Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Sentir Prazer

06 de fevereiro de 2014 - 19:30

Compartilhe

Ouço com todos os poros
Olho com a ponta dos dedos
Beijo com a borda dos olhos
Sinto de ouvidos atentos
Tenho a mente inundada.

                    (*)Miriam Portela
Associar essa bela poesia, com todas as queixas de disfunções sexuais que ouço no consultório, foi muito fácil haja vista que existe uma supervalorização dos órgãos sexuais, dos corpos nus e perfeitos que se acabam esquecendo das nuances que devem acompanhar e estimular o desejo.
Até certo ponto isso é muito compreensível, pois tivemos durante séculos os corpos escondidos e confundidos com os caminhos do mal e os amores de perdição que quando conquistamos o direito de usufrui-los esquecemos do resto.
Parece àquela história de nossas avós de quem nunca comeu melado se lambuza e depois fica com dor de barriga e falando de sexo, não deveria mais ter dores, pois hoje sabemos tudo, mostramos tudo de nossos corpos, mas esquecemos de nossa alma.
Não quero aqui tirar ou diminuir o papel de que um corpo bonito, higienicamente tratado não seja importante para uma boa vivência sexual.
O estado de excitação, o desejo, transcende o corpo e o ato sexual, a atividade sexual, a exemplo da fome, do sono, é uma necessidade humana e instintiva e partindo do princípio básico que somos corpo e alma, na questão do desejo precisamos resgatar a alma, o subjetivo, o sensorial.
O corpo acorda para o sexo, começa a intumescer quando o gatilho erótico do cérebro é disparado por estímulos eróticos – cheiro, visão, som, toque, memória ou sonhos.
O cérebro comanda uma série de reações para nervos, vasos e músculos, que culminam com a excitação e esses aspectos estão intimamente ligados à nossa capacidade de sentir muito além do que o corpo manifesta sentir, o que faz arrepiar, o que faz sonhar, pois a brincadeira, o encontro sexual – muito mais do que um gozo fisiológico – exige uma viagem para dentro de nós mesmos.
O gozo ou a capacidade de gozar de cada um depende apenas dessa capacidade de viajar, não para longe, mas cada vez mais fundo em si mesmo.
Aliás, a palavra final seria entrega total ao seu próprio sentir e desejar.