Desrespeito

“Sabe com quem está falando?”. Cultura da carteirada é rotina no País

Do engenheiro civil ao desembargador, sociedade brasileira lida com a falta de respeito e imposição da famosa carteirada, onde o cargo social supera regras

24 de julho de 2020 - 18:14

João Pedro Bezerra

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“Cidadão não, engenheiro civil, formado melhor do que você”; “Eu não uso, decreto não é lei. Del Bel eu estou aqui com um analfabeto seu”.

No último mês, dois casos ganharam repercussão nacional, em ambas as ocasiões houveram ofensas e humilhações a fiscais que realizavam seu trabalho.

O termo “Sabe com quem tá falando?” simboliza a contextualização dos últimos fatos de carteiradas, principalmente em tempos de pandemia, onde todas as classes da sociedade devem seguir uma série de regras e protocolos de segurança. O primeiro episódio que revoltou grande parte dos brasileiros ocorreu em um bairro nobre do Rio de Janeiro no começo de julho.

Casos

Casal foi alvo de críticas nas redes sociais/ Foto: Reprodução redes sociais

Assim que a Prefeitura flexibilizou bares e restaurantes na capital fluminense, uma multidão de pessoas lotou os estabelecimentos e a fiscalização da Vigilância Sanitária precisou intervir.

Um casal de engenheiros que estava no restaurante foi questionar a ação dos fiscais; sem máscara e com falta de respeito Leonardo dos Santos e Nivea Valle ofenderam os agentes.

A ação foi gravada pelo programa Fantástico da Rede Globo e viralizou nas redes sociais, tanto que a mulher perdeu o emprego.

Em entrevista ao Jornal O Globo, os dois disseram que não se arrependem de tal fato, só da maneira como foi falado que causou outra interpretação.

Para Leonardo e Nivea, eles têm direitos de questionar o trabalho da Vigilância Sanitária e não se amedrontar com a ação.

O segundo caso ocorreu em Santos no último dia 17, quando o desembargador do Tribunal de Justiça, Eduardo Siqueira estava caminhando na praia sem máscara.

Ele foi abordado pela Guarda Municipal e ofendeu os trabalhadores rasgando a multa.

Além disso, Eduardo Siqueira ligou para o secretário de segurança de Santos Sérgio Del Bel questionando a ação da GCM, na abordagem o desembargador citou que não era a primeira vez da advertência pela falta da máscara.

A atitude do desembargador foi filmada pelos próprios guardas e ganhou proporções nacionais, sendo a manchete nos principais veículos de comunicação do Brasil.

Desembargador rasgou a multa aplicada pelo Guarda Municipal/ Foto: Reprodução

 

Homenagem

 

Cícero Hilário e Roberto Guilhermino foram homenageados pela conduta de trabalho, em uma cerimônia no Paço Municipal no último dia 20.

Já Eduardo Siqueira, após o ocorrido ressaltou que não é obrigado a usar a máscara.

Todavia, quatro dias depois de toda a confusão, ele foi visto caminhando na orla de Santos na altura do canal 5 com o equipamento de segurança e, em nota, pediu desculpas por sua atitude.

Outro caso muito comentado, mas sem tantos holofotes foi de um empresário que ofendeu um PM, no bairro de luxo Alphaville em São Paulo.

Diferenças Sociais

Os casos retratam um lado arrogante de indivíduos que possuem um cargo com poder aquisitivo maior em relação aos fiscais.

Segundo a psicóloga Luci Mara da Silva, as pessoas que tem algum poder pensam que os demais são inferiores e assim devem obedecê-los.

Ela acredita em uma ligação com as falas do presidente Jair Bolsonaro que minimiza as restrições e normas ligadas a pandemia, argumentando as liberdades individuais.

A psicóloga ressalta que a razão para o comportamento está em uma sociedade que se fundou durante a escravidão e consequentemente acha que determinadas funções ou trabalhos não merecem respeito.

Já a socióloga Dida Dias cita que o Brasil vive ainda em um contexto de Casa-Grande e Senzala, obra de Gilberto Freyre, de 1933.

“Isso está no imaginário da sociedade no país, extremamente hierarquizada, que há mais de 400 anos tem a construção destas ideias, onde uma minoria de pessoas acreditam que são superiores por conta do trabalho e assim pelos privilégios acabam dando a carteirada”.

Carteirada

Pessoas mostram seus cargos na tentativa de diminuir outras/ Foto: Divulgação

A carteirada infelizmente está no cotidiano na sociedade brasileira. Todavia, com o celular e as redes sociais essas ações podem ser gravadas e ganharem destaque na internet.

A lei contra a “carteirada”, projeto do senador Romário Farias-RJ, está parada no Congresso Nacional desde 2015.

O caso do desembargador Eduardo Siqueira pode ser o estopim para a volta da discussão do tema na Câmara dos Deputados.

O artigo 316 no Código Penal diz que é crime exigir vantagem indevida, para si ou para outro, direta ou indiretamente, utilizando-se do cargo.

Contudo passam-se os anos e ninguém que pratica esse ato é punido.

 

Memes e Charges

Meme faz alusão ao Batman/ Foto: Reprodução

Por fim, diversos trabalhadores de diferentes profissões já passaram por essa situação, um dos casos que ocorrem todos os anos são de professores de escolas particulares.

Por todos os cantos do país há relatos de profissionais que foram ofendidos por pais de alunos, quase sempre com a mesma justificativa “quem é você para reprovar meu filho, sabe com quem está falando?”.

Além disso, profissões como agentes municipais, enfermeiros e fiscais também passam pelo mesmo problema.

Assim como o episódio ocorrido no Rio de Janeiro, no qual ocorreu a divulgação do vídeo nas redes sociais.

O caso envolvendo o desembargador Eduardo Siqueira ganhou grande repercussão da mídia nacional e em postagens nas redes sociais, com a publicação de diversos memes e charges que satirizavam a situação.

Uma das postagens mais compartilhadas fazia referência à ligação do desembargador ao secretário de segurança pública de Santos, Sérgio Del Bel, com alusão ao personagem Batman, incluindo até mesmo apresentação de uma camisa constando a frase “Alô Del Bel”.

O valor do salário do desembargador, que ultrapassa o teto constitucional, também foi alvo de ironias e do bom humor dos internautas.

O caso também se tornou fonte de inspiração para chargistas do todo o País, que não pouparam criatividade para tratar do tema.