Sociedade

Sem emprego nem cidadania. Apenas em busca de um simples prato de comida

Com alta do desemprego, um exército de homens e mulheres, vários deles, morando nas ruas, procuram nas entidades um simples prato de comida, dignidade e cidadania.

27 de abril de 2018 - 19:47

Fernando De Maria

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Por volta do meio-dia, alguns deles já começam a se aglomerar na calçada próxima ao imóvel da Rua Campos Melo, 312.

Às 12h30, as portas se abrem para a pregação do Evangelho para muitos daqueles que buscam o conforto pelas palavras daqueles que têm a rua como abrigo na maioria das vezes.

Lá, podem tomar banho e fazer sua higiene pessoal.

Depois, seguem para o refeitório, onde, em fila, entregam as senhas e saciam a fome.

 

Foto da fachada do imóvel do Centro Espírita Ismênia de Jesus – Casa dos Pobres na década de 40. Fotos; Fernando De Maria

Desde 24 de agosto de 1941 e ao longo dos 365 dias do ano de forma ininterrupta, o Centro Espírita Ismênia de Jesus – a Casa dos Pobres – recebe de portas abertas uma legião de homens – em sua maioria – e mulheres que buscam saciar a fome do corpo e da alma.

Vários deles, aliás, desempregados.

 

Maria Máximo, fundadora da entidade, sempre se preocupou em dar oportunidades aos menos favorecidos

A casa foi inaugurada por Maria Máximo em 1º de janeiro de 1937 em um imóvel na Rua Pereira Barreto.

E após uma intensa luta para arrecadação de recursos visando a construção do atual edifício,  inaugurado em 3 de março de 1940, na Campos Melo, na Vila Mathias, hoje um histórico e bem cuidado prédio.

Atualmente, a entidade ocupa uma área de 12 mil metros quadrados –  abrigando desde então a Cozinha dos Pobres, oferecendo até 1980 o tradicional prato de sopa – hoje substituído pelos almoços.

Além de abrigar a creche e pré-escola, com 300 crianças de 1 a 5 anos e 11 meses, e a escola Ordem e Progresso, com cerca de 320 estudantes dos ensinos Fundamental e Médio.

A ideia da Casa dos Pobres era uma tentativa de minimizar o sofrimento e a fome de milhares de pessoas que sofriam os revezes da Segunda Guerra Mundial.

Afinal, ela impactou diretamente a mão-de-obra no Porto de Santos, principal empregador da Cidade na ocasião.

Nas fotos espalhadas pelo imóvel é possível identificar crianças, mulheres e homens de ternos  recebendo pratos de sopa.

Para muitos, a única refeição do dia.

A busca por comida não mudou. Apenas o perfil dos frequentadores.

E muito. A fome, porém, é contínua e continua.

Hoje, os moradores de rua, alguns vítimas do desemprego, e o triste convívio com as drogas alteram e transformam as novas características dos frequentadores da Casa dos Pobres.

Hoje, 80% dos frequentadores fazem parte deste grupo social.

 

Desemprego em alta

Pesquisa divulgada na sexta (27), às vésperas do Dia do Trabalho, pelo IBGE mostrou que o desemprego atingiu 13,1% em média no primeiro trimestre.

Trata-se da maior taxa desde maio do ano passado (13,3%).

Na prática, são 13,7 milhões de pessoas sem emprego, alta de 11,2% em relação ao último trimestre de 2017.

A única notícia boa é que na relação com o mesmo período do ano passado houve uma queda de 3,4%, ou seja,  500 mil desempregados a menos nesta comparação.

Diariamente, dezenas de homens e mulheres procuram a entidade em busca de alimentos para suprir suas necessidades básicas. Foto: Fernando De Maria

 

No Refeitório

Das imensas panelas, saem os alimentos que irão saciar a fome dos frequentadores. Homens e mulheres, jovens e idosos.

