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07 DE FEVEREIRO DE 2023

Tudo tão certo, tudo tão errado

Fernando Dezena

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A cidade fica mais alegre às sextas-feiras.

Desde a manhã há um frenesi, as pessoas dizem bom-dia com um sorriso, as mãos ficam lépidas para o aceno e ouve-se no rádio, caminho para o trabalho, músicas em vez dos jornais lamuriosos.

É no centro da cidade que se pode sentir com mais intensidade esse êxtase. Fiquei pensando: Pode ser pelas irradiações terem começado ali, desde sempre.

Mas, aprofundando a ideia, não creio que os jesuítas, que construíram a igreja entre três rios, ajudados por índios gentis, tenham se preocupado com isso.

– Ei, você, indiozinho sabido, alegrai-vos! Hoje é sexta-feira. Caça uma paca para um bom churrasco logo à tardinha.

Ou:

– Vá ao Tamanduateí e nos traga três piaparas grandes.

Não, não creio.

Certamente a alegria pelo dia só se deu depois da industrialização, quando os homens deixaram de ser livres (???) e tiveram os meses, os dias, as horas do dia demarcadas pelo labor.

Extenuados pelo massacre, na busca do pão de cada dia, sentem-se alegres e recompensados quando o final da semana chega.

Imaginam a bebedeira com amigos, a ida à praia em um bate-e-volta sem fim, o futebol no domingo, a missa, o namoro.

Sim, senhores, final de semana é dia de namorar, levar o brotinho ao cinema, comprar sorvete, andar pela praça.

Outrora. Hoje vai-se ao shopping, à casa de algum parente ou ao motel do bairro.

Do bairro, não. Sempre há um olhar indiscreto.

– Você viu, aquele não é o carro do Arnaldo. Está com a Mariinha? Cara de sorte.

Da mesma forma que a sexta é a exaltação da alegria, os domingos, depois que a noite cai, traz um certo pesar.

A rotina massacrante do trabalho espreita.

O berro de um chefe inconformado com a sua própria segunda-feira, porque chefe também tem quem nele mande.

E quando ela chega, vencidas as primeiras horas, já começamos a sentir um pequeno gostinho de sexta-feira.

Não só a ansiedade por ela chegar, mas relembrando, na pausa para o café, o final da semana que se foi e programando para o próximo o que deixou de ser feito.

Tudo tão certo, tudo tão errado.

Fernando Dezena é escritor, membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista, SP, diretor da União Brasileira de Escritores, curador literário do Espaço Cultural da Boca do Leão.

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