Panorama Regional
Fernando De Maria

No olho do furacão

Se o Irma e Maria fizeram estragos no Caribe e na América, o furacão J&F (JBS) permanece na política brasileira, sem perspectivas de diminuir a velocidade

24 de setembro de 2017 - 10:06

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Por 10 votos a 1, o Supremo Tribunal referendou o envio à Câmara dos Deputados da nova denúncia apresentada pelo então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente Michel Temer. Trata-se da segunda do gênero encaminhada pelo Ministério Público, sem contar as lançadas pela Polícia Federal, como a da venda de facilidades na MP dos Portos, beneficiando empresas portuárias, inclusive algumas que atuam no Porto de Santos, tradicional reduto peemedebista.

Os ministros (com exceção de Gilmar Mendes) entenderam que cabe ao Supremo encaminhar a denúncia contra o presidente (a segunda em menos de três meses) diretamente à Câmara dos Deputados, sem fazer juízo sobre as acusações antes da deliberação da Casa sobre o prosseguimento do processo no Judiciário.

Desta forma, a defesa de Temer saiu-se derrotada, pois pretendia suspender o procedimento para esperar o término das investigações iniciadas pela Procuradoria para apurar ilegalidades no acordo de delação dos empresários da J&F (JBS).

Em seus últimos atos, Janot – além da PF – juntaram o quebra-cabeça da alta cúpula do PMDB, reunindo ministros, ex-ministros, deputados, assessores, alguns presos, mas outros ainda não, apontando Temer como o articulador do esquema da quadrilha, como citado pela Polícia Federal. O presidente e os demais negam.

Apesar dos desgastes e denúncias, o presidente demonstra ser inabalável. Terá, porém, que gastar mais saliva – e mais liberação de recursos – para vencer este novo processo.

Ele consegue algo impensável: é o mais impopular da história recente do País, mas o Brasil está com inflação baixa (e desemprego em alta), fazendo com que seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, seja cotado para seguir o mesmo caminho que Fernando Henrique Cardoso fez no governo Itamar Franco.

O Governo aposta que manterá a votação anterior, onde ganhou com folga, a despeito de um placar tímido em relação às pretensões governamentais.

No entanto, o humor de parlamentares, como o próprio presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM), tem mudado. Ele já não se incomoda de criticar publicamente o governo, principalmente após a invasão do PMDB em cooptar parlamentares já apalavrados para migrar para o seu partido e que foram convidados para ingressar na sigla presidencial. Choques inevitáveis de titãs.

Não bastasse, o PSDB, sempre uma incógnita, caminha para suas convenções. E dependendo do resultado, é possível sair do governo, o que enfraqueceria ainda mais o presidente e colocaria em risco a eventual primazia que ele conta no Congresso. Se o Irma e Maria fizeram estragos no Caribe e na América, o furacão J&F (JBS) permanece na política brasileira.