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Conscientização

Observatório Chega! realiza debate e oficinas sobre violência contra a mulher

Com o tema “Dores de amores – Como identificar parceiros abusivos?”, Observatório discute a importância da comunicação e identificação dos sinais de violência contra a mulher

09 de setembro de 2019 - 19:01

Jane Freitas - Colaboradora

Da Redação

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A dificuldade de falar ‘não’ e perceber atos que ferem o físico, o psicológico e a dignidade da pessoa humana, se tornaram cada vez mais frequentes.

Às vezes, a violência vem mascarada em demonstrações de ciúmes, imposições e chantagens emocionais.

Assim, por amor, mulheres e meninas, não se dão conta da realidade, isolando-se em si mesmas. Isso acontece independentemente da faixa etária e classe social.

O resultado são os aumentos cada vez mais apavorantes de feminicídios, suicídios, depressão e transtornos de ansiedade.

A respeito desse alerta e conscientização, o Chega! Observatório Unisanta da Violência Conta a Mulher, realizou no último sábado (7), oficinas e roda de conversa para falar relacionamento abusivo.

Para a coordenadora do programa de Justiça Restaurativa de Santos, Liliane Rezende, é de extrema importância propiciar debates como esse para dar vez e voz à todas as pessoas.

De modo a ouvir as necessidades, carências e, a partir de então, pensar em possibilidades de melhorias para a situação.

“O diálogo é fundamental para a construção de ideias. Poder ouvir as pessoas sem julgá-las e aceitar a fala que ela traz. Muitas vezes, dentro desses espaços, do processo circular, as pessoas falam muito da sua dor, e é importante ter uma confidencialidade ali”.

Importante falar

Comunicação e sensibilização são fundamentais para se entender o percurso da violência, suas raízes e soluções para exterminá-la.

Dentro do relacionamento abusivo, os ciclos de violência podem acontecer em períodos longos para, posteriormente, se estreitarem. Contudo, como o próprio nome diz, voltam a se repetir.

Diná Ferreira Oliveira, Coordenadora do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, de Santos, e participante do evento, chamou a atenção para que a mulher passe a identificar e a perceber tudo aquilo que tira a liberdade dela, a tudo aquilo que magoa, machuca.

E que, além disso, é preciso questionar.

“Eu acredito que, em algumas situações, a mulher levantar essa questão, pode até resolver. Se o homem não estiver percebendo de que aquilo que ele está fazendo está magoando a mulher, está cerceando a liberdade dela. Então acho extremamente importante a gente discutir sobre a identificação desses comportamentos”.

Outro ponto abordado foi em relação às meninas que estão iniciando a vida afetiva e sexual. Desconhecendo os sinais abusivos que, inicialmente, são sutis, se deixam fotografar em momentos íntimos e acabam manipuladas. Dessa forma, sem ao menos ter consciência do que está ocorrendo.

Essa questão, contou com a participação de jovens presentes no debate e pela psicóloga Luciana Maria Gonçalves Gonzaga. Ela alertou para o fato ao ouvir relatos, em sua experiência de trabalho, sobre problemas emocionais causados pela falta de informação e percepção.

“Hoje a gente viu como está sendo preciso falar. Acho que as meninas não percebem mesmo. Elas percebem o sofrimento mas não que estão em um relacionamento abusivo. Então, chega em mim o transtorno de ansiedade e a depressão. Aí eu vou ouvindo as histórias de violência. Eu acho que é muito importante a gente conversar porque, realmente, elas não processam uma relação abusiva”.

 

Observatório Chega

A comunicação é a principal chave para identificação de um relacionamento abusivo. Foto: Eliana Greco

Conscientização

Ao identificar os sinais de violência e buscar meios para sair deles, para muitas mulheres, é arrancar uma venda que cobre o olhar. E, assim, passar a enxergar verdadeiramente a realidade e, com ela, a própria libertação.

A conscientização é o primeiro passo que conduz a essa liberdade. E, em seguida, dar um basta definitivo às dores e sofrimentos.

Co-autora do livro Amarras Invisíveis, a jornalista Karina Black, percebeu por meio de sua experiência pessoal nas entrevistas com vítimas de violência doméstica que ainda existe uma grande desinformação.

Para ela, quando a gente se propõe a conversar sobre o assunto, se torna uma forma de abrir os olhos das pessoas.

A jornalista explicou. “Se as mulheres não tiverem informação, os parceiros abusivos ganham confiança, aumentando o nível de abuso e agressão. “Algo que eu percebi em muitas vítimas é que muitos traumas são irreversíveis e os processos de restauração, às vezes, muito lentos. Têm marcas psicológicas que elas (vítimas) não conseguiram apagar. Então, eu acho que antes de a gente chegar no estado desse nível, ou em um feminicídio, a conversa, a disseminação é um caminho”.

