Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Príncipes e sapos

10 de junho de 2011 - 18:15

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Crônica da vida real, onde mascaramos nossas impotências, angústias e fragilidades buscando no outro o ideal, a perfeição e não encontrando. Costumo usar esse espaço para falar de tantos aspectos ligados aos relacionamentos e afetos, na sua maior parte, usando o universo feminino como exemplo, mas hoje eu quero pensar junto com vocês sobre um assunto que me prendeu a atenção e foi trazido por um homem.


Diferente das mulheres, os homens não se lamuriam, não choram sua solidão, mas são objetivos no seu diagnóstico e na compreensão do que sentem. Um deles comentava comigo que, quando dois homens vêem uma mulher passar e se interessam por ela, o que menos avaliam é seu poder financeiro, o seu ter ou o seu saber; mas olham o corpo e comentam possibilidades, algo às vezes tido como pouco gentil ou mesmo cafajeste, mas é o jeito masculino de avaliar. Segundo ele, as mulheres, ao contrário – e ele se sente uma vítima disso, não avaliam pelas mesmas razões.


A avaliação feminina passa, antes de tudo, pela demonstração de poder, quer pelo automóvel, roupas ou qualidade dos sapatos. Depois disso, aprovado o olhar e a gentileza, entram na análise – e sendo meu interlocutor uma pessoa de nível cultural diferenciado – me diz que isso não entra no jogo da conquista.


Confesso que eu quis reagir a esse tipo de comentário. Como um homem ousa falar para uma mulher que as mulheres são tão pobres na sua escolha? Mas depois de parar e pensar e lembrar tantas mulheres com quem converso fui obrigada a concordar que, de certo modo, ele tinha razão.


Sem dúvida que a generalização que ele fazia me incomodava e eu pensava nos motivos disso, pois tinha que defender ou justificar as mulheres, coisa de corporativismo feminino. Então me lembrei daquele príncipe que nos é apresentado desde nossa adolescência como o salvador da donzela e serão felizes para sempre no castelo…dele!


E coitadinha da mulher que não encontra o príncipe. Ela será uma solteirona que ninguém quis ou se sentirá rejeitada em todos os aspectos de sua vida. Nunca terá a coroa de princesa, muito cruel com as mulheres.


Por outro lado, cruel com os homens também, pois todo príncipe que se preze deve ter carruagens e castelos, não importando que seja tosco ou menos culto. Dessa forma até consigo justificar esse comportamento feminino, mas entre justificativas e realidade há uma enorme distância.


E, como todos sabem os príncipes não estão passeando por aí – com certeza não – pois apenas homens normais de carne e osso cruzam o nosso caminho e como nós, mulheres normais, se esforçam para satisfazer as expectativas que uma possível relação exige.


Quis comentar sobre isso, tema que renderia um curso, pois mesmo Freud que conhecia mais meandros da alma humana que eu deixou a pergunta não respondida: Afinal, o que querem as mulheres? Apesar de ter me preparado para escrever dia dos namorados, de novas aspirações, de esperança, e de possibilidades amorosas, preferi falar sobre isso. Casais são constituídos por pessoas normais, às vezes fortes e inteligentes, em outros momentos frágeis e impotentes, por aquelas pessoas que passeiam no shopping, não são nem princesas nem príncipes.


Nesse momento em que ouvimos tantas notícias sobre vilanias, roubos, violências gratuitas, eu arriscaria dizer que tudo ficaria mais em paz se nós vivêssemos mais em paz com a nossa realidade, valorizando mais os ganhos afetivos do que os materiais.


Sei que não estou sendo criativa, descobrindo o ovo de Colombo, pois estou falando do velho, de ser ou ter, de Shakespeare.  Mas nunca é demais falar para as pessoas e relembrar o quanto devemos ser em detrimento do ter.