Baixada Santista

De 81 candidatos às Prefeituras da região, apenas 17 são negros ou pardos

Disparidade chama a atenção, principalmente na disputa pelo poder executivo, visto que 78,75% dos candidatos á prefeito são brancos

07 de outubro de 2020 - 13:33

João Pedro Bezerra

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A disparidade entre políticos brancos e negros tem sido a marca do sistema brasileiro ao longo da história, mesmo com os avanços da sociedade, os negros ainda lutam por espaço na política. Prova disso, são os números da Baixada Santista para as eleições em 2020.

Dos 81 candidatos que disputam o cargo do poder executivo nos 9 municípios da região apenas quatro são negros, o que equivale a 4,93%.

Apenas três cidades da região possuem, candidatos negros à prefeito, são elas: Santos (2), Bertioga (1) e Itanhaém (1).

O número aumenta em relação aos pardos que chegam a 13, somando 16,04%. Cubatão puxa essa lista, já que é a única cidade a não ter maioria branca na disputa pela prefeitura, dos nove pretendentes, cinco são pardos.

Além disso, mais cinco cidades contam com candidatos pardos: Bertioga (2), São Vicente (1), Praia Grande (1), Mongaguá (1) e Peruíbe (1).

É importante frisar que a região também é representada por um candidato à prefeito de raça indígena em Praia Grande.

Os candidatos brancos são ampla maioria (63 de 81), dando um alto percentual de 78,75%.

Vale destacar que Guarujá é o único munícipio da Baixada Santista a ter todos os postulantes ao poder executivo brancos. No total são 10 candidatos que disputam a Prefeitura da Cidade.

Confira a lista

 

Santos – 16 candidatos/ 14 brancos e 2 negros

Bertioga – 8 candidatos/ 4 brancos , 3 pardos e 1 negro

Guarujá – 10 candidatos/ 10 brancos

Cubatão – 9 candidatos/ 4 brancos e 5 pardos

São Vicente – 8 candidatos/ 7 brancos e 1 pardo

Praia Grande – 8 candidatos/ 5 brancos, 2 pardos e 1 indígena

Mongaguá – 5 candidatos/ 4 brancos  e 1 pardo

Itanhaém – 8 candidatos/ 7 brancos e 1 negro

Peruíbe – 9 candidatos/ 8 brancos  e 1 pardo

Soma das Candidaturas

Eleições 2018

 

Com a soma das candidaturas de prefeito, vice e vereador, o número de negros tem um pequeno aumento, mas a disparidade ainda é grande.

Das 9 cidades da região, oito tem a maioria branca. Cubatão é a única exceção com 45.77% da raça parda, enquanto a branca soma 39,07% e a preta 15,16%.

Santos é o município com mais registros de candidatos brancos tendo um percentual de 65.62%.

Já São Vicente tem a maior porcentagem de negros com 17.07% e Itanhaém possui o menor percentual com, 9,45%, contudo há 41 candidatos na cidade sem informação de raça no município.

Ao todo, somando as três funções que concorrem aos cargos nas eleições 2020, a Baixada Santista tem 3.158 candidatos, sendo 1.788 brancos (56,61%), 909 pardos (28,78%), 395 negros (12,51%), 11 indígenas (0,34%), 7 amarelos (0,22%) e 48 sem informações (1,54%).

Totalidade

 

Prefeito, Vice e Vereador

Santos –  509 candidatos/ 334 brancos (65,62%), 103 pardos (20,24%), 69 negros (13,56%), 2 indígenas (0,39%) e 1 amarelo (0,2%)

Bertioga – 174 candidatos/ 88 brancos (50,57%), 64 pardos (36,78%), 19 negros (10,92%) e 3 indígenas (1,72%)

Guarujá – 401 candidatos/ 230 brancos (57,36%). 107 pardos (26,68%), 63 negros (15,71%) e 1 indígena (0,25%)

Cubatão – 343 candidatos/ 157 pardos (45,77%), 143 brancos (39.07%) e 52 negros (15,16%)

São Vicente – 375 candidatos/ 207 brancos (55,3%), 103 pardos (27,47%), 64 negros (17,07%) e 1 sem informação (0,27%)

Praia Grande – 531 candidatos/ 333 brancos (62,71%), 132 pardos (24,86%), 57 negros (10,73%), 6 sem informação (1,13%), 2 indígenas (0,38%) e 1 amarelo (0,19%)

Mongaguá – 209 candidatos/ 127 brancos (60,77%), 57 pardos (27,27%), 22 negros (10,53%), 2 indígenas (0,96%) e 1 amarelo (0,48%)

Itanhaém – 275 candidatos/ 131 brancos (47,64%), 77 pardos (28%), 41 sem informação (14,91%) e 26 negros (9,45%)

Peruíbe – 341 candidatos/ 204 brancos (59,82%), 109 pardos (31,96%), 23 negros (6,74%), 4 amarelos (1,17%) e 1 indígena (0,29%)

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (dados do dia 06/10 sujeito a alteração)

Cenário

 

De acordo com a socióloga Mayara Cardoso existe uma lógica  que remete os negros à ideia de servidão e a política tão somente reforça esse padrão historicamente construído, reflexo de séculos de escravidão, o que torna a falta de representatividade um problema estrutural

“Na prática, negros e negras são discriminados racialmente quando participantes de pleitos eleitorais, muitas vezes recebendo um investimento menor em suas campanhas (pelo partido político e também por investimentos externos) e, dessa forma, a dificuldade se torna ainda maior” ressaltou a socióloga.

Além disso, Mayara também enfatizou que o Brasil é um país desigual ” Apesar de maioria, pesquisas apontam que os negros são os que tem menor acesso ao ensino superior, internet e ao saneamento básico. Também são os que mais dependem do SUS e os que mais sofrem violência no país. Sem representatividade na política, essas diferenças tendem a ser perpetuar, uma vez que não há voz, não quem lute por essas pessoas nos espaços de poder”.

Os dados da Baixada Santista acabam sendo simbólicos por conta que 2020 foi um ano de muita luta no mundo todo na questão racial.

Para a estudante Nara Vasconcellos falta representatividade na política, visto que nas prefeituras existe uma parcela muito grande de candidatos mais velhos, criados em uma sociedade repleta de preconceitos com poucas oportunidades para os negros.

Nara que é moradora de Cubatão, acredita que por conta da imigração nordestina e do polo industrial não há uma maioria branca de candidatos na cidade, mas que o cenário é um caso isolado da Baixada Santista e que a luta principalmente entre os mais jovens deve se fortalecer.

Mudanças

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou no último dia 2 de outubro, a cota financeira para candidatos negros já nestas eleições municipais. Dessa forma, os partidos devem destinar o fundo eleitoral já com a proporção para negros.

Incialmente a aplicação do projeto ocorreria apenas na próxima eleição em 2022, contudo o ministro Ricardo Lewandowski, relator da medida decidiu antecipar a adoção desta cota.

Ao todo foram 10 votos a favor da ação e apenas um contra, do ministro Marco Aurélio Mello.

Vale destacar que a maioria da população do país é formada por negros e pardos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2014, este percentual chega a 54,6%, já os brancos somam 45,5%.

 

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