Um rei do Carnaval | Boqnews

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09 DE FEVEREIRO DE 2026

Um rei do Carnaval

Adilson Luiz Gonçalves

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O Carnaval sempre foi uma festa tipicamente de rua, eminentemente popular, e foi no Brasil que Momo estabeleceu seu trono.
Fosse em corsos, bandas, cordões ou qualquer outra manifestação, com ou sem máscaras, era nas ruas que ele encontrava sua maior expressão, em músicas e danças.
A festa de Momo, apesar de sua origem profana, era cheia de inocência e congraçamento: arte popular sem compromisso, maliciosa às vezes, mas sem exageros.
O tempo e outras intenções se encarregaram de tirar-lhe a pureza nativa e brejeira. A violência urbana a tirou de muitas ruas.
O turismo “para inglês ver” a confinou em sambódromos.
Mesmo os bailes de salão deixaram de ser locais de encontro de famílias e flertes discretos para se tornarem palco de sensualidade vulgar e outros abusos. Quase não há mais matinês.
Por que o Carnaval de outrora se perdeu? As escolas de samba não fazem mais sambas memoráveis.
A espontaneidade deu lugar à frieza da “linha de montagem”. A inspiração deu lugar ao “merchandising” e à afronta “engajada”.
Mas, em meio a esse horizonte de desencanto, ainda foi possível encontrar pérolas:
Eu gostava de ir aos bailes de rua, quando a “passarela do samba” de Santos era no Gonzaga, para observar as pessoas, sobretudo as solitárias, mas curiosamente felizes!
Uma delas foi especialmente marcante: um homem de meia-idade que usava todos os dias calça branca, mas alternava o colete e o chapéu “palheta”, ora prateados, ora dourados.
Seu rosto era redondo, pele morena, tinha bigode e cavanhaque finos, jeitão nordestino.
Ele não cantava, apenas acompanhava o ritmo das músicas: marchinhas, frevos e sambas-enredo, e o fazia caminhando como se estivesse numa “marcha atlética”, pairando por aquele imenso “salão”. Às vezes, surgia com uma latinha de cerveja e, de tempos em tempos, rodopiava qual um monge sufi.
Não incomodava ninguém. Pelo contrário, de olhos semicerrados e sorriso aberto, ele expressava a mais sincera nobreza, alegria e paz de espírito.
Sua passagem contagiava as pessoas, que o saudavam e sorriam para ele.
Ele era um legítimo “rei” do Carnaval! Um rei solitário, sem rainha, que talvez estivesse longe e ele fechasse os olhos para sonhá-la.
Um Pierrô sem Colombina, mas com a alma transbordante de confete e serpentina!
Ele ficou para mim, décadas passadas, como um símbolo derradeiro de um Carnaval que se perdeu no tempo, de canções que não se cantam mais, “canceladas”, de tradições que mereciam ser mantidas, mas que o “mercado” e o “politicamente correto” descartaram.
Esse sentimento não era novo, pois, na década de 1960, Vinícius e Carlinhos Lyra já lamentavam: “Acabou nosso Carnaval! Ninguém ouve cantar canções…”, mas exortavam: “E, no entanto, é preciso cantar! Mais que nunca, é preciso cantar! É preciso cantar e alegrar a cidade!”.
Cantemos e dancemos então!
Quem sabe a alegria volte às ruas e delas nunca mais se ausente.
Quem sabe o reinado do povo: a democracia, finalmente, prospere em todos os dias do ano!

Adilson Luiz Gonçalves
é escritor, engenheiro e pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras

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