Eles chegam calados ao local, após receberem uma senha (há a necessidade de cadastro prévio) e ouvirem palavras de apoio.

No local, ainda são atendidos para pequenos procedimentos de primeiros socorros, como troca de faixas e gazes, e limpeza de ferimentos.

Alguns aproveitam para tomar banho, retirar roupas limpas e fazer sua higiene pessoal.

Na última terça (24), a refeição – farta – era composta por arroz, feijão, salsicha e salada. Abacates e caquis como sobremesa.

Na contagem, 79 pessoas. Algumas carregando pequenos sacos e potes plásticos para garantir a refeição noturna.

Desperdícios, no entanto, não são tolerados.

Além dos desempregados e moradores de rua (alguns encontram-se em ambos os grupos), outros trabalham com subempregos e baixa renda sem condições de pagar por uma refeição.

Assim, encontram na Casa dos Pobres uma forma de se alimentar para guardar os trocados que ganham nas ruas ou nos bicos.

Para muitos, às vezes, nem dinheiro eles conseguem para a refeição no Restaurante Bom Prato (a R$ 1,00).

 

 

Da cozinha industrial, impecável, saem os alimentos diários que alimentam até 140 pessoas diariamente, inclusive aos finais de semana e feriados. Voluntários e funcionários atuam no atendimento ao público. Foto: Fernando De Maria

 

Histórias de vida

O autônomo Luiz Alexandre Macedo Conceição, 46 anos, já passou em três concursos públicos, mas optou em trabalhar por conta própria.

Tem fé que em breve será registrado. Alega, porém, que não tem eletrodomésticos em casa para preparar suas refeições.

E assim a Ismênia de Jesus – nome da progenitora da fundadora da entidade – o recebe há dois anos. Diariamente.

Ganhando pouco mais de um salário mínimo, o porteiro Jonathan Pinto Batista, 36 anos, está há oito meses empregado.

“Dou graças a Deus”. Mesmo assim, não perdeu o hábito de frequentar as entidades para se alimentar.

Há o caso também do ex-estudante de Medicina, Rodolfo Salles. Sua história surpreende pela reviravolta que sofreu.

Da experiência em hospitais no Rio de Janeiro para as ruas de Santos. (leia mais abaixo)

Outros, porém, preferem não comentar suas histórias de vida.

 

Presidente da entidade, Ismael Leal Leite, atende centenas de pessoas, graças a ajuda de diretores e voluntários que atuam na entidade, cujo lema é a Casa dos Pobres. Foto: Fernando De Maria

Exemplos de solidaridade

A história do futuro médico não surpreende o diretor da entidade, Ismael Leal Leite, há 11 anos na presidência da entidade e que integra a diretoria há 29 anos.

“Por aqui já passaram empresários, engenheiros e outros profissionais”, diz.

Vícios, abandono, desemprego, separação e preconceito em relação à sexualidade contribuem para estas mudanças radicais na vida das pessoas.

Leite faz questão de apresentar o imenso prédio, em perfeitas condições, e contar a história da entidade, sempre atrelada em ajudar a população mais necessitada.

Ao todo, a entidade conta com cerca de 150 voluntários, mesma quantidade de funcionários para manter a casa, cujas despesas chegam a R$ 400 mil mensais. Foto: Fernando De Maria

Para manter os 150 funcionários e as atividades – graças também a um mesmo número de voluntários – são gastos R$ 400 mil mensais. “Não é fácil”, reconhece.

Apenas no fornecimento dos almoços (a capacidade é até 140 refeições/dia) são entre R$ 12 mil a R$ 15 mil/mês.

A verba para a manutenção vem do bazar, colaboração de voluntários, parceria com a Secretaria de Educação de Santos e eventos para arrecadação de recursos (como a Noite da Pizza, que acontecerá em 16 de junho), além de aluguéis de imóveis, vários deles no Estuário, em Santos.

Ele fala com orgulho do trabalho realizado e da necessidade constante de bem atender, de acordo com os preceitos defendidos pela fundadora da entidade.

