? Não ouso falar profundamente sobre as alterações hormonais, que estão na alçada da Medicina. Mas as mudanças não ocorrem apenas no corpo. Elas também invadem aspectos psicossomáticos da existência e compreender isso é fundamental para o autocontrole e a compreensão do que está ocorrendo.

É preciso atentar conscientemente não apenas para as perdas, mas também para os ganhos, pois sendo um processo natural supõe-se que seja apenas uma transformação do amadurecimento assim como ocorreu em outras fases da vida, a relembrar: na ocasião da menarca, a primeira menstruação, tão esperada pelas meninas para se tornar mulheres.

A primeira menstruação é, inclusive, em algumas culturas, comemorada. E por que não comemorar também os ganhos da maturidade, pois o impacto que o climatério exercerá na mulher está intimamente ligado a sua história de vida, de como enfrentou outras crises, como a primeira menstruação, a gravidez, a adolescência e outras vivências, no meu ponto de vista, intimamente ligadas à sua sexualidade?

Não há como negar que toda transição humana é difícil porque o que existia ainda não morreu e o que virá ainda não nasceu.
O mais importante de tudo é dar um significado às crises e, se no momento da primeira menstruação a crise foi sem sabedoria, neste momento da vida madura, que está repleta de enriquecimento interior e decisões pessoais, livres e independentes, assim se espera.

Partindo dessa característica, é essencial treinar e efetivar o resgate desse lado forte da mulher que é o de seu ser, único e pessoal, na palma da sua mão, obedecendo apenas seus desejos, anseios e sonhos, o que é de se esperar já seja possível nessa altura da caminhada da vida. O impacto desse momento está proporcionalmente ligado à história de vida, como as crises obrigatórias foram elaboradas, do conceito de jovem que a sociedade valoriza e, principalmente, da postura e da compreensão holística do profissional que acompanha a mulher nesta fase da vida. E essa postura inclui a possibilidade de escutar e de acolhimento para os medos e dúvidas.

Nessa etapa da vida, o que mais chama atenção, como em todo caminho novo a ser percorrido, é a insegurança, que na fragilidade do espaço para uma postura crítica, pela culpa e o medo, instala-se a passividade.Essa prisão sem grades, mas de difícil fuga pode acarretar doenças físicas, crises de depressão, pânico e até doenças graves e de relacionamento. Talvez esteja aí a explicação do comportamento daquela sogra maluca e persecutória, da mulher que sente seu corpo por meio da dor, da amargura do medo da velhice e do fim.

Só assim ela deixará de lado a culpa, a insegurança e o medo da rejeição, reconhecendo que quem não sabe como lidar com isso sofrerá muito mais.

O grande desafio dessa fase da vida é justamente, perceber que a perda é apenas da possibilidade de procriar, mas que dá espaço para um recriar-se permanente e intenso.