Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Papai Noel não existe

O momento exige a formulação de políticas econômicas realistas, adequadas à capacidade de geração de recursos e de controle de gastos

19 de dezembro de 2015 - 08:00

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O anúncio da retirada do grau de investimento do Brasil, por mais uma agência de classificação de risco, a Fitch Ratings, se constitui em mais um duro golpe contra a combalida economia brasileira, vítima do cenário fiscal adverso e do crescimento da incerteza política, componentes que têm afetado a capacidade do Governo de implementar ajustes para estabilizar a crescente dívida pública.

Neste contexto, a não observância à fala do agora ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que considerou um “equívoco” o não cumprimento da meta fiscal de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2016, sob o falso pretexto de evitar cortes no Programa Bolsa Família, já revelava a total dessintonia entre sua posição e o da presidente Dilma Rousseff, que mais uma vez optou por negligenciar metas realistas para o orçamento do próximo ano. Diante da possibilidade de iniciar o novo exercício fiscal com um déficit a ser coberto de cerca de R$ 10 bilhões, restará ao Governo

cobrar o ônus provocado pelo descompasso da economia das classes com maior renda, a partir de medidas como a elevação de impostos e sobretaxas em ganhos de capital com venda de imóveis ou com rendimento de aplicações financeiras.

É preciso reconhecer que as políticas assistencialistas, como o Bolsa Família, revelaram-se eficazes para reverter cenários de pobreza extrema, contudo, como se viu, elas também estiveram a serviço de interesses eleitorais populistas e eleiçoeiros, por isso não podem avalizar a distorcida ideia de que os fins possam justificar os meios. Principalmente porque elas também oferecem o risco de consolidar uma cultura de benevolência que acabará, no futuro, cerceando as oportunidades de aproveitamento do potencial produtivo do cidadão, limitando os mecanismos para que ele gere renda e prospere socialmente por seus próprios meios.

O momento exige à formulação de políticas econômicas realistas, adequadas à capacidade de geração de recursos e do controle dos gastos públicos, de forma a recuperar a credibilidade do País e sustentar quaisquer políticas sociais que sejam introduzidas com a finalidade de salvaguardar garantias de vida digna à população. É preciso portanto, a todo custo, assegurar oportunidades no mercado de trabalho, pois só assim teremos como resultante a redução da grande distância que separa os poucos ricos dos muitos pobres brasileiros, um contingente que, por certo, deseja menos complacência e mais dignidade. Sem um propósito factível e trabalho honesto não haverá milagre possível porque, como é sabido, Papai Noel só existe nos lúdicos sonhos infantis.