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Números

25 DE DEZEMBRO DE 2021

Santos ‘esconde’ mais de 100 mortes pela Covid na comparação entre dados

Santos lidera taxa de letalidade por 100 mil entre as cidades com mais de 200 mil moradores no País. 0,5% dos santistas morreram pela doença

Por: Fernando De Maria

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Santos, no litoral paulista, ‘esconde’ mais de 100 vítimas fatais da Covid-19 na comparação de dados divulgados pela Prefeitura com os levantamentos da Secretaria de Saúde do Estado e do próprio Ministério da Saúde.

Atualmente, a diferença é de 101 mortes na comparação com a secretaria estadual e 106 em relação ao Ministério da Saúde.

Ao todo, a prefeitura de Santos divulgou oficialmente neste sábado (25), que são 2.183 mortes pela doença até o momento.

E outros dois casos sob investigação.

Por sua vez, a secretaria estadual de Saúde aponta que são 2.284  e o Ministério da Saúde, 2.289.

Em números, isso representa que 0,5% de toda a população santista morreu de Covid-19 desde o início da pandemia.

Deve-se salientar que os dados estaduais estão desatualizados em razão de problemas técnicos para divulgação das informações pelo Ministério da Saúde desde o último dia 10.

Ou seja, esta diferença pode ser ainda maior.

Os dados são ‘alimentados’ pelos hospitais que informam às respectivas secretarias de saúde o total de óbitos e as causas das mortes.

Erros do passado

Assim, se computados os números oficiais, Santos se torna a cidade com o maior número de vítimas fatais pela Covid-19 no País entre os municípios com mais de 200 mil habitantes.

Ou seja, a taxa de mortalidade na Cidade foi a maior na comparação com outros municípios, conforme mostram os gráficos e estudos desenvolvidos pelo médico e professor Carlos Eid.

Eid, que iniciou por meio da Abramet – Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, a qual integra, um detalhado estudo comparativo sobre a evolução de mortes pela doença no Brasil e no mundo – é um estudioso no tema desde o início da pandemia.

No entanto, ele desistiu de incluir Santos em seus estudos em razão desta discrepância.

“O aceitável seria uma diferença de 1% na comparação dos dados”, diz.

No entanto, a diferença entre os números da prefeitura e os das esferas estadual e federal beira os 5%.

“Em Santos, a prefeitura divulga menos que os hospitais notificam”, acrescenta.

Assim, conforme o médico, o erro vem se arrastando há tempos, sem que algo fosse feito para diminuir esta discrepância.

Além disso, ele cita, inclusive, a cidade de Taubaté, no interior paulista, que também registrava números bem distintos na comparação com os dados estaduais e federais, mas que acabou resolvendo o impasse.

“Eu acho que a situação foi mal monitorada lá trás e estão com medo de corrigir agora”, salienta.

Boletins divulgados diariamente pela prefeitura de Santos divergem dos números do Ministério da Saúde

Triste liderança

Dessa forma, pelos levantamentos realizados por Eid entre os municípios brasileiros com mais de 200 mil habitantes, duas cidades dividiam a liderança de mortes pela doença na proporção com sua população: Manaus e Rio de Janeiro, ambas capitais.

Assim, a primeira, no auge da crise de leitos e falta de oxigênio, explodiu com número de vítimas fatais.

Hoje, Manaus tem taxa de mortalidade de 435 moradores/100 mil.

Assim, depois que a cidade começou a resolver os problemas de atendimento, o posto passou a ser ocupado pela capital carioca.

Atualmente, o Rio de Janeiro, com 6.718.903 habitantes, registrou 35.171 mortes apenas pela Covid-19, com taxa de mortalidade de 523/100 mil habitantes.

Pouco menos que os atuais 528 mil/100 mil habitantes de Santos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Ou seja, foram 2.289, conforme o Ministério da Saúde, para pouco mais de 433 mil moradores.

Aliás, a média santista é 80% superior à média nacional (294/100 mil habitantes).

Por sua vez, a região que mais registrou mortes pela doença, de forma proporcional, foi o Centro-Oeste, com 363/100 mil.

Dessa forma, Santos também tem média de mortalidade mais que o dobro de outros países, em termos proporcionais à população, como a França (185,9/100 mil), Itália (224,4/100 mil) e Argentina (257,8/100 mil), conforme dados mais recentes do professor Eid.

Conforme o médico, em pandemias, o correto é analisar a mortalidade (total de mortes da doença/100 mil habitantes) e não a letalidade (total de mortes pelo número de infectados).

“Como muitas pessoas nem souberam que ficaram doentes pela Covid-19 por serem assintomáticas é impossível saber o número real da letalidade”, explica.

 

Taxa de mortalidade (mortes/100 mil habitantes) por faixa etária em Santos pela Covid-19

+ 90 anos – 47,6%

80 a 89 anos – 34,9%

70 a 79 anos – 16,3%

60 a 69 anos – 7,7%

50 a 59 anos – 2,7%

40 a 49 anos – 1,1%

30 a 39 anos – 0,4%

20 a 29 anos – 0,1%

10 a 19 anos – 0

Até 9 anos – 0,6%

 

Fonte: Ministério da Saúde

 

Nota 1 – Prefeitura

Indagada sobre o assunto pela Reportagem, no primeiro momento, a Secretaria de Saúde de Santos deu a seguinte resposta, datada de 9 de dezembro, como segue, via e-mail.

“A Secretaria de Saúde de Santos informa que está ciente da diferença em relação ao número de óbitos dos bancos de dados municipais para o estadual.

Isso se deve ao fato de residentes em Santos falecerem em outros municípios e estas localidades não procederem corretamente com a notificação junto ao município de origem da pessoa, o chamado fluxo de retorno.

