Adeus sossego | Boqnews
8 de janeiro de 2010

Adeus sossego

Rua pacata, com  cerca de 200 metros de extensão e bem estreita, situada no quadrilátero entre a Avenida Washington Luís e as ruas Tolentino Filgueiras, Azevedo Sodré e José Caballero, no Gonzaga, a Clay Presgrave do Amaral se prepara para mudar radicalmente sua rotina nos próximos anos.

Antes contemplada por casas e residências, a via conta, atualmente, com pouco mais de uma dúzia de moradias “sobreviventes”, uma escola de educação infantil e alguns estabelecimentos comerciais. Em substituição às casas que foram demolidas nos últimos anos, estão em construção três grandes empreendimentos, que irão alterar o perfil do local.

Em breve, estas famílias ganharão muitos vizinhos. Com 98 apartamentos sendo construídos nos três empreendimentos, a rua ganhará, em média, quase 300 novos moradores. Todas as edificações são de alto padrão, o que atrairá um público motorizado.

Só nos Jardins da Vila Rica  serão 44 apartamentos, distribuídos em 22 andares. À frente, será levantado mais um empreendimento, também com 22 andares, mas com um apartamento por piso. E  mais próximo ao Canal 3, um terceiro empreendimento, com 16 pavimentos e duas residências por andar, também está em processo avançado de construção.

Alguns moradores, que não quiseram se identificar para a Reportagem, dizem que ainda não avaliaram o tamanho do impacto futuro, embora se preocupem com o que se dará até a conclusão das obras.

Os exemplos dos transtornos não faltam: em virtude das construções, é elevada a frequência de caminhões carregando materiais para as obras em uma rua estreita. Além disto, o barulho diário dos trabalhos; o pó e eventuais acidentes e ocorrências resultantes do processo de construção, se não chegam a irritar, são incômodos constantes.

Uma consequência natural para os moradores de pequenas casas próximas às obras é a desvalorização do terreno, pelo fato das residências ficarem entre os empreendimentos. Levando em consideração dados publicados no Diário Oficial, em dezembro de 2007, sobre os custos por metro quadrado na Cidade, a pequena rua do Gonzaga era a nona área mais valorizada da Cidade, cujo valor do metro quadrado era de R$ 1.523,25, superando vias maiores, como a Oswaldo Cruz e Vahia de Abreu, ambas no Boqueirão.

Um dos moradores da rua, mas preferiu não divulgar o nome, comenta que esta era uma das preocupações de sua mulher, que está bastante chateada com a situação. Tanto que ela chegou a acionar a Prefeitura contra o excesso de barulho. “Depois da intimação, eles maneiraram. Mas era betoneira funcionando além das 22 horas”, lembra.
“Obra a gente sabe que vai ter, não há como parar a expansão, mas ainda terão pelo menos dois anos de trabalho por aqui e vamos ter que lidar com isso”, completa. O morador, que reside na rua há aproximadamente cinco anos e mora ao lado de um dos empreendimentos, não descarta que, se fosse procurado, toparia negociar a residência. Desde que pelo seu real valor. “Tudo pode ser vendido, mas com um valor que não dê prejuízos a mim nem à minha família”, afirma.

Já o vizinho, que também preferiu não se identificar, revela que foi procurado para vender sua casa, e, mesmo já tendo se mudado muitas vezes, diz que uma negociação “depende de muita coisa”. Ele comenta já ter se acostumado com as obras no entorno, mas que já sofreu (e ainda tem problemas) com o serviço.

Há algum tempo, seu carro — com manchas de pó espalhadas pela lataria —, que, em virtude da movimentação de caminhões, acaba ocupando uma parte na calçada, foi atingido por uma pedra que caiu da construção.

“Ao menos, os responsáveis (pela obra) custearam todo o conserto”, diz, pouco antes de perguntar ao motorista de um caminhão que tentava passar pela rua se este queria que seu carro fosse retirado de onde estava, para facilitar o tráfego dos veículos envolvidos na obra. “Está difícil estacionar, não sei como será com o passar do tempo”, completa.


