Dr. Bruno Pompeu

Desabafo de um idoso numa consulta

03 de janeiro de 2013 - 18:53

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Saudades dos meus 20 anos. Passaram-se décadas e constato na carne seu desgaste inexorável. Antes, cabelo abundante, hoje uma calvície gozatória. Enxergava bem e qualquer coisa, pois agora nem as lentes corrigem o desgaste da retina e cristalino, já operado. Tinha um ouvido aguçado, não deixando passar nada, porém, agora, pouco entendo o que se diz e peço para elevar o tom. Roia nozes, amendoim, castanhas e quebrava balas e torrões, restando-me, agora, cacos numa boca murcha e sem paladar. A escrita era perfeita, com caligrafia de uma árabe em contraste com os atuais garranchos inelegíveis e tortuosos, pois minhas mãos tremem muito. Braço-de-ferro. 
Ah… era a minha vigorosa especialidade, que desapareceu deixando braços e pernas flácidos e andar trôpego. Que bom humor tinha para tudo e todos, substituído por uma cara fechada e semblante de derrotado. Brigava por qualquer coisa como se paladino fosse e passei a acovardar-me recolhido em meu apartamento cinza. Adorava conversas, causos, trocando tudo isso por introspecção e isolamento social. 
Passei a encher as mãos de remédios, genéricos de preferência, pois minha aposentadoria é humilhante e nenhum político se preocupa com isso. Em UBS sou tratado como estorvo, chato, sem nenhuma reverência. Quando puxo conversa, só falo eu e ninguém me dá ouvidos. Volto para casa, pois é hora do almoço: que preguiça! Comerei bolachas macias, pois doem-me os dentes. Assisto a TV aberta para passar o tempo, pois a meta é sempre aumentar a sobrevida dos velhos e assim, aposentado, desamparado, fico mofando num sofá encardido, esperando quem nunca me visitará ou telefonará. 
Para que tudo isso? Tornei-me um peso aos meus filhos que fingem gostar de nossa companhia. Sei que sou um fardo ao Estado, que não me respeita, não me acolhe, não me protege e só me manda impostos a pagar. Cansei-me de tudo, cansei-me destes políticos que se travestem de santos pedindo votos a essa população de velhos que faço parte.
Para que viver tanto, onerando todos e forçando-os a uma farsa de bem-querer? Não aguento mais esse teatro familiar quando em datas festivas sou presenteado com violetas, chinelos, pijamas ou estátuas de santos, aguentando caras tortas e muxoxos. Nossa cultura não foi programada para assistir idosos, pois nada produzimos e só gastamos.
Perdi amigos, parentes queridos e a solidão é a pior dor. O tempo não passa, não tem volta e caminho para o outro mundo, de preferência o mais rápido possível. Com minha ida celestial ficará um pequeno vazio, cobiçado pelos herdeiros ávidos por um patrimônio ridículo. 
Saudade de minha infância, de minha mãe, num tempo feliz onde tudo era muito inocente.
Dormirei em paz, acho eu!