Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Pré-conceito

Confira o novo artigo da psicóloga Marcia Atik, da coluna Vida & Prazer

06 de setembro de 2016 - 10:18

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Quando um casal engravida, roupinhas cor-de-rosa ou azul, de acordo com o sexo anunciado, já vão construindo a história natural dessa criança. Mas se, de repente, essa expectativa se frustra na puberdade quando aquele ser autônomo revela uma identidade homossexual, aí todas as relações familiares passam a ser questionadas e desafiadas.

A novidade acaba trazendo a urgência de uma reavaliação da psicodinâmica familiar, e isso nem sempre ocorre com tranquilidade. Mas esse é o primeiro núcleo a ser trabalhado quando a questão é a identidade sexual.

Não serei hipócrita em dizer que os pais ou a família de um jovem que assume sua homossexualidade devem aceitar sem angústias, mas também sabemos que os filhos raramente satisfazem o enredo sonhado pelos pais, pois a vida e os sonhos deles são particulares. E, à medida que crescem, assumem seus desejos, independentemente de nossa romântica visão de que tudo na vida acontece como o programado.

No que diz respeito à diversidade sexual e ao preconceito que via de regra a acompanha, creio existir um único caminho para a desconstrução: a informação e a educação para viver num mundo plural.
A intolerância com que o mundo lida com as diversidades sexuais é diretamente proporcional à intolerância que reservamos aos nossos próprios desejos quando esses não correspondem à imagem que fazemos da nossa vida hollywoodiana, certinha como um filme e, principalmente, pela falta de informação que se tem sobre o tema.

De uma maneira geral, a expressão da sexualidade é reduzida a uma relação sexual, não levando em conta outros aspectos não ligados aos órgãos genitais que são tão ou mais importantes que isso.
Essa supervalorização da sexualidade, apenas circunscrita aos órgãos sexuais, exclui que entre os iguais o afeto também está presente. É ele que direciona o desejo sempre válido e sagrado, seja ele homo ou hétero.

Não raro desqualificamos, abandonamos ou agredirmos verbal ou fisicamente aquilo que meramente não compreendemos, na medida em que somos fruto do meio, e o meio – por mais que lutemos – tem uma força enorme nas nossas vidas, e assim nascem o preconceito e o julgamento.

Na teoria, a liberdade é um sentimento que todos nós perseguimos, mas, na prática, só conseguimos quando temos coragem de viver em harmonia com a evolução da sociedade, vendo a diversidade apenas como uma variante do ser humano e acreditando que imoral é a sociedade que não valoriza o afeto e o desejo na construção de uma relação afetiva.

Compreender essa diversidade significa exercer a própria sexualidade com respeito pela sua natureza e pela dos outros.