O jogo Scalebound, exclusivo de Xbox One e Windows 10, foi cancelado na tarde de ontem (09 de janeiro) e causou um alvoroço na mídia. Algumas declarações foram realizadas pela produtora, a PlatinumGames e pela própria Microsoft que deixaram bem claro que não há forma da produção continuar. O game contava a história de um humano que vivia em nossa época e, de algum modo, parava num cenário místico, junto a um dragão que o acompanharia em sua jornada. O monstro seria uma inteligência artificial em separado do código do game, o que tornava-o imprevisível e poderia ter várias reações durante o decorrer da história. Quando foi anunciado na E3 (Electronic Entertainment Expo, maior feira de videogames do mundo) em 2014 causou bastante alvoroço e era altamente esperado por vários jogadores.
O que muitos estão apenas lamentando a queda deste grande lançamento, há inúmeras vertentes que não chegaram aos olhos das grandes mídias. A PlatinumGames é uma produtora de games japonesa, que lidava com diversos profissionais e jogos de sucesso como Bayonetta, Metal Gear Rising: Revengeance e o esperado Nier: Automata (exclusivo para PlayStation). Além disso, também contava com o designer de jogos Hideki Kamiya, responsável pelas séries Viewtiful Joe, Devil May Cry e Resident Evil. Com um histórico desses, Scalebound era uma das principais apostas do público de maior sucesso do Xbox One e também estava bem aclamado nas críticas gerais.
Em suma, não foi explicada a principal razão deste cancelamento. Quase nunca é explicado quando algo assim ocorre. Lembro-me até hoje quando comprei meu Nintendo 3DS com a promessa da produtora Capcom de fazer o jogo Megaman Legends 3. Já havia jogado os anteriores no PlayStation (o primeiro) e a sequência me parecia animadora. Para a minha sorte, não havia comprado o 3DS apenas para aquele jogo em particular, ainda teriam outros em interesse. Mesmo assim, eu vi pessoas comprando o Xbox One com Scalebound em mente. Quando avisei um grupo de amigos deste cancelamento, um deles mandou “Alguém está a fim de comprar um Xbox One?”. Não sei se era brincadeira ou não, mas se não fosse, eu compreenderia o desapontamento.
Atualmente, uma boa gama de jogos está sendo cancelada ainda em seu desenvolvimento. Poderia citar o exemplo mais recente, de Silent Hills (para PlayStation 4), que chegou a receber uma demonstração jogável que realmente animou a todos os jogadores que conseguiram baixá-la ou Mortal Kombat X, que receberia cópias para PlayStation 3 e Xbox 360 e nunca foi sequer falado a razão de não darem as caras. Adiamentos nem se comentam, pois virou comum no mercado de jogos algum ser adiado por meses, anos ou por tempo indeterminado. The Last Guardian e Final Fantasy XV viveram neste “limbo” por 10 anos. Mas há razões mais fortes para se desapontar com o caso de Scalebound.

A interação entre o protagonista e o dragão era uma das maiores chamarizes do jogo, que prometia uma amizade entre as duas espécies que não foi mostrada antes em qualquer outro game
Parcerias entre o mercado japonês com o público “americanizado” são comuns atualmente. Inúmeros games sobre animes (Naruto Ultimate Ninja Storm, Dragon Ball Xenoverse, Sword Art Online, apenas para citar alguns) chegam ao mercado ocidental e brasileiro. Porém, era uma primeira vez que uma companhia dos Estados Unidos se interessou em buscar no mercado japonês algo inovador e que trouxesse uma proximidade maior entre as duas culturas. A Sony e a Nintendo são naturais do Japão, não passam por problemas neste sentido. A Microsoft é banalizada naquele lado do mundo, sendo que vários relatórios da VGChartz, órgão de pesquisa de mercado, mostra claramente milhares de peças de PlayStation sendo vendidas para o japonês, enquanto Xbox não bate nas 20 peças (de todo território). Seria uma baita aproximação, o que poderia render novas parcerias e mais jogos deste gênero vindo ao Ocidente. Muitos ainda são mantidos apenas para o público nipônico.

Scalebound, na E3 2016, revelou que também contaria com um modo multiplayer cooperativo, para que jogadores se unissem para enfrentar oponentes mais difíceis com apoio)
Fora da guerra dos consoles, da piada pronta e da promessa de um bom jogo, Scalebound conseguiu desapontar com seu cancelamento por ser algo novo e interessante à Microsoft, que apesar de contar com exclusivos bons, não possui algo tão forte quanto este jogo se mostrou. Particularmente, penso “vida que segue”, não me desfaço do videogame, não me desanimo e continuarei investindo tempo e dinheiro no Xbox One. Continua um ótimo videogame, com ótimos jogos, com lançamentos bons vindos para ele e nada mudou nesse quesito. Porém, confiança é algo que foi perdido, não apenas por mim, mas por vários jogadores pelo mundo. Imagine se a Marvel decide cancelar seu filme de Vingadores: Guerra Infinita a esta altura do campeonato, ou se o George R. R. Martin diz que Dança dos Dragões foi seu último livro escrito. Imaginem se The Walking Dead é cancelado hoje, repentinamente (para não dizer que poderia ser uma inverdade, foi exatamente isso que ocorreu com Fringe, um dos meus seriados favoritos. Num dia, repentinamente, foi cancelado e os diretores teriam alguns poucos episódios para explicar os acontecimentos para finalizar). É essa a sensação deixada. Um vazio.
Trailer de Scalebound, revelando o tom do jogo e mostrando-o pela primeira vez em 2014
Ainda que não tenham o videogame, que nem se importavam com este jogo ou que não curtam games, aconselho a rever o que pensa sobre o mercado cultural. Ele não gira apenas em torno de conteúdo, de ser promissor ou não, dos envolvidos (atores, escritores, diretores, o que for) ou do que seja. Ele gira em torno de dinheiro, de executivos que decidem se aquilo sairá ou não. Diziam que Scalebound estava praticamente pronto. A equipe se dedicou mais de quatro anos de sua vida, os vídeos apresentados foram empolgantes, estava tudo correndo de modo que o lançamento fosse um sucesso. Porém, apenas um bater de martelo retirou essa chance. Não foi a primeira vez, nem a última. Mas foi uma vez que “machucou”. Dirão que é “o mercado”, que o ramo não é tão justo, que tiveram sua chance. Mas todos sabem que uma obra de arte não fica pronta do dia para a noite. Que algo relevante e bom anda separado de algo lucrativo e financeiramente positivo. Enquanto o dinheiro ditar as regras, não será o único conteúdo que veremos um fim prévio antes de decidirmos se aquilo era bom de fato ou uma ilusão. Alguém decidiu por nós. Qualquer coincidência com a política, meios de comunicação e outras áreas é meramente ilustrativa. E tirar a opção e o poder de escolha, independente do que seja, não me parece o “melhor caminho”.

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