Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Voltando à ilha

23 de março de 2015 - 11:51

Compartilhe

‘Vieste. Fizeste bem. Eu te aguardava. Puseste folia no meu coração, que se abrasa de desejo’.

A autora desta frase foi Sapho, uma das raras filosofas mulheres que deixou um pequeno e quase desconhecido legado, destruído pelo papa Gregório VI, pois a criação feminina, não fossem filhos, era ignorada.

Essa mulher que morava na Ilha de Lesbos na antiguidade grega, reunia mulheres para pensar, discutir e, quem sabe, criticar ou se lastimar. Mas de qualquer modo produzir filosofia a partir do ponto de vista das mulheres.

Daí chamarmos de lésbicas mulheres que tenham relações ou desejos homoafetivos.

O assunto da semana foi o beijo entre as duas damas da teledramaturgia que representam um casal de senhoras lésbicas, além disso, dois e-mails recebidos essa semana pediam o comentário sobre o assunto.

Coloco-me à prova, pois creio firmemente que o conhecimento é o primeiro passo para que preconceitos e angústias sejam derrubados, então falemos sobre isso.

No século XIX, aqui no Brasil falava-se da relação de intensa amizade entre dona Leopoldina e a inglesa Maria Graham, isso apenas para dizer que as relações afetivas entre mulheres sempre existiram, mas passavam sempre aos olhos da sociedade como intensa amizade ou cumplicidade, pois nessas relações também o desejo feminino nunca foi valorizado.

Na teoria, a liberdade é um sentimento que todos nós perseguimos, mas na prática só conseguimos quando temos coragem de viver em harmonia com o que sentimos, pois quando o padrão é desrespeitado um vendaval de culpas invade. Considerando-se imoral,quando na verdade , imoral é a sociedade que não valoriza o afeto e o desejo na construção de uma relação afetiva.

Charlote Wolff bem definiu em seu livro Amor entre mulheres…“não é o homossexualismo (sic), mas o homoemocionalismo, que constitui o centro e a própria essência do amor das mulheres entre si”.

Não se trata de contar a história da homossexualidade feminina e sim de dar uma pincelada para percebermos que ela esteve sempre nos bastidores da história oficial da humanidade.

O que eu pretendo na verdade é refletir o quanto a humanidade é contraditória num assunto que caminha com ela, mas sempre à margem, de uma maneira geral.

A expressão da sexualidade fica reduzida a um coito, a uma relação sexual, não levando em conta outros aspectos, às vezes até nem ligados aos órgãos genitais que são tão ou mais importantes que isso.

O lesbianismo nada mais é do que uma variante da sexualidade humana. As lésbicas são, fora do comportamento sexual, exatamente igual às outras mulheres, bonitas, feias, talentosas ou rudes, fiéis ou desleais, dominadoras ou submissas.

A homossexualidade feminina tem algumas características particulares, ela é muito mais afetiva do que sexual. Embora o relacionamento sexual exista, são relacionamentos homoafetivos na sua essência.

“Não temos espaço para esgotar o assunto, mas esse é o começo se refletir e não julgar aquilo que foge ao entendimento. Tal como os deuses que venero, quando me sento a vossa frente, hóspede minha. Sinto-me feliz com os ouvidos atentos a vossa voz, tão doce, tão próxima, vosso riso encantador faz com que o coração pulse em meu peito” (Sapho, séc. VI AC).