Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

O lado negro da web (I)

09 de janeiro de 2014 - 17:37

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Os dispositivos da nova era digital – computadores, “tablets”e “smartphones”  – vieram para ficar. Não há volta. Ninguém pode negar suas vantagens na vida das pessoas, facilitando a comunicação, a informação quase em tempo real, a propaganda para compra e venda de produtos/serviços, a interação nas redes sociais como “facebook”, “twitter”, entre outras. 
Por outro lado, o ambiente multitarefa onde os indivíduos trafegam intensamente “on-line”, incentiva a leitura descuidada pela fragmentação do conteúdo, dilacera a concentração por provocar um estado de desatenção permanente e favorece o pensamento apressado que prejudica o aprendizado. 
A utilização constante da “web” exige que seus usuários avaliem “links” e tomem rapidamente decisões de navegação: continuar lendo o site ou abrir o e-mail recém chegado? Interromper o processo de compra ou acessar a nova mensagem de seu ídolo no “twitter”? Muitos especialistas já comprovaram que esse processo contínuo de tomada de decisões inunda o cérebro com enorme volume de estímulos sensoriais. Desta forma ele se distrai e não consegue interpretar textos ficando impossibilitado de compreender e reter informações – as ações básicas da aprendizagem. 
O cérebro possui dois tipos de memória: a de curto prazo e a de longo prazo. A de curto prazo incorpora as impressões, sensações e pensamentos em determinado momento, e pode durar alguns segundos. A de longo prazo mantém armazenado de forma consciente ou inconsciente tudo aquilo que é aprendido e permanece no cérebro por dias, meses, anos ou a vida inteira. Ela é o centro do conhecimento.
Um tipo importante de memória de curto prazo é a memória de trabalho, responsável pela tarefa de transferir as informações percebidas à memória de longo prazo. Sem essa transferência as pessoas não aprendem. 
Ao contrário da memória de longo prazo com capacidade quase ilimitada para guardar informações, a memória de trabalho consegue manter pouquíssimos dados antes de transferi-los à memória de longo prazo. 
Além disso, essa passagem é um enorme gargalo, pois permite a transferência de somente algumas unidades de informação de cada vez. 
Por exemplo, alguém recebe quase que ao mesmo tempo as informações do aumento da gasolina, da crítica do Pelé ao Neymar, da morte do Hugo Chaves, do aviso de e-mail do noivo, do vídeo com os gols do timão, entre outras. Somente uma pequena parte dessas informações será registrada (transferência da memória de trabalho para a memória de longo prazo), pois o restante desaparecerá rapidamente do cérebro.  
Em outras palavras, os conceitos precisam chegar à memória de longo prazo para serem efetivamente compreendidos.
Quando o indivíduo lê um livro, seja em papel ou mesmo no formato “e-book”, ele está absorvendo informações através de um processo linear – um conceito de cada vez – com um só tipo de informação (escrita). Mas se a pessoa estiver navegando na internet, utilizando os “links” para passar rapidamente de um texto para um vídeo ou e-mail ou propaganda de um produto ou entrando no “facebook”, ela será impactada por um processo não linear – múltiplos conceitos quase que ao mesmo tempo – envolvendo vários tipos de informação (escrita, sonora e visual). 
Na leitura do livro há tempo suficiente para as informações serem absorvidas pela memória de trabalho e transferidas à memória de longo prazo, com alta probabilidade de um aprendizado eficaz. 
Texto do livro “A Arte de Conviver”.