Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

É sempre bom ser bom?

19 de agosto de 2011 - 20:43

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A generosidade é uma moeda de duas faces. Analisar o seu lado positivo é “chover no molhado”. O desafio é refletir sobre o outro lado que muitos desconhecem ou fingem desconhecer. Quando a generosidade é utilizada de forma errada, na hora errada e com a pessoa errada, diversos problemas aparecem como a humilhação, o desconforto e até mesmo a raiva.


O conceito de generosidade é mais complexo do que parece a primeira vista. As pessoas se acostumaram a considerá-la somente como sinônimo de bondade e vontade de ajudar ao próximo. A grande virtude da vida é o meio termo. O que a princípio é bom, quando usado com exagero, pode trazer conseqüências desagradáveis para os envolvidos.


As pessoas altruístas podem gerar desconfiança e antipatia no seu círculo de convivência. O profissional que sempre cede e tem excesso de disposição para ajudar pode causar a impressão de que no futuro irá cobrar uma fatura muito alta pelo benefício prestado. Ou então, pode parecer querer algo em troca consciente ou inconscientemente. Essa pessoa, também pode demonstrar que deseja aparecer para alguém, gerando desconfiança por querer ajudar aqueles que não pediram seu apoio.


Alguns colegas podem ficar na defensiva e se sentirem incomodados pela dívida assumida com alguém que é ou se acha muito melhor do que eles em termos de amor ao próximo. Para muitos, nas relações pessoais é melhor ser credor do que devedor.


Fazer o bem faz bem? Claro que sim, responderiam os mais apressados. Mas para quem? Para os dois lados envolvidos: quem dá e quem recebe. Infelizmente, apesar da melhor das intenções, isto nem sempre ocorre. Aquele que ajuda pode se sentir frustrado por não ser compreendido pelo outro e quem é ajudado pode se sentir ferido em seu orgulho por não poder retribuir o favor recebido.


Ser generoso de verdade envolve alguns “saberes” poderosos: saber compartilhar com a pessoa certa, saber reconhecer o benefício da ajuda, saber ensinar, saber refrear a ansiedade de ajudar alguém que não precisa, saber receber ajuda quando necessário por uma questão de reciprocidade, saber ajudar pessoas difíceis no relacionamento, que a primeira vista podem ser consideradas como não merecedoras do apoio, saber ajudar as pessoas em lugar de faze-las felizes, pois existem aquelas que desejam o que não precisam e outras que necessitam o que não querem. 


Apesar de muitos acharem o contrário, generosidade e compaixão não são a mesma coisa. A pessoa pode ser generosa com a outra de maneira assertiva sem sentir pena dela. A utilização negativa da generosidade pode ser explicitada pelo seguinte exemplo: alguém “pede o dedo e recebe o braço”, sentindo-se constrangido por receber muito além do que havia pedido.


Se alguém desconfia que é generoso da maneira errada e deseja mudar de atitude, deve controlar seus impulsos em sempre ajudar por ajudar, procurando faze-lo somente nos momentos adequadas. Mas ninguém pode negar o direito da pessoa fazer o bem independentemente de quando, quanto e com quem.