 

Ex-interno, atual funcionário

Na entidade, aliás, é possível se deparar com personagens que fazem parte do próprio Ismênia, como o funcionário José Carlos Ferreira, 58 anos, que morou no internato entre 1960 a 1976.

De lá, entrou no Exército, fez segurança bancária e trabalhou na Cosipa – Usiminas, entre 1985 a 2006, quando se aposentou.

Retornou à entidade no ano seguinte, como voluntário na banca de livro espírita  e depois virou tesoureiro da entidade (2008 a 2010, quando assumiu o Prato de Sopa, de fornecimento de refeições à população necessitada).

Desde 2015, é funcionário da casa.

 

Campanhas

Para manter o atendimento ao público, a Ismênia de Jesus faz campanha permanente para as refeições diárias e outras ações sociais.

As doações são de sabonete, aparelho de barbear, sabão, escova e pasta de dente, gêneros alimentícios, roupas e calçados, entre outras vestimentas em bom estado.

Isso porque no local o público, além de se alimentar diariamente, recebe mudas de roupas limpas, doadas pela população.

As doações podem ser feitas na conta da entidade – Banco Santander (033) – agência 0569 – c/c 13000899-6.

Ou ainda: pelo telefone 3202-8080 ou à Rua Campos Melo, 312.

Atualmente, a entidade promove a campanha para revestimento com isolante térmico para amenizar a temperatura ambiente no centro de evangelização para a população que procura o local, dentro do projeto Teto Frio.

Toda a doação, de material ou mão-de-obra, é bem-vinda.

 

 

 

 

Ex-estudante de Medicina, Rodolfo Salles, hoje está desempregado e busca uma oportunidade para retomar seus estudos, interrompidos com o fim da bolsa subsidiada do FIES, que sofreu mudanças após a troca de comando do governo federal. Foto: Fernando De Maria

 

Dos bancos escolares de Medicina às ruas de Santos

Desempregado há mais de um ano, Rodolfo Salles chama a atenção pelo porte físico.

Com 1,81 de altura e 98 quilos de peso, o constante sol que queima sua pele na faixa de areia deixa-a avermelhada.

Nascido em Piquete, na região de Lorena, no interior paulista, o jovem seria mais um que encontrou a rua como forma de abrigo e a entidade como maneira para saciar sua fome.

Hoje, dorme, junto com outros três rapazes, embaixo da marquise de uma concessionária de veículos na Vila Mathias.

Estudante de Medicina, teve que trancar a matrícula no 4º ano, logo depois das mudanças no Ministério da Educação com o FIES – programa de financiamento estudantil.

Entrou na instituição carioca Universidade Gama Filho. Com a falência da instituição, migrou para a Estácio de Sá. Isso tudo entre 2011 a 2015.

 

Fotos do passado

No álbum de fotos do seu Facebook, imagens dos tempos de faculdade e de trabalho em hospitais, como o Miguel Couto, em 2016, como maqueiro (quem transporta pacientes em macas).

Fotos de carros e motos fazem parte das imagens em sua página, típicas  de um jovem estudante em busca de sonhos.

Pagava mensalmente R$ 400,00 como contrapartida do programa.

Salles conseguiu a bolsa em razão da prova do Enade, onde conquistou 900 pontos.

“Por dois anos, tentei entrar em uma universidade federal. Isso ajudou para eu obter esta nota e conseguir a bolsa, via FIES”, destaca.

Após a mudança nas regras do Ministério da Educação em razão do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o valor subiu para R$ 3.600.

Em três meses, a matrícula foi bloqueada e ele teve que parar de estudar.

Com o baque, trabalhou também como auxiliar administrativo, maqueiro, telemarketing e vendas.

Antes, porém, chegou a servir o Exército tendo chegado a cabo ao longo de quatro anos à frente do quartel em Lorena.

Filho de pais separados, tem quatro irmãos. Até hoje, sua mãe não acredita que ele mora nas ruas de Santos.

