Após caso de agressão a repórter, Sindicato protocola pedido de punição a policiais | Boqnews
1 de dezembro de 2014

Após caso de agressão a repórter, Sindicato protocola pedido de punição a policiais

Após o jornalista do diário Lance! Bruno Cassucci ter sido agredido e coagido por policiais Militares na tarde deste domingo, nos arredores do estádio Urbano Caldeira, a Diretoria Regional do Sindicato dos Jornalistas protocolou um pedido de informações no 6º BPM-I sobre o ocorrido. O presidente da entidade, Carlos Ratton, deve se reunir nesta terça-feira (02) com o comandante do batalhão, cel.  Ricardo Ferreira de Jesus, para cobrar providências acerca do ocorrido.

“Protocolei há pouco, na sede do 6º BPM-I, o pedido de informações e a punição dos envolvidos no caso. É algo inadmissível o que vem ocorrendo, este não é o primeiro caso de violência policial contra jornalistas da Baixada Santista. Entrei em contato com a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Segurança Pública e recebi a garantia de que nesta terça, devo conversar com o coronel para pedir soluções e cobrar respostas”, afirmou Ratton.

Assustado com tudo que presenciou, Cassucci decidiu não registrar a ocorrência ainda no domingo. “O pior já passou e estou bem”, disse o jornalista, que tentou fazer o boletim de ocorrência nesta segunda-feira (1º), menos de 24 horas após os fatos. “Mas a delegacia de São Bernardo do Campo, cidade onde moro, está sem sistema. Voltarei na terça”, relatou.

A Secretaria de Segurança Pública, por intermédio da sua Assessoria de Imprensa, garantiu “que não tolera a prática de abusos por policiais e informou que um inquérito policial militar (IPM) foi aberto para apurar os fatos relatados pelo jornalista Bruno Cassucci”. “Se ficarem comprovadas as afirmações do repórter, os policiais serão punidos na forma da lei”, finaliza a nota oficial.

Briga entre organizadas – O repórter do diário esportivo trabalhava na cobertura do jogo Santos FC e Botafogo, pela 37ª rodada do Campeonato Brasileiro. Ao final da partida, que terminou 2 x 0 para  o time da casa, Cassucci foi ao vestiário do visitante, falar com os jogadores da equipe carioca. No local, ouviu barulhos de bombas do lado de fora do estádio e foi apurar o que havia.

Membros de torcidas organizadas dos dois times entraram em confronto, e a PM foi acionada. “Ali bombas de efeito moral foram arremessadas, e alguns santistas revidaram atirando garrafas e paus. A polícia invadiu a sede da organizada e era possível ouvir explosões e barulho de vidro estilhaçado”, conta o jornalista, em relato publicado na sua conta pessoal no Facebook.

Porém, ao registrar a ação da PM, ele foi abordado e, segundo seu relato, sob a mira de uma arma, teve o material de trabalho confiscado, fotos apagadas e, além disso, ameaçado após um policial colocar uma bomba de efeito moral dentro de suas calças.

Confira abaixo a íntegra do relato de Bruno Cassucci, do diário Lance! e, em seguida, a nota protocolada pela Diretoria Regional do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo:

Não quero aparecer, muito menos levantar bandeira. Tenho minhas opiniões, sentimentos aflorados neste momento e a cabeça ainda confusa. Escrevo aqui não para fazer juízo de valor, nem generalizar uma classe que sei que é mal paga, mal equipada e que deveria servir a uma sociedade que em boa parte lhe detesta. Como jornalista, acredito que não há opinião sem informação, e é por isso que venho aqui relatar o que vivi na tarde desse domingo, na Vila Belmiro.

No pior dia da minha curtíssima carreira jornalística e um dos piores da minha vida, fui agredido, ameaçado e tive material jornalístico apagado por policiais militares. Pensei em escrever “censurado”, mas por mais que entenda que foi isso que aconteceu, sei que a censura no nosso país já foi muito pior no passado do que a que sofri hoje, de modo que não seria justo colocar tudo num mesmo balaio.

