Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Sexo é vida

19 de janeiro de 2015 - 09:00

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O termo melhor idade tem embutida a ideia de que a primeira idade é o tempo de brincar e estudar;

a segunda de construir a família e produzir e a melhor idade (também chamada de terceira idade) de usufruir e colher os frutos já plantados. Isso seria o ideal se diversos conceitos não fossem arraigados e desviassem esse movimento de seu curso natural.

Em países de primeiro mundo já se fala em quarta e quinta idade, mas aqui entre nós com uma expectativa de vida em média de 67 anos as coisas não são bem assim.

No Brasil abrigam-se grupos com expectativas de vida bem diversas. Enquanto em algumas regiões do Brasil, especialmente em localidades do Nordeste, a média de vida é de 45 anos, existem cidades com média de 80 anos, índice semelhante ao Japão, país famoso pela longevidade de seus cidadãos.

Temos homens e mulheres aposentados aos 48 anos criando uma miscelânea de situações e sentimentos em relação ao tempo da maturidade. Portanto, a própria dinâmica social e os referenciais ideológicos da terceira idade merecem uma revisão.

Em função das várias nuances que a vida da pessoa mais velha adquire, temos uma terceira idade sem identidade, sem clareza de seu papel social, familiar e afetivo.

Nesse contexto, falar da sexualidade do homem e da mulher nesta fase da vida fica muito difícil e acaba sendo contaminada por essa vida sem personalidade e papel definidos.

Levando-se em conta que sexualidade é encontro, é vida, pois a energia que nutre o impulso sexual é a da alegria, do prazer, da imaginação, dos sonhos, o que dizer desses idosos que passam o tempo, não o vivem, que não se permitem fazer projetos de vida ou então são impedidos de fazê-lo?

Quando falamos em sexualidade é importante falar que além da condição biológica e emocional, a própria cultura e o ambiente físico e social, em que o idoso está inserido, pois vale definir que assim como a melhor idade, a sexualidade é uma construção social.

No que diz respeito ao corpo, já aceitamos a possibilidade de não deixar a máquina envelhecer: pílulas para todos os fins, da memória ao orgasmo. A química resolvendo tudo, mas não compreendendo nada.

A orientação puramente biológica nos aponta o déficit e a emocional nos abre novas perspectivas. Mas para conhecermos a condição humana não bastam tais conceitos, é necessário integrar a experiência humana em seus três níveis de desenvolvimento: biológico, psicológico e social.

Isso tudo é muito lógico, mas esbarramos num aspecto quase incontornável, a nossa sociedade não reconhece a sexualidade como parte de uma experiência de ascensão, crescimento e evolução.

Pois é na experiência do amor que se chega ao sublime e é através do sexo amoroso, que um indivíduo se vincula ao outro numa relação de troca em qualquer idade.

Acho até que com a idade mais madura, quando não se privilegia mais a agressividade e o imediatismo, mais se valoriza o processo criativo, a sabedoria, serenidade e bom humor. Enfim, quando corpo e alma se integram sem preocupações, o encontro pode se tornar uma grande carícia no corpo na alma e na psiché. Ou assim deveria ser.

Homem é homem, não e animal que faz sexo só para procriar, embora procrie; não é vegetal que se não for comido estraga, não é mineral que dura uma eternidade.

O homem e a mulher maduros pensam o sexo com o coração e fazem sexo com o corpo todo.

O problema é que quem sabe disso fala pouco, porque a sociedade e os que convivem com os idosos – ou seja, a família e os cuidadores, quando for o caso – geralmente não dão espaço para isso e negam essa possibilidade de expressão sexual, reprimindo toda e qualquer manifestação de prazer e desejo.

Com crianças e jovens fala-se de educação sexual, gravidez, camisinha, orgasmo e com o idoso de doenças, heranças e planos de saúde.

São poucas e raras as pessoas de mais experiência que conseguem perceber seus desejos, abrindo-se para a vida, dar e receber.

Só há um caminho de cura, por meio da informação adequada e sem preconceitos, da palavra amorosa e do toque amoroso, da verdade e a verdade sobre sexo na maturidade é alegria, beleza, toque, liberdade, do jeito que cada um eleger como o mais prazeroso.

Longe, muito longe do padrão de avaliação de sexo bom que usa como parâmetro a performance, quantidade e conceitos de estética idealizado até para os mais jovens.

Se trazemos na educação preconceitos diante da sexualidade, do feminino e do masculino, trazemos também no plano mais profundo de nossa psiché, as possibilidades de plenitude, de encontro e de engrandecimento humano, querendo ser resgatados entre o feminino e o masculino em todas as idades.

Parece que o psiquismo ainda está por aprender e se integrar ao que os planos biológicos e espirituais nos revelam: o homem e a mulher como duas versões de uma mesma e grande história, a história da humanidade.