Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

Viver para trabalhar?

21 de setembro de 2014 - 15:06

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Todos conhecem a importância atribuída ao trabalho. Este é bastante valorizado pelas religiões mais importantes do mundo. “O trabalho dignifica o homem” é um ditado muito conhecido e apoiado pela maioria das pessoas. A palavra trabalho, do latim tripalium, significava no passado um instrumento de tortura usado para punir criminosos. O ser humano tem perfeita consciência que a maior virtude da vida é conseguir o meio termo ou equilíbrio em tudo aquilo que faz. Como não exagerar naquilo que se gosta de fazer? Como não fazer ou pouco fazer o que é desagradável?

Um dos paradoxos que assombram o mundo dos negócios refere-se ao desejado equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional. O ser humano precisa priorizar aquilo que realmente é importante para ele. Sempre é bom lembrar que o excesso de prioridades pode significar não ter prioridade alguma. Com freqüência, as pessoas enfrentam verdadeiras “sinucas de bico”. Participar da reunião na escola do filho ou com o cliente importante? Ir jantar fora com a esposa ou comparecer à reunião marcada após o expediente pelo chefe workaholic? Praticar exercícios ou trabalhar sistematicamente 14 horas por dia?

Muitos falam que o problema é “somente” de administração do tempo. Mas o tempo não pode ser gerenciado. Ele é inexorável. O que é possível fazer é administrar a própria vida com o tempo disponível. O que fazer quando a cultura empresarial exige sacrifícios que só podem ser cumpridos por uma pessoa maníaca pelo trabalho?

O grande inimigo do profissional competente com a carreira em ascensão é a facilidade com que ele fica viciado pelo trabalho sem perceber. Entretanto, o executivo deve refletir se ele não é o principal culpado por trabalhar demais sem ter um tempo para si mesmo. Não adianta ficar culpando o líder, a empresa, o trânsito, o cônjuge, os filhos…

Os profissionais precisam refletir com muito carinho sobre as questões a seguir. Trabalhar é mais agradável do que estar com a família? O trabalho é realizado com frequência nos finais de semana e nos poucos dias de férias? O crescimento dos filhos está passando despercebido? O cônjuge e os filhos reclamam da ausência constante? As pessoas com compromissos além do trabalho são consideradas menos eficazes do que aquelas que não têm? O que é mais valorizado, o tempo de presença na empresa ou os resultados alcançados?

As pessoas precisam fazer a lição de casa. Não dá para cozinhar uma omelete sem quebrar os ovos. No entanto, os viciados em trabalho tentam realizar isso constantemente e pagam um preço muito alto pela falta de consciência do que eles realmente desejam. Casamentos desfeitos. Filhos magoados pela infância sem carinho. Danos irreversíveis à saúde psicológica e física.

O grande desafio do profissional é “trabalhar para viver”, produzindo muito durante a semana, mesmo que trabalhando 12 horas por dia. No entanto, descarregar suas baterias ao final do expediente, buscando a qualidade de vida pela dedicação das noites, finais de semana e férias para as atividades de lazer e convívio com a família.

Se não vencer esse desafio, dois caminhos estarão disponíveis para ele. O do sucesso profissional que ele provavelmente irá percorrer, em parte sozinho, sem amigos e família ou a interrupção prematura de sua carreira por estresse, depressão ou ataque cardíaco.

Texto extraído do livro A Arte de Conviver.