Foto: Cesár Morgado/PMSV-Divulgação

Opiniões

23 DE DEZEMBRO DE 2019

Roda gigante

Por: Fernando De Maria

A garantia do presidente Jair Bolsonaro em liberar R$ 48 milhões para as obras da Ponte dos Barreiros, em São Vicente, revela vários pontos interessantes e nem sempre percebidos pela população.

Mas os sinais são muito claros.

Afinal, há anos se discute sobre as más condições da ponte, de 600 metros, que liga São Vicente-ilha ao continente e vice-versa.

A via – o caminho mais curto de acesso a quase 150 mil pessoas que residem na área continental vicentina – é de extrema importância.

Entregue nos anos 90, ela impulsionou a região e, por sua vez, o próprio comércio da cidade, um dos mais pujantes da Baixada Santista.

A história sobre os riscos da ponte, porém, é antiga.

Um empresário que construiu edifícios na área continental há quase 18 anos já ouvia dizer sobre as más condições da edificação, cuja obra começou nos anos 80, mas terminou quase uma década depois.

De lá para cá, quase (ou nada) mudou.

Entraram e saíram prefeitos, governadores e deputados.

Alguns alçaram novos voos políticos e nada foi feito para alterar os rumos da ponte.

Até que uma decisão judicial mudou a história.

E tornou real uma suspeita de décadas.

Afinal, laudos técnicos do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas revelam riscos reais de desabamento da mesma, caso o fluxo de veículos fosse mantido.

Hoje, sua paralisação prejudica o cotidiano de milhares de pessoas que a atravessam a pé – ou simplesmente ampliam em mais de uma hora sua viagem, no caso de veículos, caminhões e ônibus, passando por Praia Grande para fugir do pedágio elevado em Cubatão.

Mas, em razão dos riscos concretos, não havia outra alternativa.

 

Alberto Mourão

Alberto Mourão, prefeito de Praia Grande.

Metropolitano?

O prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão, chegou a destacar o aumento do fluxo de veículos que atravessam a cidade em razão disso.

Sugeriu até, durante o encontro do Condesb – Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista – que as demais cidades abrissem mão dos recursos existentes no Fundo Metropolitano (pouco mais de R$ 5,5 milhões) para ajudar a custear as obras.

Apesar do termo metropolitano, na prática, nem todos os alcaides se mostraram animados em abrir mão desta verba para ajudar a população da cidade vizinha.

Aqui o valor não importava tanto, mas o ato solidário e regional em si.

Pelo jeito, a alcunha metropolitana só fica no papel mesmo.

Mas haverá uma próxima vez?

Será?

 

Em alta

Entre os atuais ‘pais e mães’ da criança que querem sair na foto como os responsáveis pela futura execução das obras, alguns saíram em alta e outros em baixa com o eleitorado.

Com menção do próprio presidente da República, o maior destaque coube à deputada federal Rosana Valle (PSB).

 

 

A despeito de seu partido não integrar a base de apoio do governo, Rosana Valle(foto), em seu primeiro mandato, conseguiu alinhavar com as autoridades de Brasília para que a informação sobre o que estava ocorrendo em São Vicente chegasse ao conhecimento do presidente Jair Bolsonaro.

Ponto para ela, que mereceu o reconhecimento presidencial (veja o vídeo abaixo).

 

 

E claro, principalmente, à população vicentina, que sofre diariamente com o descaso deixado pelas autoridades.

Saindo do papel – e tomara no tempo mais curto possível – esta obra será um cartão de apresentação inesquecível para 2022.

É claro, caso Rosana tenha interesse em tentar a reeleição.

O mesmo vale para Bolsonaro.

Sua popularidade nas terras de Martim Afonso cresceu como um rojão.

 

E no Estado?

 

Na briga para saber se a ponte era municipal ou estadual (a despeito da futura linha do VLT – Veículo Leve sobre Trilhos passar por ela, algo que já deveria ter saído do papel, aliás), coube ao Governo Federal tomar uma decisão.

Deve-se salientar que no âmbito estadual, quatro parlamentares se uniram para indicar emendas para a obra.

Posaram para foto e divulgaram à Imprensa e redes sociais.