A ordem cronológica foi a seguinte:

Como setorista do Santos no LANCE!, fui escalado para fazer a cobertura da partida da equipe contra o Botafogo. Como os paulistas já não almejam nada neste ano e o clube carioca acabou rebaixado, fui designado a ir para o vestiário visitante após o jogo. Assim que cheguei lá, ouvi barulho de bombas na rua. Ciente da minha função e ignorando as corriqueiras orientações da dona Maria, minha mãe, fui até lá averiguar o que se passava. Não era possível ter certeza, mas tudo indicava que vândalos que se dizem torcedores das duas equipes estavam brigando.

Decidi não ir ao encontro da confusão, como já fiz em outras ocasiões, mas fiquei ali esperando. Passado um tempo, a polícia se concentrou e foi para o lado esquerdo, próximo à entrada principal da Vila e na rua onde fica a sede da organizada Sangue Jovem. Fui atrás, mas mantendo distância. Ali bombas de efeito moral foram arremessadas, e alguns santistas revidaram atirando garrafas e paus. A polícia invadiu a sede da organizada e era possível ouvir explosões e barulho de vidro estilhaçado. Um morador da vizinhança me chamou para dentro de sua casa. Fiquei pouco tempo ali e logo voltei para a rua, a fim de tentar entender – e consequentemente relatar – o que estava acontecendo.

Uma policial, então, me mandou sair “vazado”. Argumentei que eu estava trabalhando e ela retrucou: “Eu também. Dá linha, curioso!”

Voltei para a frente da casa na qual havia entrado e esperei as coisas se acalmarem. Já não se ouvia mais bombas ou disparos e decidi voltar para a frente da Sangue Jovem. Foi então que começou tudo.

Estava tirando fotos com o celular quando um policial me viu e, com a arma apontada para mim, gritou para eu encostar na parede, com as mãos para o alto. Eu disse que era jornalista, mas isso parece não ter ajudado, pelo contrário.

No procedimento padrão – ao qual já havia sido submetido em abordagens policiais no passado – fui revistado com certa agressividade, mas até aí tudo bem. Depois de verificar que eu estava “limpo”, o policial, já cercado por outros, pediu para eu abrir minha mochila, que também foi revistada. O passo seguinte foi tomar meu celular. O oficial pediu para eu desbloquear o aparelho e acessar as imagens. Ele então começou a apagar uma por uma. O procedimento durou uns cinco minutos, que pareceram eternos.

Enquanto ele fazia isso, uma outra autoridade pediu para eu não olhar para trás. Errei. Instintivamente, segundos depois eu acabei olhando para o celular e então fui agredido no rosto.

Depois, a policial que havia me abordado antes, aquela do “dá linha, curioso”, me disse que eu já tinha sido avisado. Eu novamente argumentei que estava ali trabalhando, e ela afirmou: “Eu também estou e você não respeitou meu trabalho”. Até agora não sei qual foi meu desrespeito.

Um outro oficial que se aproximou disse que eu estava ali para “defender torcedor” e que a mídia só mostrava quando a polícia bate “nesses caras”. A minha intenção era exatamente outra, ouvir algum responsável pela operação para tentar entender o que estava acontecendo.

Foi então que ocorreu a cena mais aterrorizante de toda a abordagem. Um PM aparentando muito nervosismo, se colocou entre mim e a parede, pegou uma bomba de efeito moral, puxou minha calça e a colocou dentro. “Você não é macho? Quero ver ser macho agora”. Como fiz durante todo o episódio, expliquei que era jornalista, pedi desculpas, o chamei de “senhor”. Ele falou mais algumas coisas que não me lembro agora e saiu.

Aliás, tudo isso aconteceu há cerca de quatro horas e eu já não lembro de diversos detalhes, pelo choque e medo, obviamente. Fiz questão de olhar o nome de todos, um por um, mas já me esqueci de boa parte. Aquela mesma policial percebeu quando eu olhei para a identificação dela e ironizou: “Quer levar para casa? Tenho várias outras, pode levar”.