Desafio é conciliar progresso e qualidade de vida

Na visão dos urbanistas, o crescimento tecnológico e populacional das cidades é uma realidade indiscutível e não pode ser encarado como um ponto negativo. A questão principal do debate é: com o planejamento urbano atual, será que Santos está preparada para receber mais investimentos imobiliários e, com base no Plano Diretor, verticalizar ainda mais as edificações?

O atual planejamento urbano de alguns bairros de Santos é baseado no zoneamento, instrumento pioneiro utilizado na cidade de Frankfurt, na Alemanha, nos anos 50.  Esse modelo consiste na separação de áreas residenciais, comerciais e industriais.

Na opinião do urbanista José Marques Carriço, esse tipo de zoneamento é considerado anacrônico e com esse modelo, a verticalização ajuda a concentrar as pessoas numa mesma região – de forma a causar impactos no trânsito, por exemplo. “Em Tóquio, as áreas residenciais são inerentes à área de comércio e serviços e outros grandes pólos de emprego”, explica. O  urbanista e professor universitário Maurício Azenha cita o Centro de Santos. “Um dos maiores erros foi não estimular o investimento de residências para a classe média nessa região, pois é um dos maiores pólos de emprego da Cidade”, destaca.

Construtores
O presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Renato Monteiro, diz que a Cidade está preparada para o fenômeno e considera um ‘exagero’ a preocupação do crescimento imobiliário. “Os estudiosos  se esquecem que Santos demorou a crescer. Nos anos 80, os prédios altos passaram a ser o símbolo do modernismo e o crescimento desses investimentos era menor até do que os de Praia Grande”, cita.

Monteiro argumenta que nem mesmo existem impactos geográficos quando o assunto é a verticalização. Isso porque, com base no Plano Diretor, que indica o índice de ocupação (onde 60% da área onde um empreendimento é construído não pode ser ocupada) faz com que a distância entre os prédios seja maior, permitindo maior ventilação, por exemplo.

Segurança e saneamento estão garantidos

Um dos casos mais comoventes referentes a incêndios em grandes empreendimentos se deu no famoso Edifício Joelma, em 1971, na Capital. Dezenas de pessoas morreram naquele episódio.

O exemplo ainda vem à tona quando o assunto são empreendimentos verticais, bem como o questionamento sobre a segurança destes e as vias de escape, em caso de tragédia. Porém, segundo o tenente da Seção de Atividades Técnicas do 6º Grupamento de Corpo de Bombeiros, Wilson Vaccaro, a maioria das novas construções de Santos está preparada quanto à segurança contra incêndio, certificados com o auto de vistoria expedido pelo Corpo de Bombeiros (AVCB).

De acordo com Vaccaro, desde o decreto estadual 46.076/01, que instituiu o Regulamento de Segurança contra Incêndio das edificações e áreas de risco,  para se iniciar uma construção um dos documentos a serem apresentados à Prefeitura é o que assegura a aprovação do projeto de combate a incêndio do empreendimento pelo Corpo de Bombeiros. “Nenhuma edificação pode ser construída sem ter esse projeto aprovado. E após a conclusão da obra, o responsável pelo edifício pode solicitar a vistoria para obter o AVCB”, explica.

Dentre as exigências do decreto, está a obrigatoriedade da formação de uma brigada de incêndio proporcional ao número de apartamentos do prédio. Segundo o tenente, o curso de preparação de tal brigada deve ser proporcionado pela empresa responsável pelo empreendimento. “Não é responsabilidade do Corpo de Bombeiros”, avisa.

Ocorre que o auto de vistoria, que tem validade de três anos, embora necessário, não é cobrado pelos bombeiros. “Não podemos exigir (o auto de vistoria), pois não temos  poder de fiscalização nesse aspecto.

