Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Porque é primavera…

19 de setembro de 2013 - 19:15

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Ao findar o ano, sempre temos como meta começar de novo. É isso que está embutido em nossos pensamentos e ações. Temos uma forte inclinação a fazer grandes balanços de vida, retomar sonhos e projetos não realizados ou mesmo apenas idealizados.
Passado o inverno, cinza, de árvores desbotadas e desfolhadas, emoções bastante complexas, que evocam tempo perdido, sonhos não realizados e dificuldades não ultrapassadas nos atingem a alma, e o resto do ano será  vivido como consequência do tempo perdido e do fracasso anunciado e incorporado.
Numa época em que o terror é banal, em que não nos indignamos mais, e que poderia ser roteiro de um filme de ficção que assustava os mais imaturos, com as emoções meio anestesiadas, é muito comum que as pessoas ao invés de curtirem a vida em todas as suas nuances se alienem do espetáculo da sua própria vida, em evocações nem sempre construtivas reforçando perdas e insucessos, e pior que tudo, tempo perdido, na brevidade e preciosidade da vida, com a marcante sensação do irrecuperável.
Ato de amor por nós e pelo outro, a tentativa de reconstrução é parte integrante de nossa estrutura psíquica, senão a nossa vida seria construída apenas por um monte de destroços.
Eu diria que esse momento é precioso e não deve ser perdido nem desperdiçado ao exemplo da natureza que lindamente se reconstrói, em cada época do ano com sua magnitude e singeleza.
Seria uma nova chance de recasar, mudando padrões de funcionamento, não só nas promessas, ou fantasia de um par perfeito, mas principalmente mudanças baseadas no desejo pessoal de ser mais feliz com consistência e responsabilidade.
Lembrando a possibilidade de reflorir a vida e naturalmente, quando se fala em bem estar se fala também em perdão pela imperfeição, pelo erro e se permitir refazer o caminho.
E começar de novo, buscando renovar o que estiver gasto e sem uso, arejar amizades, regar amores, por que não?
A primavera é época que propicia reencontros, lavar a sujeira acumulada, recolher folhas mortas, reparar o reboco da alma.
Esse balanço de fim de estação nem sempre nos enche de alegria e conforto, pois a vida real é assim sem perfeição, e saber fazer do imperfeito o que nos enriquece, cultivar a esperança que é concreta, ela tem cheiro, cor, e resultados, basta que nos ponhamos em ação.
Incorporar o erro não como perda ou dor, mas como mais um passo no processo maravilhoso da vida que é o de aprender a viver e não deixar de catar as frutas doces e saborosas que estão caindo pelo caminho, sem se importar com as frutas que não amadureceram, que apodreceram ou as que o passarinho bicou.
Nós nos vemos merecedores delas para podermos usufruí-las mais e querer sempre mais, apesar  de todas as perdas inclusive de tempo fazendo com a nossa vida o que tão bem  Cecília Meirelles decanta em versos.
“Aprendi com a primavera a me deixar cortar. E a voltar sempre inteira.”