Conversas e Distrações
Marcus Vinícius Batista

Jornalista e professor universitário.

5 mil, 7 mil mortos

Confira a coluna do professor e jornalista Marcus Vinícius Batista

25 de março de 2020 - 10:55

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1) Antônio, 45 anos, funileiro, Colatina (ES)

2) Maria Vitória, 23 anos, comerciante, Ribeirão Preto (SP)

3) Paulo André, 35 anos, contador, Fortaleza (CE)

4) Eduardo, 67 anos, aposentado, Juquiá (SP)

5) Marília, 73 anos, aposentada, Betim (MG)

6) Evandro, 57 anos, mecânico, Cunha (SP)

7) José de Arimateia, 80 anos, agricultor, Luz (MG)

8) Mário Augusto, 55 anos, taxista, Catalão (GO)

9) Rosana, 34 anos, balconista, Aracaju (SE)

10) Priscila, 60 anos, médica, Rio de Janeiro (RJ)

11) Marcelo, 40 anos, engenheiro, Balneário Camboriú (SC)

12) Everton, 20 anos, São Roque (SP)

13) Augusto, 70 anos, professor universitário, Teresina (PI)

14) Pâmela, 17 anos, Altamira (AM)

15) Maria Antônia, 63 anos, Belém (PA)

16) Leonardo, 30 anos, advogado, Londrina (PR)

17) Fernando, 65 anos, motorista, Juazeiro do Norte (PE)

18) Alaor, 58 anos, comerciante, Gramado (RS)

19) Rodrigo, 49 anos, vendedor, Rio Branco (AC)

20) João, 80 anos, aposentado, Araxá (MG)

Esses nomes são fictícios, cujas idades, profissões e endereços foram escolhidos aleatoriamente. Eles representam pessoas que podem ser afetadas pela pandemia do coronavírus. Eles representam meu pai e minha irmã, que estão isolados. Meus sogros, também em suas casas. Meus filhos, que não vejo há nove dias. Meus amigos, que adoecem pela tensão, que sofrem emocionalmente pelas dificuldades inerentes ao isolamento, que lutam todos os dias para amenizar os prejuízos.

Todos eles estão além das estatísticas. Todos têm uma identidade que não se trata do número de RG. Todos, velhinhos ou não, não concederam o direito a ninguém de decidir quem deve ou não morrer nesta pandemia.

A pandemia não é uma questão simplória de matemática, de dados quantitativos. A pandemia é um problema social, que ultrapassa as planilhas de lucratividade. A pandemia dá nomes aos doentes, dá nome aos profissionais de saúde, dá nome aos trabalhadores que os escravos dos dogmas econômicos e suas marcas de ganância insistem em fingir proteger.

Cada pessoa – infectada ou não – tem nome, história, valores morais, crenças, relacionamentos afetivos, dificuldades, contextos de vida bem particulares. O momento de isolamento representa também o instante do convívio, das novas formas de comunicação, da nova construção de relacionamentos, da concessão do que se possui, da busca pelo que ainda não se tem.

Um problema grave de saúde não é apenas um número no gráfico. A despersonalização atende, por exclusividade, a perspectiva que se alimenta da desumanização do outro, do consumo do outro como alguém a ser descartado.

Minimizar em 5 mil, 7 mil, 12 mil mortos – nas contas de dois magnatas – implica em se estabelecer um critério macabro, um limite mórbido para a decisão de quem deve ou não morrer. Quantos precisam morrer para que se tomem medidas de prevenção e de contenção? Não precisamos, desta forma, prevenir antes que a barreira estatística seja rompida.

Os números, enforcados para atender às expectativas do carrasco, escondem – de fato – a defesa de um modelo, um modelo que se mostra exaurido em inúmeros aspectos e que só aqueles que se protegem em cabanas fortificadas no topo da montanha – ou da pirâmide, como se sentem os faraós do momento – lutam em defender.

Antônio, José, Rodrigo, Leonardo, Marcus, Beth, Mariana, Vinicius, Lauro, todos devem se isolar para proteger a si mesmos e aos outros. Quando vamos aprender a convivência, no sentido solidário do termo? Torço, de verdade, que os viciados em números não fiquem doentes. O vírus é sarcástico, pois poderá transformar essas pessoas naquilo que mais defenderam: estatística.