Panorama Regional
Fernando De Maria

Ficção e realidade

Coluna do diretor adm./comercial, Fernando De Maria

23 de maio de 2018 - 09:00

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O filme Uma Noite de Crime e suas franquias mostra como o Estado pode incentivar a ocorrência de assassinatos sem qualquer tipo de punição.
Na película, durante 12 horas, qualquer tipo de ato criminoso pode ocorrer pelas ruas americanas. Instala-se uma verdadeira terra de ninguém, onde a luta pela sobrevivência passa pelo natural processo darwiniano, que definirá o futuro delas.

A despeito de se tratar de uma ficção, talvez a película tenha sido inspirada nos Crimes de Maio, que atingiram o Estado de São Paulo em 2006, quando uma onda de ataques e terror atingiu as principais cidades paulistas, incluindo a Baixada Santista, deixando a população à mercê do crime organizado e atônito o Governo do Estado (na época, o vice Cláudio Lembo havia substituído o tucano Geraldo Alckmin para disputar a Presidência da República (déjà-vu?).

Entre os mais de 500 assassinatos ocorridos no Estado na ocasião, a Baixada Santista registrou 71 mortes por arma de fogo, a imensa maioria delas ainda sem qualquer esclarecimento ou punição aos autores destes crimes.

Foi preciso a universidade inglesa (Oxford) em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) unirem esforços para elaborar o estudo Violência de Estado no Brasil: um estudo dos crimes de maio de 2006 na perspectiva da Antropologia Forense e da Justiça de Transição.

Trata-se de um retrato exemplar que recupera a tragédia ainda não esclarecida e que alterou a vida de dezenas de famílias, que ainda aguardam respostas. Houve uma seleção natural das vítimas, apesar de várias delas não terem conexões entre si. Por meio de análise dos locais onde ocorreram os crimes, percebe-se que as execuções ocorreram em bairros periféricos de Santos, São Vicente e Guarujá, municípios que concentraram a maioria dos assassinatos.

O perfil das vítimas era formado por jovens, vários deles estudantes ou com emprego fixo, negros e pobres. Boa parte sem passagem pela polícia. Os crimes foram com armas de fogo e atingiram as vítimas na cabeça e tórax, em especial, revelando que quem apertou o gatilho desejava matar. Há o caso de uma jovem grávida baleada na barriga, tórax e nádegas. A violência foi tanta que o feto teve lesões no joelho e na mão esquerda.

“Existem indícios que apontam que as pessoas assassinadas nesses episódios foram mortas como resultado da violência do Estado”, diz trecho do documento. “Episódios envolvendo mortes de civis não foram elucidados e agentes do Estado não foram investigados”, acrescenta.

Para evitar que novas ações voltem a ocorrer, o estudo sugere a reabertura das investigações (o Estado alega que não é possível identificar os eventuais culpados, com aval do MP paulista), e a devida punição, com reparações de danos materiais e morais. Enquanto isso não ocorre, as Mães de Maio, grupo formado por mulheres que tiveram seus filhos assassinados, choram pela tragédia e temem que a impunidade seja a senha para a violência se espalhar ainda mais pelas periferias das cidades.