Por isso não posso dizer que todos pedem, mas os novos empreendimentos, principalmente os altos, têm seguido as orientações e pedido as vistorias após a conclusão das obras”, acrescenta Vaccaro.  “Ainda assim, é importante que as pessoas fiquem de olho se o prédio onde residem, possui o auto. Se não o tem, contate o síndico”, alerta.

Segundo Vaccaro, o procedimento para fuga de eventuais incêndios, bem como o acesso dos Bombeiros ao prédio, não sofre mudanças, ainda que, para esse tipo de construção, haja exigências maiores, como a existência de escadas pressurizadas, detectores de fumaça, o impedimento de escadas “caracol” e um elevador de segurança. 

“Não podemos dizer que não há mais riscos. Isso sempre vai haver, mas ocorrências como a do Joelma ajudaram-nos a firmar novas legislações que restringissem esses problemas”, diz.

O decreto não prevê, porém, rotas facilitadoras para portadores de deficiência física. O que, em empreendimentos cada vez mais elevados, é um risco. Conforme o tenente, esse é um dos pontos que deverão ser abordados em posteriores atualizações da legislação. “É  importante que a brigada de incêndio do prédio e os demais moradores possam colaborar para que essas pessoas não sejam prejudicadas”, finaliza.

Saneamento
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), segundo o superintendente da Unidade de Negócio da Baixada Santista da empresa, Joaquim Hornink Filho, também está “preparada” para o aumento de demanda de água e esgoto. “O processo de verticalização está nos planos das obras da Sabesp na Cidade”, garante.

Conforme o superintendente, as novas construções, de uma forma ou de outra, devem se adaptar às necessidades da companhia. Para poder conectar o empreendimento à rede de água, é necessário contato prévio com a Sabesp, e em construções com grandes áreas, exige-se o acompanhamento de uma cartilha de diretrizes.

“Nosso sistema de água é extenso, mas tem que ver se, naquele ponto, há o suporte. Se não houver, caberá ao empreendedor fazer uma obra, custeada por ele, que possa atender à necessidade de abastecimento da Sabesp”, explica.

No entanto, segundo Hornink Filho a própria Sabesp está tendo que investir para garantir a manutenção dos serviços. No que diz respeito à água, conforme ele, está em ocorrência uma adaptação do sistema de abastecimento. “Hoje, o sistema que abastece Santos fica em Cubatão. A Estação de Tratamento (ETA) Mambu Branco, em Itanhaém, vai abastecer até metade de São Vicente”, explica. O projeto prevê que a ETA de Cubatão, que abastecia até metade de Praia Grande, cuide somente de Santos, Cubatão e a outra parte vicentina.

“A ETA Jurubatuba, em Guarujá, poderá ajudar a suprir as necessidades de Santos, caso haja algum problema em Cubatão”, acrescenta. “Santos pode crescer que estamos bastante tranqüilos quanto ao abastecimento de água e esgoto”, garante o superintendente da Sabesp na Baixada Santista. Ao todo, essas obras estão avaliadas em R$ 380 milhões.
Haverá também a substituição de mais de 100 quilômetros da rede hidráulica da Cidade, com previsão de início ainda este ano e conclusão dentro de dois a três anos. “Temos redes muito antigas, sem revestimentos, e o objetivo é modernizá-las”, afirma. “É importante, pois pretende-se acabar com os filtros que ficam na entrada das casas”, completa.

Já no referente ao esgoto, as obras de pré-condicionamento, realizadas no José Menino, e parte do Programa Onda Limpa, prevêem aumento na vazão do esgoto para o emissário, de 3 mil litros por segundo para 5.500 litros por segundo. “Não vamos precisar dessa vazão para hoje, mas para os próximos 20, 30 anos, quando haverá o aumento de demanda. Por isso estamos fazendo estas obras, chamadas de estruturantes”, completa


 

Da Redação
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