Foram eles: Kenny Mendes (Progressistas), Wellington Moura (PRB), Paulo Correa Jr (DEM) e Tenente Coimbra (PSL).

R$ 1 milhão cada e outros R$ 4 milhões por parte do Estado.

Total: R$ 8 milhões.

Com aval, é claro,  do governador João Doria.

Insuficientes para a obra, mas suficientes para ganhar espaço na mídia.

Excluindo Kenny e Coimbra, marinheiros de primeiro mandato, os demais já estavam na Assembleia Legislativa em anos anteriores.

Surpreendeu neste anúncio a ausência de Caio França, vicentino da gema, e filho do ex-prefeito, ex-vice-governador e governador, Márcio França.

França, o deputado, não faz parte da bancada de apoio ao governador.

Portanto, foi excluído da foto oficial.

Apesar de ter indicado R$ 2,8 milhões em emendas.

Alguns indagam nas redes sociais: por que França, o pai, não agilizou a recuperação da ponte enquanto esteve à frente do governo paulista?

E o mesmo com o filho, parlamentar de segundo mandato.

 

Bolsonaro x Doria

 

Como o vento mudou de um ano para o outro, hoje o deputado França faz parte da oposição ao governador João Doria.

Aliás, não faltaram farpas entre o governo paulista e a prefeitura vicentina, hoje sob comando do ex-cunhado de Márcio França, Pedro Gouvêa.

Aliás, elogiado pelo presidente Bolsonaro no vídeo divulgado.

E no jogo de empurra-empurra, críticas diretas – e indiretas – não faltaram, além de promessas e promessas de liberação de verbas.

O Estado garantindo 50% dos custos.

Mas a prefeitura – quinta maior arrecadação regional e segunda em termos populacionais – não tem recursos extras.

Trata-se de briga antiga, fruto de resquícios da eleição passada, cujos efeitos perduram na Ilha de São Vicente.

Tanto em solo vicentino, como santista.

Enquanto a briga sobre o destino da ponte ficava em âmbito estadual, a deputada Rosana corria por fora e conseguiu um feito e tanto.

Na gíria futebolística, um gol de placa.

Afinal, já que havia um impasse – e jogo de empurra – até decidir da onde sairiam os recursos para pagar as obras, o presidente foi acionado e percebeu a  necessidade de se resolver logo a questão.

Certamente, tal feito, será lembrado pela população em uma eventual reeleição em 2022.

No fundo, há clara disputa por espaço político no ringue eleitoral.

De um lado, Bolsonaro.

De outro, o governador João Doria,  candidatíssimo à Presidência na próxima eleição.

Se a obra sair conforme prometido, Bolsonaro terá uma votação recorde em solo vicentino.

Muito mais que os quase 93,5 mil no primeiro turno e cerca de 114 mil obtidos no segundo turno no ano passado no município.

Já Doria teve 21.196 votos no primeiro turno.

E 46.247 no segundo. Ou seja, leva desvantagem na cidade.

Ainda mais contra seu maior desafeto no Estado: o ex-governador Marcio França, cuja trajetória política nasceu em São Vicente.

Assim, o ato presidencial vai além da liberação de verbas.

Visa a ampliação e consolidação de espaço político.

Em todos os níveis.

 

Reconhecimento e ausência

O feito de Rosana chegou a receber elogios públicos do professor Kenny (Progressistas).

E também de seu colega de partido, Caio França (PSB).

Por sua vez, seu colega regional, o deputado Jr. Bozzella (PSL), defensor de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro, ficou de fora deste anúncio.

Assim, desde que bateu de frente contra o filho do presidente, Eduardo, pelo comando do PSL paulista, o deputado perdeu prestígio junto a Bolsonaro e seu clã.

Além disso, vale lembrar que a sua base eleitoral fica exatamente em São Vicente, onde foi vereador,

E lembrar que Jr. Bozzella ostentou um enorme outdoor na praia do José Menino, em Santos, dando as boas vindas ao então candidato presidencial Bolsonaro quando aterrissou no PSL.

Mas isso já faz parte do passado.

Como lembra um antigo observador da política: a vida (e a política) é uma roda gigante.

Às vezes, estamos em cima.

Às vezes, embaixo.

 

PS: Um feliz Natal a todos e um 2020 farto de boas notícias.

 

 

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