Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Oportunismo inoportuno

04 de dezembro de 2014 - 12:01

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Decididamente, o Congresso Nacional demonstra total falta de sintonia com o momento político e social vivido pelo País, dando mostras sucessivas de desrespeito e desprezo aos valores de conduta e austeridade que deveriam guiar a prática da vida pública, em todas as suas esferas. Além das contínuas denúncias e comprovações de ocorrências de improbidade administrativa, nepotismo e mau uso do erário, os parlamentares têm apenas demonstrado eficiência para a aprovação de projetos visando benefícios próprios ou de interesses duvidosos.

Já não bastasse a manobra da base aliada para tentar conferir ao Governo Federal o direito de descumprir metas fiscais ao bel-prazer, os parlamentares planejam agora elevar, a partir de janeiro, seus próprios salários, de R$ 26.723 para R$ 33.769, medida que, por consequência, será extensiva a diversos outros segmentos institucionais, como proventos recebidos nos âmbitos do Executivo e Judiciário. Convém ressaltar que os congressistas, além dos salários, têm direito a apartamento funcional ou auxílio-moradia de R$ 3.800 e verba indenizatória de até R$ 41 mil para deputados e R$ 44,2 mil para senadores, um privilégio não compartilhado pela quase totatidade dos trabalhadores brasileiros.

Inoportuna pelo caráter oportunista e despropositado, diante do cenário de dificuldades econômicas configurado para 2015, a proposta de aumento salarial defendida pelos congressistas não condiz com o quadro recessivo preconizado. O custeio das instituições que alicerçam o estado político brasileiro já é por demais oneroso diante as imensas necessidades da população, especialmente dos milhões de brasileiros ainda relegados à pobreza.

Assim, não há como aceitar dos parlamentares a repetição de práticas oportunistas, que servem tão-somente para macular e ampliar ainda mais o descrédito em relação à classe política. Diante dos reflexos gerados pelo momento de dificuldade econômica por que passa o País, que tem resultado em grande número de demissões em empresas da iniciativa privada e na redução significativa das receitas tributárias provenientes das atividades produtivas, a proposta de aumento salarial dos parlamentares representa uma afronta à população e, por isso, merece ser repudiada.

Ao invés de buscar subterfúgios para atender aos interesses particulares, seria de maior valia se o Congresso dedicasse seu precioso tempo à tarefa de promover as reformas que o Brasil tanto espera e precisa, como o aperfeiçoamento do sistema previdenciário, a fim de dar melhores condições de vida aos aposentados; a simplificação tributária, dirigida a tornar a arrecadação de impostos mais justa e equânime, permitindo desonerar a classe trabalhadora e estimular as atividades produtivas; e a reforma política, voltada a consolidar e legitimar a participação dos partidos e representantes eleitos em uma democracia de fato.

Não há mais como aceitar, de forma inerte e passiva, a usurpação dos conceitos éticos e morais que devem reger as instituições públicas, sob o risco de transformar o clientelismo e a corrupção em traços definitivos da nossa cultura.