Reflexo do abandono
Portões fechados, pilhas de tijolos e entulhos apoiados sobre madeiras que cercam a construção paralisada que daria vida à sede permanente da primeira universidade pública da região. Esse é o cenário que compõe o Campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), situada à Rua Silva Jardim, espaço que, hoje, apresenta somente o “esqueleto” de uma edificação de quatro andares, que totalizam 18,8 mil metros quadrados de construção. 
Com a interrupção na liberação de verbas para a execução das obras por parte do Governo Federal em razão de denúncias contra a antiga reitoria da instituição, o ritmo da construção foi interrompido há meses, atrasando ainda mais o cronograma inicialmente previsto.
Na frente da obra inacabada, duas placas remetem ao abandono: uma refere-se à data de início do processo (11 de abril de 2007) e outra, ao prazo de conclusão – 10 meses. Portanto, março de 2008. Passados quase 18 meses após o suposto período de entrega, o que se vê é apenas o “esqueleto” de concreto.
A estrutura que faz parte da rica história da Cidade, onde está a Hospedaria dos Imigrantes – e também abrigará outro prédio da futura universidade – encontra-se nas mesmas condições. Ocupando um quarteirão, o terreno (ou as ruínas que restaram) está em estado de total abandono e tem como fachada o mato alto e a cerca que tenta controlar invasões.
Licitação
O diretor-administrativo da Unifesp – Campos Baixada Santista, Maurício Correa de Almeida, explica que a instituição federal deu início à licitação de uma nova concorrência à obra, com valor inicial estimado em R$ 26 milhões.
Segundo Correa de Almeida, a entrega e abertura dos envelopes das empresas interessadas na licitação ocorrerão na quinta-feira (3), na Pró-Reitoria de Graduação da Universidade, a partir das 9 horas. “Esperamos que o valor inicial caia um pouco durante o procedimento”, enfatiza. “Há seis empresas que demonstraram interesse, cujos nomes não deverão ser divulgados, pois o processo ainda não acabou”, diz.
Os interessados puderam realizar visita técnica para conhecimento do local e das áreas já erguidas no último dia 20. O diretor-administrativo ainda ressalta que a perspectiva de conclusão da obra é de 12 meses. “Se ninguém entrar com recurso, esperamos reiniciar a construção em novembro e concluí-la no final de 2010” , diz.
Projetos
A meta da instituição é que os blocos ofereçam sete cursos e pós-graduação, com a estimativa de abrigar 1.200 universitários, além de, aproximadamente, 400 servidores.
Em relação ao terreno que abrange a área da Rua Silva Jardim à Manoel Tourinho – com 5,1 mil metros quadrados – a instituição deverá abrir processo licitatório em dezembro deste ano.
A intenção é atender, em parte, as demais atividades da universidade a partir de um prédio (Bloco 3) – destinado às áreas administrativa e laboratorial – além de pista de atletismo, piscina e quadra.
Enquanto a obra não é finalizada, a Prefeitura é quem paga a conta do aluguel do prédio onde a instituição funciona na Avenida Ana Costa, 95, na Vila Mathias. A unidade também tem sede em um prédio na Avenida Saldanha da Gama, na Ponta da Praia.
De acordo com o secretário de Governo, Márcio Lara, a Prefeitura de Santos apoia a Unifesp desde a fase de instalação. “O Poder Público alugou as instalações na Avenida Ana Costa, efetuou as adaptações internas e continua arcando com as despesas de aluguel. Abriu mão da Hospedaria dos Imigrantes que já havia sido concedida pelo Governo do Estado de São Paulo para que fosse doada à Unifesp e também de duas quadras da antiga ferrovia da Companhia Docas de Santos para o campus da Unifesp”, diz.
De acordo com Lara,a Prefeitura também apóia a instalação do Centro de Estudos das Ciências do Mar e convidou a Unifesp para compor o conselho da Fundação CENEP e da Fundação de Tecnologia e Conhecimento de Santos, que será gerenciadora do Parque Tecnológico de Santos. “Além disso, também assinará Termo de Cooperação Técnica para Pesquisas, incluindo a Unifesp”, complementa.
Quanto à Hospedaria, em visita recente ao prefeito, o novo reitor da Unifesp, Walter Manna Albertoni, informou que analisa a possibilidade de buscar projeto apoiado pela Lei Rouanet, que incluirá o edifício novo para salas de aula e laboratórios, além de um Centro Cultural restaurando a parte histórica da edificação.
“Faltou pressão política”, diz Mariângela
Uma das principais responsáveis pela vinda da Unifesp para a região, a ex-deputada federal Mariângela Duarte (PSB) diz que a falta de pressão política durante o delicado processo de auditoria pela qual passou a universidade foi um dos principais motivos da paralisação da obra.
O ex-reitor Ulysses Fagundes Neto – substituído, recentemente, pelo reitor Walter Manna Albertoni , renunciou ao cargo após ser acusado de irregularidades no uso do dinheiro da instituição. “O retardamento do processo deixou-me em desespero. Levei anos para trazer a primeira universidade pública para a Cidade e vi tudo estagnado”, ressalta. A então deputada explica que foi difícil conseguir a cessão do terreno onde se situa, hoje, a instituição, pois os diretores da Codesp lutavam junto com o Ministério dos Trans-portes para que a área se tornasse ter-reno de obras da Com-panhia de Engenharia de Tráfego (CET). Em 2005, foi publicado o edital de cessão da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), o qual transferia para a Unifesp os dois terrenos, com liberação de verba por meio do Ministério da Educação (MEC) de R$ 7,6 milhões.
O proce-dimento con-tou com apoio da Prefeitura de Santos e do atual ministro do Plane-jamento, Paulo Bernar-do. “Ao deixar o mandato, foi reservada verba complementar que totalizaria os R$ 10 milhões empreendidos na construção até agora”, afirma a ex-deputada federal.
Ela frisa que, há um mês, realizou um encontro com o novo reitor da instituição a fim de pressionar os processos internos para execução da obra.
“Foi muito demorado porque sem mandato é muito difícil pressionar. As conquistas são provisórias e as lutas permanentes. Mas, agora, a expectativa é que a Cidade ganhe, finalmente, um diferencial para a saúde pública da Região com a conclusão das obras da Unifesp”, diz a ex-parlamentar, apostando que após a finalização das obras a região ganhará um novo impulso acadêmico, por meio do campus próprio da Unifesp.