Como funciona: uma vez constatado o óbito de uma pessoa residente em outra cidade, o município da ocorrência precisa notificar o GVE, órgão estadual, para que este remeta a notíficação ao município de origem, no caso Santos.

A Seção de Vigilância Epidemiológica de Santos está realizando um cruzamento com o banco de dados do Estado para identificar e cadastrar oficialmente cada um dos óbitos cuja notificação não foi realizada ao município”.

Nota 2 – Prefeitura

No entanto, diante da repercussão da reportagem nas redes sociais, a Secretaria de Saúde emitiu outras duas notas, como seguem.

O teor abaixo foi emitido, via Whatsapp, por volta das 19 horas de segunda (27).

“Em relação à reportagem “Santos ‘esconde’ mais de 100 mortes pela Covid na comparação entre dados”, a Secretaria Municipal de Saúde de Santos esclarece que atua com total transparência na detecção e divulgação dos casos de covid-19, desde o início da pandemia.

A Seção de Vigilância Epidemiológica de Santos investiga e divulga todas as notificações que chegam ao seu conhecimento.

Não há subnotificação dentre todos os casos que já chegaram ao conhecimento da Prefeitura, seja via hospitais, laboratórios, cartórios ou fluxo de retorno (quando os residentes falecem em outro município).

Conforme resposta dada ao BoqNews no dia 9 de dezembro, a diferença entre os bancos de dados do Ministério da Saúde e do Estado se deve ao fato de os municípios não fazerem o devido fluxo de retorno.

No entanto, é importante salientar que a resposta foi dada um dia antes do primeiro ataque hacker aos sistemas informatizados do Ministério da Saúde que, desde então, permanecem instáveis.

Os ataques prejudicaram o trabalho de cruzamento dos bancos de dados, que será realizado tão logo seja possível.

A Prefeitura de Santos complementa ainda que, durante toda a pandemia, a rede municipal de leitos hospitalares foi suficiente para o atendimento da demanda.

Ninguém ficou sem assistência.

Nos momentos mais críticos da pandemia de covid-19, pacientes da rede privada foram atendidos em leitos hospitalares municipais.

Diariamente, a Secretaria de Saúde de Santos acompanha os índices de ocupação da rede pública (municipais e estaduais) e da rede privada e sempre se comprometeu a reabrir leitos se necessário.

Santos é uma das cidades que mais vacinou contra a covid-19, graças à estrutura montada, com postos em todas as regiões da Cidade e funcionamento aos sábados, domingos e feriados, exceto nas festas de Natal e Ano Novo, mas oferecendo a antecipação das doses com prazo de aplicação nestas datas.

Cobertura – Vacinação Covid-19
(considerando a população total – 433.656)
Primeira dose – 379.951 doses aplicadas – 87,6%
Esquema Vacinal completo (segunda dose+única) – 355.555 doses aplicadas – 82%

(considerando os vacináveis – 12 anos ou mais – estimativa em 375.182)
Primeira dose – 379.951 doses aplicadas – 101,3%
Esquema Vacinal Completo – 355.555 doses aplicadas – 94,7%

Além disso, 114.602 doses de reforço já foram aplicadas em pessoas com 18 anos ou mais.

A Secretaria de Saúde de Santos reitera que preza pela transparência nos dados, importante para o controle/conhecimento epidemiológico da doença, quanto para informação da população”.

 

Nota 3 – Prefeitura

Indagada sobre as razões de Santos superar a taxa de mortalidade (conforme constam os dados no Ministério da Saúde) entre as cidades com mais de 200 mil habitantes no País, ultrapassando Manaus e Rio de Janeiro, que chegaram a liderar este ranking em outros momentos, a Secretaria de Saúde deu a seguinte resposta.

Esta terceira nota foi emitida, também por whatsapp, por volta das 12 horas desta terça (28), como segue:

“A Secretaria Municipal de Saúde destaca que o coeficiente de letalidade, que leva em consideração o total de óbitos em relação às pessoas acometidas pela covid-19, é a métrica utilizada internacionalmente e permite a uniformização dos dados, sendo possível compará-los, inclusive, com outros países.

A taxa de letalidade é o índice utilizado por epidemiologistas de todo o mundo quando o objetivo é observar o comportamento de uma pandemia, pois este é o índice que mostra dentre o universo de pessoas doentes quantas vieram à óbito.

O índice de letalidade de Santos, de 3,8% é inferior ao registrado nos municípios do Rio de Janeiro (7,1%) e Manaus (4,6%), mencionados na reportagem do BoqNews.

Para outras comparações, Mogi das Cruzes, com 450,8 mil habitantes, tem índice de 4,1% de letalidade para covid-19.

Dessa forma, é incorreto colocar Santos no topo quando se fala em mortes por covid-19, uma vez que outras cidades apresentaram índices de letalidade maiores”.

 

Nota da Redação: Além dos dados divulgados pelo médico Carlos Eid, da Abramet, (disponíveis aqui), o próprio Ministério da Saúde coloca como informações a título de comparação a mortalidade (e não letalidade) da doença, ou seja, o total de vítimas fatais pela Covid-19, conforme pode ser conferido aqui.

Das cidades citadas na nota acima, conforme dados do Ministério da Saúde retirados às 17h30 desta terça (28) do site , as taxas de óbitos acumulados/100 mil habitantes são as seguintes:

Santos – 528/100 mil óbitos acumulados

Rio de Janeiro – 523/100 mil óbitos acumulados

Manaus – 435/100 mil óbitos acumulados

Mogi das Cruzes – 388/100 mil óbitos acumulados

 

 

 

 

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