Desindustrialização em marcha | Boqnews
Foto: Arquivo/Agência Brasil

Opiniões

02 DE SETEMBRO DE 2021

Desindustrialização em marcha

Liana Martinelli

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Estudo preparado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgado pelo jornal Valor Econômico, mostra que o Brasil está em franco processo de desindustrialização, em razão de uma opção tomada pelos últimos governos em favor do setor primário e da exploração dos recursos naturais, em detrimento do setor industrial.

Segundo o documento, entre 2016 e 2020, o número de indústrias competitivas, que são aquelas que exportam mais que a média mundial, caiu de 196 para 167, enquanto a participação dos produtos primários ligados ao agronegócio aumentou de 37,2% para 44,3%.

Como se sabe, a exploração descontrolada de produtos ligados ao agronegócio pode causar maior intensidade de emissões de gases de efeito estufa e de degradação ambiental, o que já tem causado protestos por parte de países que defendem uma política ambientalista mais saudável.

Ainda que, a princípio, não se possa condenar as atividades ligadas ao agronegócio, que, nos últimos tempos, têm garantido o superávit na balança comercial, a verdade é que só os produtos de média e alta tecnologia são capazes de estimular o crescimento do número de empregos, movimentar o mercado interno e, ao mesmo tempo, dar impulso à importação dos insumos necessários para a agregação de valor aos equipamentos. E, portanto, mereceriam uma política mais focada que viesse a interromper o atual processo de desindustrialização.

De acordo com o estudo, os produtos de média tecnologia reduziram sua participação na pauta exportadora de 20,2%, em 2016, para 14,2%, em 2020, enquanto as exportações neste setor diminuíram 16,7%. Já os produtos de alta tecnologia registraram uma queda de 5,2% para 3,1% naquele período.

No total, a redução nas exportações foi a mais elevada (30,6%). Enquanto isso, os produtos com menor intensidade tecnológica tiveram um elevado crescimento, especialmente aqueles ligados aos segmentos de ouro, madeira bruta, petróleo, soja e milho.

Obviamente, não haveria razão para se citar o aumento da exportação de produtos primários, provocado também pela demanda mundial por commodities, desde que não houvesse ocorrido uma queda brutal nas vendas para o exterior dos produtos industrializados.

Para piorar, há as despesas que resultam do chamado custo Brasil, ou seja, um conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, trabalhistas e econômicas que atrapalham o crescimento do País, influenciam negativamente o ambiente de negócios e encarecem os preços dos produtos nacionais e os custos de logística.

Essas despesas representam mais de 30% do preço final dos manufaturados, tornando-os pouco competitivos no mercado externo.

Apesar disso, até agora. não houve uma resposta firme por parte do governo para essa questão. Para explicar a queda, naturalmente, também é exercida a desculpa da pandemia de coronavírus-19, que teria provocado redução na procura mundial por bens manufaturados.

Embora atualmente haja elevada tecnologia na extração de produtos primários, especialmente nos do setor agrícola, o problema é que essas atividades promovem a concentração da riqueza gerada, ou seja, criam poucos empregos, estimulando a migração das pessoas do campo para as áreas urbanas, o que acelera as questões sociais, com o aumento da população de rua.

Diante disso, só resta ao País aguardar as tão anunciadas (e sempre adiadas) reformas, que passam pela queda da carga tributária, modernização e ampliação da infraestrutura, diminuição dos custos de financiamento, redução da burocracia e da insegurança jurídica e investimentos em pesquisa e qualificação profissional.

Se essas reformas já tivessem sido feitas há uma ou duas décadas, hoje o Brasil estaria colhendo os frutos do desenvolvimento. E o pior é que, diante da atual baixa qualidade intelectual da representação pública, não se pode esperar muito. Por enquanto.

Liana Martinelli é advogada, pós-graduada em Gestão de Negócios e Comércio Internacional, gerente de relações institucionais do Grupo Fiorde. E-mail: [email protected]

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