Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

O lado negro da web (II)

23 de janeiro de 2014 - 19:55

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No uso intensivo e constante da web, a memória de trabalho não consegue transferir a maior parte das informações recebidas para a memória de longo prazo, ocorrendo um aprendizado superficial ou nulo.
Explicando de outra forma: uma unidade de informação equivale a uma gota de água, o processo linear de leitura é igual a um conta-gotas, a memória de trabalho é representada por um dedal e a memória de longo prazo por uma banheira. O aprendizado real somente ocorre quando a gota de água (informação) é despejada na banheira (memória de longo prazo).
No exemplo do livro, o conta-gotas (processo linear de leitura) pinga uma gota (unidade de informação) de cada vez enchendo o dedal (memória de trabalho), o qual tem tempo suficiente para transferir todas as gotas  recebidas para a banheira (memória de longo prazo), assegurando o sucesso da compreensão e retenção da informação.
Na situação da “web”, diversos conta-gotas (processo não linear) pingam múltiplas gotas (unidades de informação) quase ao mesmo tempo sobre o dedal (memória de trabalho), e rapidamente a maioria delas transborda antes que o dedal consiga transferi-las à banheira (memória de longo prazo), inviabilizando a compreensão da maioria dessas informações.
Outro aspecto a considerar é que a utilização constante da “internet”, com a interação de multitarefas, após certo tempo afeta drasticamente a capacidade de concentração do usuário em uma só atividade, como a leitura de textos ou livros. 
Nicholas Carr, o autor do livro Geração Superficial deu seu testemunho sobre essa questão, pois precisou se isolar durante alguns meses da tecnologia digital, para pouco a pouco recuperar sua capacidade de concentração a fim de pesquisar e escrever.  
 
Várias experiências na última década têm confirmado os efeitos nocivos da denominada “hipermídia” – combinação de palavras, imagens, sons e vídeos – a qual vicia as pessoas a permanecerem muitas horas on-line.
Não se trata de deixar de lado a internet. As exigências do mundo moderno tornam isso impossível. O fundamental é o equilíbrio na distribuição do próprio tempo, realizando outras atividades como dar uma volta ao ar livre, praticar exercícios, desenvolver um “hobby”, conversar olho no olho com alguém sem o uso do micro, praticar o hábito da leitura em papel, entre outras.
A culpa não é da “internet” e nem dos criadores do “hipertexto” que além de não serem especialistas em aprendizagem não poderiam prever naquela época os problemas que depois apareceram. A solução passa pela utilização adequada dos dispositivos digitais integrados à internet. O carro serve de exemplo, pois ao lado de suas inúmeras e óbvias vantagens, todos infelizmente sabem que sua utilização irresponsável pode levar à morte. 
Alguém já disse “na “web” não vemos a floresta e nem mesmo as árvores, pois estamos com o pensamento fixo nos galhos e folhas”. Vale a reflexão sobre algumas perguntas chave: será possível alguém escapar mesmo que parcialmente da “internet”? Até que ponto a maneira de ler afeta o modo de pensar? A perda da capacidade de concentração é reversível?
No baile da “internet”, alguém dança numa alegria frenética ao som de ritmos que mudam constantemente com dificuldades para coordenar os passos com as músicas, mas acreditando que é um excelente dançarino. Pior do que não conseguir resolver um problema é a incapacidade de perceber que ele existe. 
Texto do livro A Arte de Conviver