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Na bola e no livro

“O futebol é muito mais que um esporte ou até mesmo um modo de vida; é uma metáfora da nova…

30 de abril de 2009 - 20:48

Da Redação

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“O futebol é muito mais que um esporte ou até mesmo um modo de vida; é uma metáfora da nova ordem mundial, com toda a sua complexidade. Os clubes de futebol espelham classes sociais e ideologias políticas, e frequentemente inspiram uma devoção mais intensa que as religiões. É um esporte com interesses reais — capaz de arruinar regimes políticos e deflagrar movimentos de libertação”.

O parágrafo acima está  na orelha do livro Como o futebol explica o mundo: Um olhar inesperado sobre a globalização, do estadunidense Franklin Foer, e explicita o patamar que o desporto bretão adotou nos dias atuais. Por muito tempo considerado algo “da ralé”, o futebol sempre foi visto com desdém pela classe acadêmica. Algo que tem mudado com o alcance que o esporte tomou na sociedade.

Apresentador dos programas Loucos por Futebol e Game Up, da ESPN Brasil, o jornalista Marcelo Duarte cita como exemplo sua passagem pela revista Placar, onde trabalhou de 1984 a 1988. “Quando era diretor de redação, sentimos na pele a pobreza da literatura esportiva brasileira. Tentávamos montar uma pequena biblioteca com publicações sobre o assunto e vimos o quão difícil era”, relembra.

As mudanças se deram há pouco tempo, quando pesquisadores fãs de seus times de coração começaram a fazer compilações de dados históricos das equipes ou de ídolos. “Curiosamente, era algo que os próprios clubes deveriam fazer, mas não faziam. Esses historiadores apareceram, os livros começaram a chamar atenção e as editoras notaram que poderiam ser um fenômeno. Hoje, acredita-se numa média de dois a três livros sobre futebol lançados por semana, mais de 150 por ano”, comenta Duarte, que completa: “Hoje, felizmente, já há títulos para todos os gostos, até por haver muito pesquisador sobre a área”. Para se ter ideia, na semana passada, o jornalista Mauro Beting esteve em Santos para lançar o livro Os dez mais do Palmeiras e neste sábado (3) será a vez dos jornalistas Celso Unzelte e Odir Cunha lançarem O Grande Jogo, na Livraria Realejo, contando a história dos clássicos entre Santos e Corinthians.

Durante a 7ª edição da Feira Nacional do Livro na Baixada Santista (Fenalba) do ano passado, o também jornalista Juca Kfouri (ESPN Brasil / Rádio CBN) disse ter notado essa nova fase da relação futebol-cultura, principalmente por, como profissional da imprensa  esportiva, ser convidado para uma atividade de cunho cultural.

“Tenho 38 anos de carreira, e, naquele meu começo, não se tinha literatura, filmes ou peças voltadas ao futebol. Hoje, a realidade é bem diferente, e isso mostra que a tradição elitista de se considerar o futebol algo inferior foi rompida”, declarou.

Nem tudo são flores, todavia, como alerta Marcelo Duarte, especialmente no que diz respeito ao total de leitores. Segundo ele, exceto algumas exceções, as publicações ainda não atingem um grande contingente de público, assim como a literatura,  no Brasil, como um todo.

“As tiragens de livros, de forma geral, são pequenas, e as de futebol são menores ainda. O torcedor ainda é muito focado no resultado do time, e não presta  atenção na história que o clube tem. Há um importante passo a ser dado, que é o de fazer esse torcedor pesquisar sobre o time do coração, saber de onde ele veio”, aponta.

Por ser uma modalidade cuja paixão aflora desde a infância, a literatura futebolística também pode ter papel importante no incentivo à leitura. O próprio Duarte se considera um exemplo de tal ideia, pois começou a gostar de ler pela revista Placar. “Mas para que elas ocorram, precisa haver um incentivo por parte dos pais para que a criança leia, mas muitos não fazem isso”, alerta, apontando, inclusive, uma falta de colaboração por parte das escolas.

“Quando dou palestra em  instituições, eu lembro que, mais do que incentivar a ler, a escola deve mostrar que a criança pode ler qualquer coisa, inclusive futebol. Mas sempre que alguém está lendo algum livro sobre esporte é criticado. Por quê? A pessoa não está fazendo nada errado. Ao contrário”, diz.

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