Gabriel Pierin

Gabriel Pierin criou o Era uma vez em Santos... nasceu como uma ideia, virou um projeto e será sempre uma obra inacabada. Resgatar e preservar a memória da cidade é um compromisso de todos aqueles que amam Santos, sua história e suas pessoas. Afinal, cada pessoa, cada lugar, tem sempre uma história para contar.

Sumatra – O primeiro fast-food de Santos

Se a Sumatra é uma feliz lembrança na memória dos santistas, a trajetória de sucesso dessa família de imigrantes indonésios é pouco conhecida.

10 de novembro de 2015 - 10:22

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Quem foi estudante na década de 80 e excursionou pelos diversos museus de São Paulo lembra que essas visitas tinham um sabor a mais. Entre um lugar e outro, a parada para o almoço passava obrigatoriamente pela sensação da época: o McDonald´s. A novidade ia além dos hambúrgueres e das batatas-fritas sequinhas e crocantes. O McDonald´s lançara a sua filosofia fast-food no Brasil e isso encantou a garotada. O ritmo frenético da lanchonete, a arquitetura e decoração atraentes das lojas eram apenas alguns dos atributos da rede. A garotada experimentava novas sensações: escolher com liberdade, furar a tampinha do copo de coca-cola com o canudo, despejar as sobras na cesta de lixo. O McDonald´s mudou o comportamento de consumo de toda uma geração.

Os santistas mais privilegiados já frequentavam a rede em São Paulo. Os amigos paulistanos que, de férias se hospedavam na cidade em casa de parentes, orgulhavam-se e até menosprezavam nossa terrinha caiçara por não haver nenhum McDonald´s e nem mesmo um shopping com Praça de Alimentação. Outros ainda vangloriavam-se por ter conhecido o McDonald´s ainda nos Estados Unidos e traziam na bagagem a novidade envolta de mistério. O fato é que o McDonald´s só chegaria a Santos no início dos anos 90.

Os santistas, contudo, têm motivos para se orgulharem. No dia 18 de setembro de 1986, surgia em Santos uma lanchonete que iria revolucionar os passeios das famílias, os encontros, baladas e paqueras da juventude santista: a Sumatra. O dia 18 não foi escolhido ao acaso. Era a primeira noite de lua cheia do mês de setembro. Seguindo a tradição chinesa, seus idealizadores esperavam os melhores augúrios para o novo negócio. Desnecessário. A ansiedade do povo santista era enorme. A famosa cronista Lydia Federic, em sua coluna do Jornal a Tribuna “Gente e coisas da cidade”, na ocasião da inauguração, publicara: “[…] De fato, onde, aqui, algo parecido a esse gênero de serviço alimentar? Em que, escolhido o prato, este, com o hamburger já embalado – com a sofisticação solicitada – já pulava, quente, feitinho na hora, para a mão que acabara de comprar o ticket da caixa? Isso, na ocasião, me causava espécie. Dava-me frustração de caiçara subdesenvolvida […]”

Quem viveu essa época lembra muito bem do que a Sumatra representou para os santistas. Todo o conceito da rede americana foi empregado na Sumatra. O seu fundador, Hiu Hon Ping não esconde a inspiração. Em visita a uma unidade do MC Donald´s, na avenida Brasil em São Paulo, os irmãos Hiu não exitaram: “Vamos fazer uma igualzinha em Santos”. Muita gente até preferia o sabor e a crocância das batatinhas da Sumatra. “A receita é resfriar as batatinhas cortadas em um recipiente com gelo e fritá-las em óleo vegetal especial”, ensina, sem nenhum segredo, o simpático Ping.

Se a Sumatra é uma feliz lembrança na memória dos santistas, a trajetória de sucesso dessa família de imigrantes indonésios é pouco conhecida. A família chinesa Hiu, vivia no interior da ilha de Sumatra (isso mesmo, o nome da lanchonete não é mero acaso!) muito bem estabelecidos. O pai de Ping, produtor de borracha, em 1961, decidiu “literalmente” mudar de vida. Nessa época Ping tinha dezessete anos. A família embarcou rumo a cidade de Santos. Aqui Ping e seus irmãos trabalharam na pastelaria “São Leopoldo”, no centro da cidade, durante cinco anos. Aprenderam a preparar pastéis e caldo de cana. O aprendizado motivou os irmãos a alçarem vôos mais altos. Em 1965 eles inauguraram aquela que se tornaria uma das mais movimentadas pastelarias da cidade: a Pastelaria Sumatra, na esquina das avenidas João Pessoa e Senador Feijó. Permaneceram por 15 anos, até 1980. A pastelaria, por si só, já é uma história de sucesso. O seu movimento era um reflexo dos bons tempos do centro santista, quando o bairro era conhecido popularmente como “cidade”. Quando perguntado sobre a quantidade de pastéis que eram feitos por dia, Ping desconversa: “Ninguém contava”.

Inspirados pela onda do McDonald´s, os irmãos Hiu, proprietários do imóvel recém-adquirido da rua Azevedo Sodré com a avenida Ana Costa, onde hoje funciona uma agência do Itaú Personalittè, trataram de construir e montar a nova lanchonete aos moldes da famosa rede mundial. Ping atesta que uma boa parte daqueles equipamentos modernos já era fabricada no Brasil.

A receptividade do povo santista, carente na ocasião de lanchonetes daquele porte, foi imediata. “Depois do cinema, antes da discoteca e, principalmente, como um passeio familiar, a Sumatra atraia centenas de pessoas diariamente”, lembra Ping.

Frequentadora casual da lanchonete, a empresária Lilian Prado lembra de detalhes no visual. “Chamava a atenção os quadros com fotos de modelos usando biquínis e maiôs.” Outros detalhes recheiam a memória dos entusiastas da Sumatra: se o Mc Donald´s tem o Big Mac como carro-chefe, a Sumatra tinha o Big “S” com seu famoso molho rosê.

Em 1987, um novo empreendimento, o Shopping Miramar trouxe uma outra opção para Santos: O Big Burguer. Em novembro de 1990, a tão esperada chegada do McDonald´s com toda a sua força de marketing e a decadência dos cinemas na década de 90, contribuíram para o fechamento da Sumatra, ainda viva na memória dos santistas e no coração da família Hiu.

Por Gabriel Pierin