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Vinicius Carlos Vieira

Saiu da faculdade de jornalismo e descobriu que não sabia fazer mais nada a não ser escrever sobre cinema. Resolveu virar crítico. Hoje, é editor e crítico do site Cinema Aqui (@cinemaqui), além de ser produtor do Nerd Cine Fest. No twitter pode ser encontrada no @vinicvieira

A Bruxa

Confira a critica do filme de terror dirigido por Robert Eggers

08 de março de 2016 - 15:33

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bannerAntes de qualquer coisa, sim A Bruxa é um dos filmes de terror mais perturbadores e incômodos dos últimos tempos, e se você não teve a boa vontade (ou coragem) de se entregar a ele e preferiu o escárnio e a risada (incômoda) fora de hora, a culpa não é do filme.

E isso não uma afirmação do tipo “não gostou do filme porque não entendeu”, bem pelo contrário até, já que o roteiro escrito pelo também diretor Robert Eggers é bem simples. O problema aqui é imersão nesse mundo desconcertante.

A Bruxa conta a história de uma família de peregrinos ingleses que foram para o Novo Mundo em busca de seu Deus, mas algo dá errado e eles são expulsos de sua vila na Nova Inglaterra. O pai, a mão e os quatro filho então se estabelecem em um pedaço de terra envolto por uma floresta e tudo vai bem até que o bebê da família some e todos começam a ser aterrorizados pela suposta presença de uma bruxa.

Bom, nem tão suposto assim, já que logo de cara Eggers mostra ela correndo em meio a floresta e se banhando em sangue, mas grande parte dos problemas da família são causados muito mais por eles mesmo e por uma culpa cristão que os afunda nesse mundo sombrio. Desse modo, não é um problema dizer que A Bruxa é um terror psicológico a maior parte do tempo, mas que ganha, aos poucos, contornos sobrenaturais e enfim só lá para o final se permite ser esse “terrorzão” clássico, com bruxas, um bode tocado pelo coisa ruim e até a presença do próprio.

a bruxaMas é toda ambientação anterior que faz esse final ser tão desconfortável e deixar um amargo na boca depois que as luzes se acendem, e ai entra a imersão. Sem contar a trilha sonora que parece arranhar seu cérebro, A Bruxa aos poucos vai contando com que o espectador se embrenhe em meio a essa floresta e essa família, quase como um observador vendo algo que não devia estar sendo mostrado. Eggers faz isso com uma força e uma precisão acima da média, um visual tão duro que incomoda, que não foge da figura atroz atacando um cabrito, mesmo que no escuro você não consiga entender direito o que está acontecendo.

E ai que se encontra a maior beleza de A Bruxa, esse limiar entre a realidade e o sobrenatural (demoníaco talvez) que empurra sua trama. Um jeito perturbador de demonstrar que antes de qualquer chifrudinho ou bruxa voando, o diabo está nas pessoas, nas mentiras, nos olhares e na culpa. Como se operasse através do pecado de cada um desses peregrinos sempre dispostos a citar Deus como uma proteção sem perceberem que estão deixando toda essa crença de lado a cada passo que dão em direção ao escuro de si próprios.

E quem não embarcar nisso, nesse clima aterrador, pode sim preferir o riso ao terror ao dar de frente com um bode falante e nem ao menos perceber que não é ele que está entoando essas palavras, mas sim o Mal enquanto se esgueira pela sombras e cochicha suas verdades.

A Bruxa então é essa experiência incrível e perturbadora, que cumpre tudo que promete e pode se considerar desde já uma das produções mais interessantes dentro do gênero, assim como será desperdiçada por todos aqueles que entrarem no cinema em busca do susto vazio e do serial killer freudiano. Portanto, não coloque a culpa no filme.

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