Foto: Divulgação

Bom exemplo

26 DE NOVEMBRO DE 2020

Com mortalidade 10 vezes menor que Santos, Araraquara é modelo contra o Covid-19

Com total de mortes 10 vezes menor que Santos, apesar da população representar 60%, Araraquara investiu em testes PCR e internação precoce para diminuir o total de mortes pela Covid-19

Por: Fernando De Maria

array(1) {
  ["tipo"]=>
  int(27)
}

Com  cerca de 240 mil habitantes, a cidade de Araraquara, no interior paulista, se tornou referência no combate ao Covid-19.

A ponto de servir como referência em reportagem publicada no influente jornal francês Libération, inclusive em seu site. (leia no original)

Sua taxa de mortalidade – indicador apontado por diversos especialistas como o mais importante para análise real da situação de casos nesta pandemia diante do baixo índice de exames registrados no País – é uma das menores.

Até terça (24), foram 76 óbitos registrados na Cidade.

Média de 32 por 100 mil habitantes. A cidade tem 238.339 moradores – 60% da população santista, por exemplo.

O mesmo ocorre em relação à letalidade (divisão do total de mortes por pessoas confirmadas pela doença), hoje na casa do 1,1.

Já Santos, no litoral paulista, líder em óbitos em termos proporcionais à população em cidades paulistas com mais de 50 mil habitantes, vai no sentido oposto.

Conforme estudo desenvolvido pelo comitê de contingenciamento contra a Covid-19 da Abramet – Associação Brasileira de Medicina do Trânsito, liderado  pelo médico e pesquisador, Carlos Eid .

 

Triste liderança

Afinal, a cidade já registra,  no mesmo período, 761 óbitos (ou seja, 10 vezes mais que a cidade do interior). (Na quarta (25), já eram 765 óbitos), conforme dados da Prefeitura.

Pelos dados do governo do Estado, 764 (veja quadro acima, elaborado pelo pesquisador).

A média de Santos, aliás, é quase o dobro da média estadual, conforme quadro abaixo.

 

Números preocupantes no total de mortes pela Covid-19 em termos proporcionais.

Ainda que sua população seja maior (433.656).

Mas na proporção de óbitos pelo Covid-19 por 100 mil habitantes, a comparação fica evidente: 176,2/100 mil habitantes – mais de 5 vezes maior que Araraquara usando o mesmo indicador

Dessa forma, vale lembrar que Santos, que se destaca pelo volume de testagens, atinge 3,05.

Assim, mais que a média nacional (2,78) e mundial (2,36).

União de esforços

A fórmula para atingir tal resultado pela cidade do interior paulista passa pela união de esforços tanto do Poder Público como da iniciativa privada, assim como do apoio das universidades locais, com a padronização no atendimento dos pacientes, inclusive com internação precoce daqueles que estejam com qualquer sintoma e, em especial, sejam do grupo de risco.

“Não esperamos o quadro evoluir”, enfatiza a secretária de Saúde do Município, Eliana Aparecida Mori Onain.

Além disso, em parceria com as universidades locais (Unesp, USP e Uniara), é possível realizar testagem gratuita na população do PCR (do cotonete), fundamental para garantir o resultado correto da situação.

“Os testes rápidos têm alto índice de erros. O PCR dá mais garantia para monitorarmos a situação”, diz.

O sucesso na atuação da cidade no combate à pandemia foi preponderante para a reeleição do prefeito Edinho Silva (PT), ex-ministro da Comunicação Social do governo Dilma Rousseff.

Ele obteve 48.405 votos (46,09% dos votos válidos), percentual maior que na eleição anterior.

 

Eliana AparecidaMori – secretária de Saúde de Araraquara. Foto: Divulgação

Entrevista

Confira trechos da entrevista com a secretária de Saúde de Araraquara, Eliana Aparecida Mori Honain.

 

Boqnews – Quais diferenciais fazem de Araraquara um modelo para outros municípios no combate à Covid-19?

