Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

O Player 2

Falar sobre videogame é conversar sobre inclusão, sobre memórias criadas com seus amigos e pessoas próximas com o controle em mãos. E os jogos ressaltam sobre a amizade, deixando claro: é a união que realmente importa.

16 de março de 2017 - 11:54

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Desde o princípio dos games, com Pong, já se é suposto que videogame não é uma atividade isolada, solitária e para se passar sem apoio. Foram dois amigos, por exemplo, que fundaram a Atari e deram um dos pontapés iniciais neste universo que hoje move milhões por todo o mundo. Como não poderia deixar de ser na vida real, no videogame a amizade também é um elemento muito importante. Essencialmente, é um dos pontos que mais agregam valor à “humanidade” dos personagens.

Não se engane ao olhar no calendário, não é por alguma data especial. Nem por ter jogos de lançamento que usem deste elemento importante em abundância. Os jogadores de videogame tem a fama de serem mais propensos ao isolamento, a ficarem em silêncio por horas jogando e sem contato social mais acentuado. Não se engane parte 2, os videogames promovem a união, demonstram a importância do coletivo e celebram a amizade. E é sobre isso que discutimos hoje.

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 Em Final Fantasy XV a amizade entre os personagens é um dos principais elementos, seja tirando fotos ou enfrentando as ameaças do reino de Lucis.

 A amizade é um elemento que está nos videogames desde os games mais antigos. Independente da raça, gênero e grau de poder (em todos os sentidos). Desde Mario e Yoshi (o Luigi não conta, ele é irmão do protagonista…), os guerreiros da luz no primeiro Final Fantasy, Megaman e Protoman (ou Zero), Donkey Kong e Diddy Kong, Sonic e Tails, entre vários outros exemplos, eles marcaram a vida de gerações e estão presentes nas memórias mais profundas de quem já encostou em um videogame pela vida.

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No futuro Sonic Mania, o ouriço estará acompanhado de seus fiéis companheiros: Tails e Knuckles para enfrentar a ameaça do perigoso Dr.Eggman (ou Robotnik)

Quer ver como este é um elemento essencial? Veja o jogo que mais gosta fora dos olhos do personagem principal. Sempre haverá outro que está por perto, que ajuda em sua jornada e que faz a aventura se tornar mais agradável. Tomamos como exemplo o Final Fantasy XV (PS4 e Xbox One), que dentre os três amigos e guardiões do protagonista Noctis, temos o destaque para Prompto. Com suas selfies, humor irreverente e seu background triste, ele é o personagem mais carismático e marcante de anos que a franquia passou, trazendo elementos que você mal sabia que sentia falta num jogo.

Ou basta ver como eles mudam totalmente a visão de mundo da protagonista, como as amigas Max Caulfield e Chloe Price de Life is Strange (PS4, PC e Xbox One), onde a amizade de ambas move todo o enredo em torno das habilidades da protagonista. Eles empurram a ideia de lhe fazer questionar até onde iria para salvar a vida de uma amizade. E, garanto, também fazem você sentir o peso disto na densa história que se segue com essa decisão nos ombros.

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Max e Chloe, de Life is Strange, trazem simplicidade e sorrisos a um enredo pesado e que cada escolha pode alterar drasticamente suas vidas. 

 Há amizades entre humanos e robôs, como em recore (Xbox One), onde Joule Adams conta com o apoio das simpáticas figuras robóticas que a acompanham em sua viagem. Entre diferentes pontos, como em Mad Max (PS4 e Xbox One) onde Max interage com Chumbucket, um corcunda que ajuda nos reparos nos carros do protagonista e o incentiva durante sua jornada de vingança (certo, este exemplo não é tão bom assim, mas nem sempre os amigos levam para os melhores caminhos, certo?). Ou de Fox e sua equipe de animais antropomorfos em suas viagens espaciais de Star Fox, onde a equipe desbrava ameaças e perigos pelos planetas que visitam.

O novo game do Nintendo Switch, The Legend of Zelda: Breath of the Wild, mostra ótimas amizades para o herói, mas em sua série já se passaram personagens marcantes como a égua Epona, companheira do herói em Ocarina of Time (Nintendo 64 e 3DS), ou da misteriosa Midna de Twilight Princess (Nintendo Wii e Wii U), passando até pelo falastrão Lineback de Phantom Hourglass (Nintendo DS).

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Link, em sua forma de lobo e Midna se aventuram juntos por todo o jogo The Legend of Zelda: Twilight Princess

Isto sem comentar sobre as adaptações, como Naruto Shippuden Ultimate Ninja Storm (qualquer um), Batman Arkham (também qualquer jogo da franquia), Dragon Ball entre outros, que mostram o hall de ajudantes, amizades e fortes presenças de companheiros pelo seu enredo assim como é no original. Até mesmo Kingdom Hearts, que é uma mistura enorme entre personagens Disney, Final Fantasy e originais, cria laços fundamentais entre alguns deles que movem o game em caminhos que apenas fortalece cada um no contexto que o game apresenta.

A amizade nasce de lugares estranhos, de um laço que surge sem explicação, que une as pessoas em prol de um bem maior uma da outra. Os games fundamentam isso, que sem ajuda, apoio e pessoas (ou animais, criaturas imaginárias ou o que quer que acredite) próximas, não chegamos a lugar algum. Sabe? A “viagem” não vale a pena. A jornada de um herói, de qualquer personagem, só faz sentido e não é vazia quando envolve seus laços com os demais. E assim se faz a vida.

Muitas vezes somos estes heróis, pessoas em suas próprias jornadas que não atingirão o que tanto almejam sem o apoio das mais próximas. Por exemplo, em Sonic, sem o Tails como o ouriço azul conseguiria atingir pontos que apenas voando se conquista? Sem seus companheiros Pokémon, Red (ou qualquer outro protagonista do game) sequer teria a ambição de sair da pequena cidade de Pallet? Chris ou a Jill sairiam vivos da mansão Spencer a tempo de impedir o T-Vírus de transformar toda a humanidade em zumbis?

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Mesmo que a situação esteja complicada, apenas com os amigos podemos sorrir. Mesmo que seja à força, como o caso de Sora em Kingdom Hearts.

Outras, os heróis são estes amigos. E nós temos de estar lá, firmes e fortes, para ele ou ela atingir os seus objetivos. Enfrentando o que for. Na vida, não somos o foco sempre e isto é bom compreender antes de perder quem se tem por perto. Em suas lutas, temos de chegar em lugares que não conseguem, ser seu apoio e, principalmente, estar ao seu lado, mesmo que tudo dê em Game Over. Com isto em mente, sempre haverá um “Continue” aberto em nossas vidas, um recomeço, uma chance de tentar novamente. E pode ter certeza de que é uma chance nova de fazer tudo dar certo.

Ninguém está sozinho. Olhe para o lado, ligue seu videogame e ofereça o controle para um amigo. A vida, nem os videogames, foram criados para se jogar isoladamente. E os que foram, ressaltam em muitas vezes durante o enredo que a amizade é um elemento importante. Para que nunca se esqueça, tentam fincar em sua mente que somente se conquista a vitória no final com suas presenças. Olhe bem. Pense sobre o assunto. Quando terminar, lembre-se de que todos os videogames, sem exceção, possuem entrada para no mínimo DOIS controles. Apenas chame a pessoa mais próxima e se divirtam. Vivam.

Texto dedicado à Letícia Machado e Daniela Silva, amigas, companheiras de videogame e as pessoas que insistem em apertar o “Continue” quando o Game Over aparece na tela.