Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Entre duas pessoas

12 de dezembro de 2013 - 19:23

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Não sei se o ideal para um bom relacionamento chama-se “encontro de almas gêmeas”. Desmitificando a alma gêmea ouso dizer que o que é bom, bonito, perfeito pode ser muito chato.
Em um bom relacionamento, espera-se que duas pessoas se completem, mas não se anulem. E, para que isso ocorra, é muito importante que as pessoas sejam diferentes entre si.
Não estou falando da máxima – “os opostos se atraem” – pois a convivência pode ficar insuportável. Estou me referindo  das diferenças que possibilitam trocas, ingrediente básico para o crescimento individual e conjugal.
Conviver com o igual esvazia a relação, o diálogo e o sexo vira masturbação, empobrecendo todos os níveis de comunicação e gerando tédio. A ideia da busca da alma gêmea é sedimentada na busca pelo prazer puro, da fuga da dor.
Ao sermos concebidos, vivemos em êxtase total na barriga da mãe, com todas as nossas necessidades satisfeitas. E, pelo resto da vida, sonhamos e ansiamos por visitar novamente este paraíso.
Daí buscamos também na relação afetiva aquele outro que só nos dê prazer, mesmo sabendo que as adversidades da vida surgem e nem sempre permitem isso.
Essa espera passiva pelo outro que nos completa é advinda da crença de que em algum lugar está a outra metade perdida. O prazer já está embutido na busca, pois ao sermos agentes da construção da nossa própria história, nos sentimos livres e autônomos.
Quando nas esquinas da vida encontramos alguém que pode fazer parte de nossa vida, a sinalização disso não ocorre porque os sinos dobram ou as estrelas ficam mais coloridas, mas sim pela tranquilidade que nos invade, pela certeza e realidade de uma relação que só traz alegria, pois essa sim é a rima para o amor e não para a dor.
As mulheres, por sua singularidade, dão vazão ao romantismo e se expressam mais em relação a esse amor idealizado. Os homens, ao contrário, não verbalizam, não expressam, mas também esperam por esta metade. 
A procura obsessiva por um amor perfeito é idealização pura de um conto de fadas. Não existe nesse mundo alguém que preencha todas as expectativas de um outro alguém e isso não é o fim, mas o estímulo para nos desenvolvermos.
Não estou escrevendo um libelo contra o romantismo. Ser uma pessoa sensível e susceptível às emoções é muito enriquecedor.
Por outro lado, o romântico que espera com seu romantismo, que tudo de bom lhe aconteça passivamente é profundamente amorfo.
Acredito sim que duas pessoas possam se encontrar e, apesar de suas diferenças, se completarem, desde que tenham muito mais que um grande amor que atravesse vidas entre si, mas que tenham principalmente objetivos, valores, sonhos e desejos em comum. Essa será sua alma gêmea.