Eliana Aparecida – A partir do dia 15 de março, nós estruturamos uma rede de atendimento,  incluindo uma UPA – Unidade de Pronto Atendimento para montar um centro de triagem específico para síndrome gripal. Após cinco semanas, abrimos um hospital de campanha com 51 leitos, sendo 20 UTIs e 31 de enfermaria. Também não ficamos na dependência dos exames RT-PCR (N. da Redação: popularmente conhecido como o do cotonete para verificar se o paciente está ou não infectado. Deve ser aplicado entre o 3º e 7º dia). Fizemos uma parceria com a Unesp de Araraquara para não depender dos resultados do Instituto Adolfo Lutz, que demoravam para sair, e a partir do dia 3 de abril, nós testávamos qualquer paciente com síndrome gripal. Não apenas seguindo protocolos naquele momento para pacientes que tinham um ou mais sintomas ou seriam internados. Todos os pacientes com sintoma gripal já eram testados.

 

Boqnews – Foram criados comitês de contingenciamento?

Eliana Aparecida – Montamos dois comitês. Um que se encontra todos os dias com técnicos da secretaria e outro científico, reunindo semanalmente integrantes dos setores públicos e privado, inclusive das universidades, como o Serviço Especial de Saúde de Araraquara – SESA (USP), Unesp, Uniara.

 

Boqnews – Um dos grandes diferenciais que a cidade tem é a internação precoce. Como funciona?

Eliana Aparecida – Todo paciente positivado em Araraquara acima de 50 anos ou com alguma comorbidade se mantém internado até passar a quarentena em razão do risco do quadro se agravar. Os positivados que não queiram ser internados ou não são do grupo de risco recebem visita médica domiciliar. Portanto, nossos dois grandes diferenciais são a estrutura no atendimento e a internação precoce.

 

Boqnews – Com a tendência de nova alta de casos registrados no Estado de São Paulo, como a cidade está se preparando?

Eliana Aparecida –  Nós nunca zeramos o número de casos. Assim, nós não desmontamos qualquer estrutura, que foi mantida, e continuamos com os testes em massa. Hoje, em Araraquara, 3% da população teve contato com o vírus. Investimos em ações para controlar a pandemia e salvar vidas, nosso maior objetivo.

 

Boqnews – Existe padronização para não existir diferença no atendimento entre os setores públicos e privados, com leitos SUS e particulares/planos de saúde, na hora de internar um paciente?

Eliana Aparecida – Sim. O protocolo é o mesmo, tanto no privado como no público. Isso também é um outro diferencial. É lógico que um profissional que atende no seu consultório,  tem autonomia de prescrever o medicamento necessário. Mas quando o paciente chega ao hospital público ou privado, o protocolo é único dentro da instituição. Isso facilitou muito e assim não tivemos diferenciação nos óbitos de hospitais públicos ou privados – 50% para cada – o que mostra que não houve diferença no atendimento. Foi um grande desafio, mas foi fundamental para a gente manter o mesmo protocolo para salvar vidas. Foi uma grande vitória do município. Isso é muito importante.

 

Boqnews – Vocês conseguiram convencer os planos e hospitais privados para agilizar o atendimento e internações de pacientes?

Eliana Aparecida – Com certeza. E também oferecemos em parceria com os planos de saúde os leitos públicos no nosso hospital de campanha, caso necessitassem encaminhar pacientes dos planos particulares. Além disso, conseguimos que os planos de saúde fizessem os testes nos pacientes particulares da mesma forma que o cidadão que procurou o Poder Público. Inclusive oferecemos para eles a parceria com as universidades para os testes nos pacientes, sem limites, nem restrições. Ou seja, o paciente não paga, seja do SUS ou do plano, pelos testes. Afinal, não pode haver diferença entre pacientes tanto do Poder Público como da iniciativa privada. Isso é extremamente importante, tanto para o controle da transmissão como no diagnóstico precoce para pacientes, especialmente os de risco. É um momento de união de esforços para poder conter o vírus e salvar vidas.

Boqnews – O que a sra poderia sugerir para os gestores públicos de cidades com taxas elevadas de mortes pela Covid para que, pelo menos, estes indicadores diminuam o ritmo até o fim da pandemia?