 

Observatório Chega

O Lobo Estúdio, na Vila Matias em Santos, recebeu programação especial no último sábado (7) para discutir violência contra mulheres. Foto: Eliana Greco

Arte e comunicação na prática

Além do debate, o evento contou com duas oficinas. Elas levaram interatividade e reflexão a respeito do papel da mídia no combate à violência contra a mulher.

A primeira, sobre Comunicação Combativa, foi ministrada pela jornalista Sarah Mascarenhas e pela mobilizadora da ONU Mulheres, Marina Machado.

A partir de um varal de notícias, publicadas originalmente em jornais, revistas e sites, os participantes puderam perceber construções textuais que culpabilizam e reforçam prejulgamentos e preconceitos em relação à mulher. Portanto, que ainda abrem caminho para as fake news.

Sarah Mascarenhas explicou que a oficina leva à reflexão crítica em torno do consumo das notícias publicadas.

Para ela, o leitor – consumidor final pode contribuir para a manutenção ou diminuição da violência contra a mulher e, dentro dessas atividades, a tentativa é de ressaltar para os participantes terem muito cuidado na leitura e reprodução dessas notícias.

“A gente propõe uma atividade de reescrita de algumas notícias que a gente seleciona e traz para os participantes. Então, num segundo momento, como elas deveriam realmente estar publicadas”.

Era das fake news

Além disso, a jornalista relata que é devido a isso a descredibilização da mídia atualmente. As notícias falsas ganharam força e o ser humano já não é mais um ponto de importância dentro disso.

São vendido produtos, conteúdos e não informação útil com mudança de pensamento – de onde surgiu o Jornalismo – para propagar a informação à população, contar histórias do que está acontecendo.

Sarah disse também que é preciso falar da diminuição da violência contra a mulher – ou ilustrar isso – de maneira que a coloque num lugar de dignidade, integridade e não de vulnerabilidade, exposição e culpabilização.

Marina Machado, Mobilizadora da ONU Mulheres, salientou a importância da Comunicação Combativa sobre transformar a notícia em uma forma de combater a violência das mulheres e das meninas.

E, além disso, das violências contra gêneros, raças e as demais que existem em todos os níveis.

Segundo ela, a oficina tem o foco da reescrita. Como eu respondo um comentário no Facebook? Como eu posto uma história que aconteceu comigo? Como eu relato acontecimentos? Como eu coloco a mulher num lugar de proteção à violência e não de vítima?

Além disso, a Mobilizadora acredita que pode-se viver a equidade de gênero. Isso a partir do momento em que se olhar para a desconstrução do sistema econômico.

“Não existe igualdade dentro do capital. Então, qual é o recurso, qual é a saída que nós temos? É interseccionalizar as lutas. Não existem lutas de classe, de gênero, de raça. Existe a luta pela equidade do ser humano, independentemente, se ele é homem ou mulher. Se a gente começar, a partir do pressuposto, que é preciso modificar o sistema que a gente vive, chegaremos ao feminismo um dia”.

Ativismo discreto

A segunda oficina da tarde foi a de Lambe-Lambe. Com técnicas de colagem, criatividade, papel e cola os participantes uniram sentimentos e pensamentos à arte.

Ministradas por três estudantes e idealizadoras do Coletivo Diz Aí, a oficina também trabalhou com o tema da violência contra a mulher.

Mariana Castro, estudante de Psicologia, vê no Lambe uma potencialidade de veículo de comunicação de fácil acesso. Pois pode ser feito de forma digital, escrita ou cópias.

“Vale lembrar que o Lambe é proibido de ser colado em locais públicos. Mas, em locais privados, ele super funciona e não perde sua potencialidade. Aliás, é mais uma amostra disso. Se não fosse tão potente não seria proibido”.

Já a estudante de Arquitetura e Urbanismo, Ysadora Lourenço, diz que falar sobre violência contra a mulher por meio do Lambe é uma forma de ativismo também.

Ysadora conta que, em duas outras oportunidades que tiveram de realizar a oficina, surgiram temas relacionados à violência doméstica e questão do parceiro; violências sofridas pelas mulheres ao serem menosprezadas no mercado de trabalho; falta de credibilidade; e até fatos da masturbação como tabu.

A terceira integrante do Coletivo, Ana Spina, estudante de Psicologia, relatou que é triste, em pleno 2019, ainda ser preciso falar sobre a violência contra a mulher, assunto que, para ela, não foi desconstruído.

Ana disse que, ao receberem o convite do Observatório Chega para abordar a temática por meio do Lambe, encontraram uma possibilidade de falar mais sobre esse assunto.

“A gente aceitou logo de cara porque combinava muito com a nossa proposta quanto Coletivo, quanto oficina e quanto seres humanos individuais, também. Pra gente está sendo incrível estar aqui”.

 

Texto: Jane Freitas – colaboradora

Fotos: Eliana Greco – colaboradora

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