Após apagar todas as fotos, o policial que me enquadrou mandou eu desligar o aparelho e tirar o chip e a bateria. Expliquei que era impossível no iphone e, graças a uma outra oficial que estava perto, ele acreditou.

Por fim, entreguei meu documento ao PM, que saiu e voltou instantes depois. Antes de ser liberado, ele me deu um recado, que começou com algo como “sei que você vem sempre aqui e eu também venho”. Não lembro a continuação, mas tenho a impressão que se tratava de uma ameaça.

Ouvi uma ou outra ofensa dos demais oficiais ali presentes e fui liberado.

Já estou em casa, sem qualquer arranhão no corpo, mas com a adrenalina ainda a mil. Poder abraçar minha mãe, jantar o que ela preparou e saber que nada pior aconteceu é tranquilizante. Saber que todos os dias abusos desse tipo e outros muito piores acontecem com gente que não sabe ou não tem como se expressar é o que preocupa. Sei de todos os privilégios que tenho por ser branco, não viver na periferia e ter tido a oportunidade de estudar. Se passo por situações como essa, com certeza há quem viva coisa muito pior diariamente.

O texto é longo, mas espero que meus amigos que há uns dias defenderam a ditadura militar nesta mesma rede social possam ler. Dispenso seu like, faço questão da sua reflexão.

Íntegra do pedido do Sindicato dos Jornalistas:

Santos, 01 de dezembro de 2014
Ilmo. Senhor
Coronel PM Ricardo Ferreira de Jesus
Comandante do 6º. BPMI – SP
Pedido de providências contra policiais militares
Motivo: agressão e tortura a jornalista
Senhor coronel
É com revolta e indignação que comunico que, mesmo se identificando como jornalista e provando que estava exercendo sua profissão, Bruno Cassucci de Almeida, correspondente do Jornal Lance, foi duramente agredido e torturado pela equipe de policiais militares após jogo de futebol envolvendo Santos e Botafogo, no último domingo, na Vila Belmiro.
Ao tentar registrar a briga envolvendo torcedores das duas equipes e a ação do polícial militar, o jornalista foi abordado por uma policial, que o teria mandado sair com as seguintes palavras: “vaza, dá linha curioso”. Palavras no mínimo estranhas, para quem deveria ter educação e ter em mente a segurança dos cidadãos.
Momentos depois, enquanto estava fotografando a ação dos policiais no meio da rua (local público), numa atividade inerente à profissão, Bruno foi novamente abordado, só que sob a mira de um revólver. O policial o mandou encostar à parede, onde foi revistado de forma agressiva.
Depois de verificar que Bruno estava “limpo”, o policial, já cercado por outros, pediu para ele abrir a mochila. O passo seguinte foi tomar o celular e apagar todas as imagens. Enquanto ele fazia isso, outro policial pediu para que não olhasse para trás. Ao olhar para o celular, o jornalista foi agredido no rosto. Um oficial disse que ele estava ali para “defender torcedor” e que “a mídia só mostrava quando a polícia bate nesses caras”.
Não bastasse tudo isso, um policial se colocou entre o jornalista e a parede, pegou uma bomba de efeito moral, puxou a calça de Bruno, a colocou dentro e disse: “você não é macho? Quero ver ser macho agora”. A mesma policial que o havia abordado no primeiro momento ainda disse: “quer levar para casa? Tenho várias outras, pode levar”.
Diante de toda essa atrocidade, dessa falta de preparo, dessa afronta à cidadania, ao trabalho e a dignidade humana, exijo a punição de todos os policiais que abordaram o jornalista Bruno Cassucci de Almeida, que em visita ao batalhão poderá identificar um por um.
Na certeza que esse Comando tomará uma atitude contra esses péssimos exemplos de policiais militares,
Carlos Ratton
Diretor Regional
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

Da Redação
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