Panorama Regional
Fernando De Maria

Goela abaixo

13 de março de 2014 - 17:25

Compartilhe

Os gritos, apelos e palavras de ordem dos moradores do Macuco e Encruzilhada não encontraram eco junto às autoridades da Dersa. Na última semana, a estatal bateu o martelo. Vai mesmo iniciar a construção do túnel  imerso ligando Santos ao Guarujá, via Macuco e o Sítio Conceiçãozinha. 
Ao todo, serão 762 metros de extensão, com 21 metros de profundidade e 34,92 cm de largura, onde poderão circular carros, pedestres, bicicletas, ônibus, caminhões e até o VLT – Veículo Leve Sobre Trilhos, em um futuro onde nem Prestes Maia, o visionário engenheiro, arquiteto e político que já previa uma ligação seca entre as duas ilhas há mais de 70 anos, imaginaria. 
Conforme o diretor-presidente da Dersa, Laurence Casagrande, a empresa já recebeu a documentação e propostas para a execução do projeto – cuja previsão de término será em 2018 – de cinco consórcios, formados por 18 empresas interessadas. Participam desta fase de licitação empresas do Brasil, Espanha, Holanda, Itália e Coreia do Sul.
O presidente da Dersa também deixou claro que caminhões poderão trafegar pelo túnel, o que provocará transtornos aos moradores dos bairros atingidos, pois a movimentação destes veículos ficará sobrecarregada nestes localidades, onde boa parte das ruas de acesso até os pontos de embarque e desembarque dos túneis são estreitas, especialmente do lado santista, sem contar com os 155 imóveis desapropriados em Santos e 1.255 em Guarujá, a maioria subabitações. 
A promessa é que as desapropriações serão pagas de forma ágil e com valores justos. Espera-se que a teoria dos discursos seja colocada em prática.
Mesmo alegando que as prefeituras terão a autonomia para regulamentar  a circulação de caminhões fica evidenciado que o concessionário- a obra deverá ser repassada à iniciativa privada em forma de concessão, a exemplo do que já ocorre com as estradas e o futuro VLT –  planeja a exploração comercial plena, o que inclui a instalação de praças de pedágio (a tarifa será semelhante à cobrada pelas balsas)  para exploração de todos os tipos de veículos, inclusive caminhões, além da criação de bolsões de estacionamento no meio do estuário. 
Lamenta-se apenas que o projeto ligando Santos-ilha ao continente, via Saboó, que atenderia a demanda de caminhões, como sempre sonhara o ex-prefeito Oswaldo Justo, tenha sido deixado de lado. A medida que os caminhões poderão circular pelo futuro túnel fica evidenciada que a escolha da localização ocorrerá muito mais por sua visibilidade junto à opinião pública do que efetivamente aos interesses de tráfego entre as duas margens do porto. Além disso, qual o futuro das balsas neste cenário? Continuarão sendo usadas mesmo com a proximidade entre as duas rotas de passagem?
Lembrete: a obra  contará com recursos públicos do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento (R$ 1 bilhão), Banco Nacional de Desenvolvimento (R$ 1 bilhão) e Governo do Estado (R$ 500 milhões).