Saúde

Cirurgia para colocação de balão gástrico tem maior procura na pandemia

Um dos fatores para o problema é a falta de exercícios e o exagero na alimentação, como doces e comidas gordurosas

14 de outubro de 2020 - 14:00

Da Redação

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Nos meses em que o isolamento social foi mais rigoroso, em razão da pandemia causada pelo novo Coronavírus, as pessoas deixaram de se exercitar e ainda passaram a comer muita comida pronta, entregue via delivery, além de abusar dos doces, por exemplo. O resultado foi um aumento generalizado de peso. O que tem causado um aumento na procura por cirurgias.

Na entrevista a seguir, o médico Nelson Marfil, especialista em Endoscopia e Qualidade de Vida da Clínica Endocentro, explica esta situação e como funciona o procedimento mais de colocação do chamado balão gástrico.

1 – É verdade que aumentou a procura pela cirurgia para a implantação do balão gástrico durante a pandemia? E porque?

Sim, a procura aumentou bastante e o motivo certamente é o isolamento social ao qual fomos forçados. Muitas pessoas, ao ficarem em casa trancadas, não encontram o que fazer, se viram 24 horas por dia do lado da família, pets, vizinhos, etc. Isso acabou gerando ansiedade e muitos descontaram nos alimentos, especialmente nas guloseimas ricas em carboidratos e pobres nutricionalmente.

2- De que forma é feito este procedimento?

Trata-se de um procedimento bastante simples. Após as devidas avaliações, semelhantes àquelas solicitadas para a cirurgia bariátrica, é realizada uma endoscopia digestiva e passada uma espécie de sonda pela boca do paciente; na extremidade da sonda está o balão desinsuflado. Após escolhermos a posição exata da implantação, inicia-se um processo de enchimento do balão com líquido ou ar, dependendo da situação. Após o mesmo estar cheio (entre 600 e 700 ml), a sonda é desconectada e o balão é liberado no estômago.

O tempo total de procedimento é de cerca de 20 minutos, para endoscopistas experientes. Após a implantação, o paciente permanece na clínica por mais algumas horas, quando é feito um teste de deglutição e, estando tudo ok, liberamos o paciente para ir para casa. Durante os três primeiros dias o paciente deve permanecer com dieta líquida, passando depois a pastosa e depois dieta normal, sempre acompanhada por um nutricionista.

3 – Pra que tipo de paciente é recomendada esta intervenção?

Pacientes com sobrepeso e obesidade grau 1 são os maiores beneficiados pelo tratamento (IMC entre 25 e 35). Porém, o balão auxilia na perda de peso de qualquer paciente. Outra indicação importante é para os super obesos, com IMC acima de 50, como pré-operatória para a cirurgia bariátrica; nestes casos a perda de peso antes da cirurgia reduz a morbidade intra e pós-operatória.

4 – Depois de quanto tempo os resultados passam a ser percebidos?

Logo na primeira semana se inicia a perda de peso, que se acentua durante os primeiros 60 dias.

5 – Existe algum risco de a pessoa engordar novamente?

Sempre há esse risco e infelizmente é muito comum. Eu até tive pacientes que engordaram durante o uso do balão, pois havendo dificuldade em ingerir alimentos sólidos, eles passaram a consumir alimentos líquidos e pastosos de alta densidade calórica, como sorvetes e bebidas alcoólicas. Também é importante salientar que durante o período de balão (entre 6 meses e 1 ano, dependendo do tipo de material utilizado ) o paciente tem a chance de mudar seus hábitos alimentares e de qualidade de vida, passando a comer de forma mais balanceada, praticando atividades físicas e gerenciando o stress. Trata-se de um tratamento auxiliar durante esse período e muitos pacientes passam a engordar ainda mais após a retirada do balão, caso não façam as mudanças necessárias. Essa mudança de qualidade de vida é tão importante, que mesmo pacientes submetidos a cirurgias bariátricas podem voltar a engordar caso a regra não seja seguida.

6 – E como fica a questão da absorção dos nutrientes quando o paciente passa a comer menos? O senhor recomenda alguma suplementação?

Como disse anteriormente, todo paciente submetido a implantação do balão deve fazer minuciosa avaliação clínica, nutricional e psicológica previamente ao procedimento e reforçamos que durante todo o período de uso do equipamento estes pacientes devem manter o acompanhamento, como um equipe multidisciplinar. Pessoalmente eu creio que todos deveriam fazer algum tipo de suplementação, pois a qualidade nutricional dos alimentos vem caindo a cada dia, graças ao uso indiscriminado de defensivos agrícolas, hormônios e outras drogas, que afetam muito a qualidade alimentar, bem como o solo. Entendo que essas medidas visam alimentar uma população mundial cada vez maior, mas devemos ter em mente que a qualidade nutricional dos alimentos também é afetada com tais medidas.

7 – Pra finalizar, vale a pena investir na colocação do balão gástrico?

Atualmente a técnica de implantação do balão gástrico tem sido cada vez mais utilizada como importante método auxiliar no tratamento da obesidade. Muitas doenças podem ser curadas ou ter seus efeitos nocivos minimizados pelo uso da técnica, tais como o diabetes, a hipertensão arterial, as doenças ósteo-articulares e até as auto-imunes. Para que tenhamos sucesso é essencial o comprometimento do paciente e ele deve saber que o balão é apenas um coadjuvante, que não deve ser usado como “muleta” ou solução mágica para controlar a obesidade. Esta doença é multifatorial e de manejo extremamente difícil, devendo ser sempre abordada de modo multidisciplinar.

Quando falei na muleta, posso exemplificar: já tive vários pacientes que simplesmente retiravam um balão e colocavam outro em seguida, pois diziam não conseguir manter o peso sem o equipamento; outros simplesmente desapareciam da clínica e não compareciam para retirar o balão na data marcada, correndo riscos de graves complicações que poderiam ser causadas pelo esvaziamento do balão após o período indicado, com migração do mesmo para o intestino, podendo causar obstrução aguda na região, levando até mesmo a cirurgias de emergência para remoção do balão. Sou um incentivador dessa técnica desde que todos os protocolos de segurança e alterações de rotinas e qualidade de vida seja rigorosamente seguidos.

Médico Nelson Marfil/ Foto: Divulgação

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