Opiniões

09 DE JANEIRO DE 2020

A culpa é da imprensa?

Por: Fernando De Maria

O título deste artigo é semelhante ao livro A Culpa é da Imprensa! escrito e lançado no século passado (1992) por Yves Mamou, então jornalista econômico e um dos editores do jornal francês Le Monde, onde trabalhou até se aposentar.

Na obra, o autor destaca que para o cidadão comum a imprensa é a grande culpada dos males modernos – ainda mais em tempos onde o presidente da República compara jornalistas a animais em extinção, ganhando a claque dos seus seguidores.

E veta a assinatura de jornais e revistas do Governo, que ‘envenenam’ a sociedade.

Esquece, porém, o valor da informação.

Não só pelo conteúdo, mas contra o ataque das notícias falsas, as populares fake news, cada vez mais frequentes.

Afinal, quanto menos informação, mais fácil uma sociedade passa a ser manipulada.

É isso o que alguns desejam.

Para se perpetuar em falsas verdades, que acabam disseminando desinformação e riscos.

Isso é concreto e real.

Comprovado em teorias formuladas por pesquisadores da Comunicação e nos pensamentos de educadores, como Paulo Freire, atualmente símbolo de ataques contra aqueles que pensam de forma diferente são considerados ‘esquerdopatas’.

Puro delírio.

 

Informações falsas

Cito como exemplo recente, um vídeo em circulação pelos celulares (whatsapp) que acusa um posto de combustível, supostamente instalado em Santos, no litoral paulista.

No vídeo, uma mulher questiona sobre o valor cobrado na bomba não coincidir com o calculado pelo volume de litros que abasteceu o carro.

O vídeo é real e o caso existiu.

Mas ao apontar o local do posto, há uma acusação clara – e infundada.

Quem conhece o estabelecimento percebe nitidamente que não se trata do posto acusado.

Recebi o mesmo vídeo em vários grupos.

E respondi dizendo que não procedia a acusação ao posto em questão.

Um risco à imagem do estabelecimento.

Imagino a quantidade de pessoas que compartilharam erroneamente esta informação.

E não checaram a procedência.

Sério risco do ‘liberou geral’.

Assim, é mais fácil disparar críticas e acusar do que efetivamente entender, analisar e se aprofundar sobre um assunto para então emitir a opinião.

Em tempos de frases curtas e fáceis, dane-se o conteúdo, portanto.

Vale a pena ‘curtir’, ‘compartilhar’ e ‘atacar’, sob o pretexto de estar ‘fazendo o bem’.

 

 

Corrompendo a sociedade

Na obra, o autor francês Yves Mamou mostra como a desinformação, a mentira e o engano corrompem a sociedade.

A despeito dos erros da Imprensa – como ocorrem em outras áreas, como no Judiciário, na Medicina, na Política, para ficar em algumas instituições – isso não significa que a ausência dela levará a uma sociedade mais justa e equalitária.

Ao contrário.

Afinal, onde os boatos e mentiras imperam, os riscos de ruídos se ampliam.

Enfim, todos os setores instituídos existem para a manutenção dos preceitos democráticos.

Gostem ou não.

(É claro que os fãs de outras formas de governo têm outra visão!).

 

Imprensa e intimidação

O perigo ocorre – em razão da potencialidade das redes sociais e tecnologia via whatsapp – quando as críticas extrapolam, como as feitas pelo presidente Jair Bolsonaro contra os profissionais da Imprensa.

A ponto de questionar até a sexualidade de um profissional durante as tradicionais coletivas no cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada, ao lado da claque costumeira.

Pura intimidação.

Talvez o presidente não saiba o valor do profissional jornalista para a sociedade.

Vê nele como um inimigo.

Pura bobagem.

Além disso, esquece como pessoa pública, o dever de informar.

E também saber receber críticas.

Seja do seu governo, seja de acusações que atingem seus filhos, que são muitas.

Assim, talvez isso justifique o seu desprezo aos profissionais da Imprensa.

Esquece, porém, que graças também a jornalistas – alguns que perderam a vida durante o regime militar, como Vladimir Herzog – o Brasil vive uma democracia.

Ainda que alguns preferiam a ditadura.

 

Carteira verde-amarela

Exemplo do desprezo à profissão está na futura carteira verde-amarela, criada pelo Governo Federal, sob o pretexto de gerar empregos, mas com objetivo claro de tirar direitos das pessoas, que prevê o fim do registro profissional de publicitários, químicos e, é claro, jornalistas.

Um ódio particular, pelo jeito.

Ora, talvez o presidente não saiba que graças ao (sempre ele) ministro Gilmar Mendes não é mais necessário ter diploma para ser jornalista.

Assim, o fim do registro profissional abre a porteira para qualquer pessoa se ‘classificar’ como tal.

E aí mora o perigo.

Afinal, há uma clara diferença entre a liberdade de emitir opinião – o que é aberto e livre a todos  – e o trabalho de apuração e busca dos fatos e da verdade – ainda que ela tenha várias facetas – feito pelo jornalista.

Se erros existem – e é claro que sim, como em qualquer outra profissão – devem ser corrigidos.

Mas negar o papel do jornalista é ignorar um dos preceitos básicos da democracia.

Algo, diga-se de passagem, não muito afeito a quem está no poder.

Infelizmente.

 

 

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