Em suma, o tempo passou, o emprego acabou e com ele o dinheiro.

 

De volta a São Paulo

Em dezembro do ano passado, retornou para São Paulo. Mas atritos com o irmão o fizeram alterar radicalmente sua vida.

Voltou para Aparecida, onde mora uma tia, mas chegando lá falaram-lhe que ela havia se mudado.

Falha, porém, na informação. Ela havia viajado para Minas Gerais apenas.

Mas diante da porta fechada, ainda que temporária, percebeu que estava sem destino.

Assim, encontrou uma rapaz, de apelido Neguinho, a quem no passado já havia dado esmola na rua.

Logo, fizeram amizade. Alemão, como é conhecido no meio, virou seu parceiro de viagem.

Ambos resolveram voltar a São Paulo para visitar a casa dos pais de Neguinho. A pé.

Percorreram a Via Dutra.

“Descobri que quem anda pelas estradas não é chamado como morador de rua, mas trecheiro”.

Da Capital, resolveram continuar a viagem até Santos, no litoral paulista.

Eles chegaram em 13 de março. Foram 20 dias andando entre Aparecida e Santos.

“Dormi na praia”, lembra.

Não nega que o convívio nas ruas é uma porta de entrada para o consumo de entorpecentes, como maconha, crack e cocaína.

“É mais fácil você conseguir drogas do que comida por aqui”, reconhece.

 

Carregando cadeiras

Hoje, transporta carrinho com cadeiras e guarda-sóis de praia, na praia do Gonzaga.

Em dia útil, ganha de R$ 10 a 15. Aos finais de semana, de R$ 35.

O feriado do Dia do Trabalho é esperança de uma renda maior para poder pagar por um quarto junto à região do Mercado, na Vila Nova.

A indicação foi dada por um conhecido, ex-morador de rua, que conheceu na praia. Valor? R$ 150,00.

Quando chegou a Santos, ele lembra que nem sabia abrir um guarda-sol.

Mas a humildade e educação abriram-lhe as portas. Hoje, já tem até um crachá que o permite trabalhar pela orla do Gonzaga nesta função.

Desta maneira, vai levando a vida.

A expectativa que em junho saia uma decisão judicial para que seja retomado o direito de garantir a bolsa de volta (ele venceu em primeira instância, mas teria que retornar ao Rio de Janeiro, onde em razão do longo tempo que se passou, se desfez dos pertences e não teria condições mais de se manter).

 

À espera de oportunidades

Agora, busca uma oportunidade em outra instituição.

Se conseguisse em Santos, ficaria por aqui.

Caso contrário, deve voltar para a casa de uma tia, em Aparecida, no interior paulista.

“Vou ficar mais um pouco por aqui. Se não der certo, volto para lá”, diz.

Assim, ele sonha em voltar à Medicina.

Quer trabalhar com população mais humilde, especialmente pacientes do SUS – Sistema Único de Saúde.

Caso não consiga, fará técnico em enfermagem e depois curso superior de Enfermagem.

“Gosto da área da saúde”, enfatiza.

Desta forma, já enviou currículos para hospitais, empresas de telemarketing e até a estiva em Santos. Sem sucesso.

“Tenho que tomar um rumo na vida”, reconhece o jovem. Prova que a vida prega peças para qualquer um, mas é possível dar a volta por cima.

Basta ter força de vontade e oportunidades.

 

Adendo

PS.: Apesar da autorização do uso da imagem do jovem, o Boqnews.com optou em não estampar o seu rosto.

Buscamos contar a história, sem expor as pessoas na esperança que elas consigam novos rumos e não sofram preconceitos futuros.

E que Rodolfo consiga conquistar seus sonhos e atenda, como médico, pessoas humildes e esquecidas pela sociedade, várias delas, aliás, que engrossam o exército de desempregados, vítimas do descaso público e social das nossas autoridades.

 

 

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