Eliana Aparecida – A primeira coisa é garantir testagem pelo PCR e não pelo teste rápido para um único sintoma. E com resultado rápido – no máximo em 48 horas. Aqui a gente consegue em 24 horas. Além disso, não esperar o surgimento de vários sintomas simultâneos. Além da padronização do atendimento público e privado. Estes fatores são fundamentais para conter a mortalidade. E com a identificação precoce, você consegue tomar as ações com antecedência. Santos tem uma testagem muito grande. Mas existe muito teste rápido, cuja efetividade é baixa. Nós fizemos aqui também, mas por função venosa. Assim, o índice de acerto cresce de 75% para 94%. Se a gente for usar as regras do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado da Saúde a gente não estaria nesta condição que apresentamos, com baixos índices. Aqui, se o paciente apresenta um quadro gripal já faz o teste. Além disso, todo o paciente que evolui para o óbito a gente testa para confirmar se foi Covid-19 ou não. Por isso, os totais de óbitos em Araraquara são fidedignos. Não adianta ocultar números. Você precisa saber a realidade. É nisso que a gente se baseia e trabalha.

 

Confira a entrevista com a secretária de Saúde Eliana Aparecida Mori Honain para o programa Notícias do Dia.

 

 

Santos

Santos dispõe de 278 leitos de UTI para pacientes Covid-19 (redes pública e privada).

No SUS, são 142 leitos e 136 na rede privada.

Já em leitos para clínica médica, são 392, sendo 208 do SUS e 184 na rede privada.

 

Santa Casa

Santa Casa atende pacientes SUS e também dos planos de saúde. Foto: Divulgação

 

Os leitos estão espalhados pelo Hospital dos Estivadores, Hospital Guilherme Álvaro, Complexo da Zona Noroeste e Hospital Vitória (leitos SUS), Ana Costa, Santa Casa e Beneficência Portuguesa (SUS e privado), São Lucas, Frei Galvão, Casa de Saúde, APAS e Infantil Gonzaga (leitos particulares).

Em nota, a Prefeitura de Santos informa que os hospitais públicos e privados devem seguir as orientações técnicas do Ministério da Saúde.

“Os profissionais das redes pública e privada (hospitais e planos de saúde) de Santos receberam durante a pandemia todas as orientações do Departamento de Vigilância em Saúde sobre os protocolos do órgão federal para atendimento do paciente Covid-19, incluindo as atualizações”.

Sem ingerência

A Prefeitura reconhece porém que, ao contrário de Araraquara, não tem ingerência sobre os exames PCR em relação a pacientes dos planos de saúde, que são obrigados a pagar pelos mesmos (R$ 350,00 em média, conforme valores cobrados pelas clínicas).

“O Município não tem autorização legal para estabelecer procedimentos e prazos aos pacientes de planos de saúde, cujas normas são definidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

A Secretaria de Saúde também informa que está ampliando a oferta de testes rápidos, cujos resultados, na maior parte das vezes, são questionáveis.

Como o ocorrido na Câmara de Santos, quando 42% dos servidores do Legislativo testaram positivo – a grande maioria de forma errônea, provocando críticas públicas entre vereadores e o secretário da pasta, Fábio Ferraz.

Na ocasião, Ferraz admitiu falhas no modelo do teste oferecido aos servidores e à população.

O modelo foi cancelado.

 

Onde fazer o teste?

A testagem será feita de segunda a sexta, das 7h30 às 16 horas, mediante agendamento nas policlínicas do Gonzaga (Rua Assis Correia, 17), Campo Grande (Rua Carvalho de Mendonça, 607).

E ainda: Centro de Saúde Martins (Rua Luíza Macuco, 40, Vila Mathias), Vila Nova (Praça Iguatemi Martins, s/nº), Jabaquara (Rua Vasco da Gama, 32), Morro São Bento (Rua das Pedras, s/nº), Castelo (Rua Francisco de Barros Melo) e Rádio Clube (Avenida Hugo Maia, s/nº).

 

Notícias relacionadas

ENFOQUE JORNAL E EDITORA © TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

desenvolvido por:
Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.