Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Triste saldo da barbárie

A quantificação da violência mais uma vez evidencia a urgente necessidade de priorizar a aprovação de leis específicas de enfrentamento à criminalidade

10 de junho de 2019 - 11:11

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Números sobre a violência no Brasil divulgados esta semana mais uma vez revelaram um saldo comparável a uma autêntica guerra: em 2017, o País registrou 65.602 homicídios, perfazendo 31,6 mortes para cada 100 mil habitantes, um novo recorde, segundo o Atlas da Violência 2019 elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Esse total representou um aumento de 4,9% em relação ao ano anterior, consequência do crescimento da violência nas regiões Norte e Nordeste, onde a taxa atingiu absurdos 45 homicídios por 100 mil habitantes.

O estudo também traz outros dados extremamente preocupantes. Os jovens 15 a 29 anos foram as principais vítimas: 35.783 mortos em 2017, sendo sua quase totalidade (94,4%) do sexo masculino; enquanto que de cada quatro pessoas assassinadas três eram negras. A taxa de homicídios para esse grupo da população chegou a 43,1 para 100 mil habitantes, enquanto a dos não negros fechou o ano em 16 por 100 mil. A maioria dessas vítimas tem em comum o fato de morar em favelas e periferias

A quantificação da violência mais uma vez evidencia a urgente necessidade de priorizar a aprovação de leis específicas de enfrentamento à criminalidade, a partir do aprimoramento da proposta de Lei Anticrime encaminhada ao Congresso pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Tornando a mesma forma, está clara a necessidade de ampliar investimentos e mudanças conceituais nas instituições policiais brasileiras, com o aperfeiçoamento dos métodos utilizados até aqui. Sem contar com infraestrutura adequada, com sistemas de formação deficientes e oferecendo salários incompatíveis com a realidade que a atividade requer, a polícia brasileira tem falhado na tarefa de inibir a expansão das facções criminosas e agido em meio aos conflitos urbanos com o preceito de matar para não morrer.

A sociedade brasileira não pode mais aceitar passiva a continuidade dessa barbárie, sem exigir brevidade na adoção de providências concretas para reversão desse quadro. Sabe-se também, a partir de experiências já desenvolvidas nesse campo, que ações de combate ao crime devem, obrigatoriamente, incluir maior atenção às áreas sociais para atendimento das populações residentes nas regiões mais pobres, comunidades condenadas à subserviência a milicias e ao tráfico de drogas.

Apenas a repressão policial e a possibilidade de possuir uma arma não serão o bastante para conter a guerra silenciosa que hoje está estabelecida na prática, uma tragédia que se torna cada vez maior.